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La Bohemie

Grupos e grupitos.

Não sou menina de grupos e acho que ter feito parte de “um grupo” foi das piores experiências da minha vida. Quando se está muito tempo com o mesmo clã de amigos, dias após dias, semanas após semanas, anos após anos, dá sempre chatice, confusões, mal entendidos ou sente-se, simplesmente, uma monotonia que corrompe o ambiente.

 

Quando estudei no colégio tive a mesma turma durante onze anos, uns saíam, outros entravam, mas a turma sempre foi a mesma. Ainda hoje mantenho amizades de 19 anos, mas há sempre alguém que se identifica como “o fulano do grupo dos mais velhos” ou “a fulana do grupo das betinhas”. Eu sempre me dividi entre as amigas da turma, as amigas da equipa de futebol, as amigas da equipa de basquetebol, os colegas do grupo de teatro e os amigos dos amigos. Obviamente que passei pelas pieguices das amigas de hoje que já não o são amanhã, pelo grupo dos meninos mais giros da turma, pelo grupo dos rapazes e raparigas do secundário que eram cool porque já não usavam farda, passei pelo clã de amigos do meu irmão porque eram mais velhos e pelo clã de amigos da minha irmã porque eram mais novos. Sempre gostei de conhecer pessoas e fazer amizades curtas, duradouras ou assim-assim.

 

Tive o meu primeiro “grupo” no sétimo ano – era um grupo enorme, só de rapazes e duas raparigas, eu e a Mariana. E senti pela primeira vez o que era passar todos os intervalos com as mesmas caras, falar das mesmas coisas, combinar fins-de-semana com as mesmas pessoas, fazer sempre o mesmo. Depois, com o tempo, com a rotina e com a monotonia, o grupo separou-se. No nono ano voltei a fazer parte de outro grupo, o das betinhas. Era cool andar de sapatos de vela, de BW, de colares de prata ao pescoço e carregadas de pulseiras fluorescentes no pulso. Habituei-me à ideia de andar de risco ao lado, de namorar com um tipo quatro anos mais velho que jogava na Academia do Sporting, combinar fins-de-semana em Vilamoura, e passar os intervalos com a malta do secundário que era cool porque já não usava farda. Depois, com o tempo, com a rotina e com a monotonia, o grupo separou-se. No secundário pensei que ia ser diferente porque mudei de escola, de colegas e de ambiente. Mas não, foi pior. Na turma era a betinha riquinha que vinha do colégio e só usava roupas de marca, era a betinha marrona que só tinha boas notas e que não sabia o que era a vida dura e crua. Era a betinha cool que era de Lisboa e boas famílias e isso é que era importante. Era a betinha que afinal não era betinha nenhuma, até era porreira, tinha boas notas porque em casa não eram permitidos valores abaixo de 15, era a Mafalda do grupo de Teatro que até representava bem, mesmo sem o apoio mútuo em casa, era a Mafalda que até escrevia umas reportagens e coordenava o jornal da escola, era a Mafalda do grupo do Parlamento dos Jovens porque afinal até percebia qualquer coisita de política, era a Mafalda da Associação de Estudantes que organizava mil e uma coisas.

 

Nunca tinha percebido a dinâmica de grupos, até entrar na faculdade. Sempre me disseram que ia ser diferente porque todos eram diferentes, não existia esta guerra de marcas e classes, que cada um vinha da sua cidade, cada um tinha a sua rotina e que, por serem muitos, todos se davam bem (ou não). Sempre me disseram isto da faculdade, só se esqueceram de me dizer «é assim em todas as faculdades, menos na CATÓLICA». O mundo da Católica é um mundo selvagem, de vassalagem, é um verdadeiro labirinto do “salve-se quem puder” – é o verdadeiro mundinho dos grupos. É o grupo dos surfistas, é o grupo das betinhas, é o grupo das não-betinhas, é o grupo das que querem e fazem de tudo para serem do grupo das betinhas, é o grupo dos fashion, é o grupo dos não-fashion, é o grupo das cusquices, é o grupo das merdices e é o grupo das pessoas que se estão a marimbar para esta gente toda. É uma verdadeira guerra de poderes, de manias e de estupidez acima de estupidez. Sempre desejei entender como se sente uma pessoa que faz parte do grupo dos populares – é porreiro? Sente-se superior a todos os outros? Sente o poder de ser conhecida em toda a faculdade, pelas coisas boas e pelas coisas más? É bom sentir-se apontada por ter comido este e aquele? É bom sentir-se falada em todos os intervalos? E por que razão quer uma pessoa fazer parte do grupo popular? Quer atenção? Quer show-off? Quer ser apontada, vista e falada? É isso que faz de nós melhores pessoas? É realmente isso que faz de nós importantes? É, de facto, o «bom dia, querida, dê cá um beijinho. Conte-me tudo sobre o seu fim-de-semana no Guincho com o Martim. Os seus sogros gostaram do seu novo Rolex?» relevante na vida de uma pessoa?

 

Se na Católica conheci gente interessante, fiz amizades para uma vida e vinquei relações importantes, também na Católica conheci gente mesmo mesquinha, pessoas más como o diabo, gente burra que só sabe ver a palavra status à frente. Porque hoje em dia o que é importante é ter status, essa palavra enfadonha e ridícula. Vi pessoas a discutirem nos corredores por causa de um tipo giro cheio de mania, senti na pele as discussões e mesquinhices por causa dos trabalhos de grupo, vi grupos a lixarem grupos nas apresentações dos trabalhos, vi gente a falar mal de gente atrás de gente, porque não passa de gentinha. Amigas a terem raiva e ciúmes porque uma teve dois valores a mais que a outra, grupos a separarem-se porque o fulano terminou o namoro com a fulana e, se já não são namorados, acabou-se o grupo para todo o sempre. Tive colegas a chatearem-se comigo porque passava mais tempo com outras colegas do que com elas, tive amigas a chatearem-se e a colocarem-me entre a espada e a parede, tive gente a olhar-me de lado ou a falarem comigo só porque namorava com o presidente da Associação de Estudantes e isso era supre-híper-mega-importante.

 

Depois, comecei a trabalhar e percebi que todo este universo dos grupos existe em todo o lado e, muitas vezes, de forma e dimensão piores. Trabalharmos com pessoas de quem gostamos muito e confiamos imenso, e vermos essas mesmas pessoas tentarem roubar-nos o lugar, a posição ou o cargo é horrível. As pessoas falam por falar, dizem por dizer, comentam por comentar. Falam do que não sabem, dizem o que não devem, comentam o que não têm a certeza. Quebra-se um laço de confiança, de admiração, de respeito. Acho que, pior que as primeiras impressões, são mesmo os rótulos que atribuímos às pessoas, principalmente quando não as conhecemos. A pessoa fica marcada de tal forma, que sente-se obrigada a combater, dia após dia, toda essa pressão a que está subtida. E é por isso que não sou menina de grupos, porque já fui e sei o que sofri com isso.

 

Beijnhos, La Bohemie.