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La Bohemie

E por falar em grupos...

Tenho de referir o meu grupo de teatro. Um grupo sem grupinhos, sem rótulos e etiquetas, sem classes e marcas, sem merdices e pieguices. Ok, pieguices têm imensas, mas são boas, saudáveis e engraçadas. É, talvez, o primeiro grupo em que se me pedissem para escolher uns quantos elementos, como se fazia nas aulas de educação física na hora de formar equipas, eu escolhia todos. Porque eu gosto de todos e são-me todos muito importantes, cada um à sua maneira – o nosso grupo é uma espécie de salada mista, com diversos ingredientes e quando falta um, sente-se a sua falta, o seu sabor, o seu tempero.

 

Quando soube que ia mudar de casa, a primeira coisa que fiz foi organizar um jantar de despedida do 118 – o lugar onde tudo o que pode acontecer, acontece. Porque foi aqui, nesta casa, que tivemos a nossa primeira reunião de trabalho, o nosso primeiro jantar, o nosso primeiro encontro, o terceiro, o quarto e tantos outros; foi aqui, nesta sala, que nos conhecemos melhor, ao pormenor, onde falámos de coisas boas e coisas más, onde rimos, chorámos, conversámos, cantámos, dançámos, onde fingimos que trabalhámos, onde trabalhámos a fingir (e a sério). Foi aqui, nesta casa, que contámos segredos que deixaram de ser segredo; que tive a primeira discussão com o André que durou mais de um mês; que a Catarina derramou coca-cola na carpete e eu disse que não fazia mal porque é preta e ninguém vê. Foi aqui que a Rita entornou – uma mistela qualquer – sobre a minha manta da Hello Kitty, a famosa manta rosa que eu usei nos bastidores do nosso espectáculo de teatro e que andou perdida nos camarins, no carro da Alexandra e voltou, finalmente, para casa. Foi aqui, neste apartamento, que tivemos reuniões que começaram às nove da noite de um dia e terminaram às nove da manhã de outro; foi aqui mesmo que tivemos jantares onde ninguém bebe álcool, mas toda a gente lembrou-se de levar dezenas de bebidas no último e toda a gente bebeu – e brindámos a tudo e a todos, com água, com cerveja, com vinho, com gelatinas e patês. Foi aqui, entre três assoalhadas, que cantámos Singstar às quatro da manhã e o André perguntou-me cinquenta mil vezes se os vizinhos não se chateavam e foi, também aqui, que o André chegou à conclusão que os vizinhos não se chateavam porque são surdos – apesar de a Rafa me ter pregado o maior susto de sempre ao tocar à campainha às três da manhã e refilar com o barulho. Foi aqui que tivemos o nosso jantar de Natal e trocámos presentes; foi aqui que fizemos a nossa festa de Carnaval e ganhámos prémios. Foi aqui que proibi de vermos a Casa dos Degredos e toda a gente viu, e riu, e gozou e imitou, entre sketches e palhaçadas.

 

Quando mudar mesmo de casa, vou recordar-me de tudo e de todos. Da noite em que ganhei o Cluedo com uma aposta completamente ao acaso, da noite em que a Rute e a Ana Catarina vieram pela primeira da vez, do jogo do Lobo, do Polícia e Ladrão, dos post-it´s, das noites em que adormeciam três e quatro no mesmo sofá, da Catarina dizer-nos para “baixarmos os decibéis”, da Alexandra dizer-nos “eu não estou a dormir, estou apenas a descansar os olhos”, vou recordar-me de todos os nossos teatros, sketches e cantigas. Vou lembrar-me do terror de irem ao quarto de banho por ser rosa e da Hello Kitty, vou lembrar-me de dançar no meio da sala e espetar com o braço no candeeiro do tecto, da Marta a cantar a canção Bailarina do Angélico e ainda pedirmos bis. Vou lembrar-me de tantos e outros momentos que este grupo sem grupinhos me proporcionou. Das teorias do André, das palhaçadas da Carina, da Rafa e da Rita, da pronúncia do norte da Marta, do conforto da Alexandra, dos meus picanços com a outra Rita, da selecção de músicas da Catarina, da aparição da Ana Catarina, dos peluches da Anitha, das saudades da Margarida e da Mónica, do silêncio do Mikas e da sempre e eterna presença da Telma. E claro, do meu lombo!

 

Vou ter saudades desta casa com este grupo, saudades doces e coloridas, saudáveis e desmedidas. E é por isso que agradeço a todos eles, e a cada um, a sua presença nesta casa e na minha vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 (nada como levar um bocadinho desta casa para a nova. Obrigada)

 

A todos, aos presentes e omnipresentes, muito obrigada. Por tudo e por nada. Obrigada por serem quem são, por serem como são.

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.