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La Bohemie

Ai se esta rua fosse minha...

Esta rua é uma maravilha. São os miúdos da Escola António Arroio que saem dos exames e passam as tardes no jardim entre conversas e desconversas. É a criançada que está de férias e passa as tardes a descer a rua de skate, de bicicleta e de cabeça. São as beatas que se colocam à janela a limar as unhas e falam sobre a prima da amiga do cunhado da menina Claudete que lava a escadas do prédio da rua abaixo porque tem seis filhos e a vida está difícil. É o rapazito do prédio da frente que já tem idade para ter juízo mas acha que é engraçado passar as tardes de tronco nu a mirar quem passa. É o vizinho do rés-do-chão que lembrou-se que a idade da reforma é a idade certa para passar os dias a partir e esburacar paredes. É a vizinha das traseiras que tem um rebanho de netos, mas falta-lhe o pastor, o cão guarda e o tente na língua. São os brasileiros que fazem churrascos todos os dias e metem-me uma inveja dos diabos porque não tenho uma varanda nem um assador. É o Sandro que vai à janela e grita pelo Gonçalo para irem brincar. É a mãe do Gonçalo que não o deixa brincar, é a avó do Sandro a berrar. São os jogos no café, as coscuvilhices na mercearia e as conversas no cabeleireiro. E sou eu, que tento ter uma horinha de sossego para ler, escrever e estudar. A sério, esta rua (não) é uma maravilha.

 

Beijinhos, La Bohemie.