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La Bohemie

Work To Work.

Se há empregos que eu pagava para ter, há trabalhos que eu era incapaz de os fazer, mesmo que me pagassem. E como tal, admiro imenso quem os tenha e quem os faça, a sério que sim.

 

Em primeiro lugar, os funcionários de Call Center. Há muita malta jovem que acha que é o trabalho ideal para quem estuda, que é só chegar, sentar, fazer umas chamaditas e já está. Já está, já. E a paciência? E o estofo? E o stresse? Tenho a certeza absoluta que não tenho jeitinho nenhum para me sentar numa cadeira e passar quatro ou oito horas a falar ao telefone com dezenas e centenas de pessoas – ora não têm paciência, ora estão de mau humor, ora refilam que não têm tempo, emprego e dinheiro. Eu detesto falar ao telefone, seja com o namorado, com a Mãe ou com a tia-avó, detesto. Não tenho disponibilidade nenhuma para estar a falar para as “paredes” e, quando tenho, ninguém me pára, falo, falo, falo, e ando, ando, ando, então quando estou na rua, ui, desapareço, parece que tenho bichos-carpinteiros e que não sei falar ao telefone quietinha no mesmo lugar. Também não tenho jeitinho nenhum para vender produtos, sejam pacotes de televisão, internet e telefone, sejam cremes e shampoos, sejam acções do bcp ou cotas do Benfica – sei promovê-los porque já promovi, mas não consigo estar meia hora a pressionar um cliente «mas compre, vai ver que não se arrepende», «mas leve, tenho a certeza que vai gostar», «mas adira porque EU ESTOU A PEDIR-LHE PARA ADERIR». Não, não e não – eu detesto que mo façam, por isso, não teria habilidade para torturar as pessoas a este nível psicológico. Trabalhar num Call Center pode chegar mesmo a ser um trabalho ingrato, principalmente naqueles em que se vendem pacotes de tv a cabo. Os contractos são renovados de semana a semana e se não se vender, vai-se para o olho da rua, mais cedo ou mais tarde – o objectivo é vender, por isso tem-se que vender, custe o que custar, queira o cliente ou não. Ponto. Uma pessoa é obrigada a vender 15 pacotes em quatro horas e está constantemente sobre uma tremenda pressão psicológica porque sabe que, se não vender, não ganha comissão e pode, ainda, perder o trabalho na semana seguinte. E é essa pressão psicológica que é passada, muitas vezes, ao cliente e é, também por isso, que se liga uma, duas, três e quatro vezes a instigar uma pessoa a comprar – mesmo quando ela NÃO QUER. É um verdadeiro jogo de pingue-pongue entre quem precisa de vender e quem não quer comprar. E isso massacra os jogadores, o treinador, a equipa e os espectadores. É uma pirâmide que precisa de se manter firme de semana a semana e, se não existir uma boa gestão, esta pode desmoronar-se – o dono da empresa manda no coordenador que manda no chefe de equipa que manda em todos os elementos da equipa que NÃO PODEM mandar no cliente – mas muitos acham que podem!

 

- Bom dia, é possível falar com a Sra. Mafalda Saraiva?

- Sim, é.

(…)

- Sim?!

- Mas estou a falar com a Sra. Mafalda Saraiva?

- Sim, está.

- Ah muito bem, Sra. Mafalda, então é o seguinte, fala Maria da Conceição, da Pt Comunicações…

- Eu já sou vossa cliente, aliás, já sei que me vai falar de uma nova campanha que têm do telefone com chamadas ilimitadas e mais não sei o quê a 19.99 euros por mês, mas não estou interessada, obrigada.

- Mas permita-me a pergunta, qual é o pacote que tem?

- Não faço ideia do nome, sei que tenho muitos canais, chamadas ilimitadas e internet rápida.

- E qual é o valor que paga?

- A senhora deve saber isso melhor do que eu, tem a minha base de dados à sua frente, mas pago cinquenta e tal euros por mês.

- Muito bem, Sra. Mafalda Saraiva.

- Por favor, trate-me só por Mafalda.

- Com certeza, Sra. Mafalda Saraiva, mas como estava a dizer, este pacote custa apenas 19.99 euros por mês.

- Eu entendo, mas como EU estava a dizer, não estou interessada, obrigada.

- Mas repare, está-me a dizer que prefere continuar a pagar mais de cinquenta euros por mês, quando pode pagar apenas 19.99 euros?

- Sim, é precisamente isso que lhe estou a dizer. E sabe porquê? Porque quando aderi também me vieram com essa conversa florida que só pagada vinte euros por mês e veja lá o que estou a pagar agora. Muito obrigada e boa tarde.

 Para se trabalhar numa empresa de Call Center é preciso “sorrir com a voz”, mas Ele diz que eu falo, sorrio e comunico muito com os olhos, por isso, trabalhar através de um telefone nunca daria para mim. E também não tenho muito jeito para ser cliente, confesso. Sou daquelas pessoas que sabe o que quer comprar, onde comprar e com quem falar, detesto ser chateada de cinco em cinco minutos com conversa fiada.

Logo a seguir, vêem os vendedores de porta a porta – eu chamo-lhes vendedores ambulantes – aqueles que passam quatro ou oito horas a tocar campainha, atrás de campainha e massacram uma pessoa com as tais (e sempre as mesmas) conversas fiadas.

- Bom dia, já tem Meo Fibra?

-Não, tenho Zon e…

- E não está interessada em mudar para Meo Fibra?

- Se me tivesse deixado terminar, sabia que tenho Zon, E que não estou interessada em mudar.

- Mas nós estamos agora com uma campanha nova…

- Vocês têm sempre imensas campanhas, MAS eu não estou interessada, obrigada.

- Mas tem acesso a 200 canais, chamadas para telefone fixo ilimitadas, 100 megabytes de internet e…

- E eu não quero mudar!

- E ainda lhe oferecemos três meses gratuitos de canais Tv Cine.

- Não me leve a mal, mas vou fechar a porta. Com licença e tenha um bom dia.

- Obrigada pela atenção, vou só deixar o panfleto e, se mudar de ideias, está aqui o meu contacto.

 

É horrível, horrível, horrível. É torturante para o cliente que está em casa sossegado, na paz dos anjinhos e ainda tem de estar meia hora a dizer que NÃO QUER, e é doloroso para a pessoa que anda de porta em porta a tentar vender um produto, mesmo sabendo que está a incomodar, mesmo sabendo que está a ser chato como as portas e que, apesar de estar a fazer o seu trabalho, leva com a porta na cara. Tenho amigos que trabalham em Call Centers e tenho amigos que já trabalharam como vendedores ambulantes e todos eles já me contaram histórias mirabolantes. Um amigo contou-me, inúmeras vezes, que lhe custava ter de vender um pacote tv cabo a pessoas com doenças graves que nem sequer tinham dinheiro para os medicamentos ou a pessoas que se notava passarem imensas dificuldades financeiras e que, mesmo assim, na fase de formação, tinha de insistir em vender um produto supérfluo. Uma amiga contou-me que, uma vez, ao tentar vender um produto de tv cabo a uma senhora idosa, levou com uma vassoura e nunca mais se atreveu a vender fosse o fosse de porta em porta. É um trabalho igualmente ingrato e, muitas vezes, nem se recebe um ordenado fixo, ganha-se apenas à comissão, consoante aquilo que se vende.

 

Por último, e não muito diferente dos outros, são os vendedores estáticos, aqueles que abancam na rua e estão horas ao frio, à chuva ou ao sol a entregar panfletos. Ele é panfletos de branqueamento aos dentes, ele é panfletos de compra e venda de ouro, ele é panfletos do Irmão Orixá que lança os búzios e lê a cina. Mas cina tenho eu com estes vendedores (ou entrega-panfletos). No início ainda ficava com o papelito, acumulavam-se aos montes dentro das malas e tinham todos o mesmo destino: o lixo. Mas agora já nem os quero, não vá sofrer represálias, um dia, por ter deitado fora tanto papel fora. E acho que se trata de um trabalho ingrato porque passam horas em pé no meio da rua a entregar panfletos que ninguém quer, que ninguém lê e, muitas vezes, ainda são mal tratados verbalmente. E não acredito que recebam, uma fortuna para fazê-lo.

 

Todos estes tipos de trabalho, em que uma pessoa é obrigada a massacrar horas e horas outra pessoa, só para poder ganhar o seu dinheirito, são muito ingratos e, apesar de não conseguir fazê-los, admiro imenso quem os faças, quem tenha a persistência e estofo que eu não tenho. 

 

Beijinhos, LaBohemie.