Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

La Bohemie

Time Long Time.

A minha geração criou o péssimo hábito de se desculpar com a falta de tempo. Nunca temos tempo para dormir o suficiente, nunca temos tempo para estudar, para estar com os amigos, para passear o cão, para arrumar o quarto. Nunca temos tempo para nada. Tenho amigos que chegam ao cúmulo de se desculparem por não terem tempo para um café de quinze minutos.

 

Organizar jantares de grupo é sempre o maior martírio porque há sempre alguém que não pode – ou porque já tem outro jantar que não pode ser adiado, ou porque joga o Benfica ou porque já sabe que nesse dia vai estar doente. No caso dos jantares há sempre os extremos, há aquele que nem precisa de confirmar porque tem sempre disponibilidade para tudo, mesmo que isso implique ir a três encontros diferentes na mesma noite, e há aquele que nem se pergunta se vai porque nunca pode ir.

Por vezes questiono-me o que será da nossa geração quando chegarmos à fase seguinte, à fase em que temos um emprego fixo e são-nos exigidas horas e trabalhos extras, a fase em que temos a nossa casa, o nosso companheiro e os nossos filhos, as nossas responsabilidades e as deles. A fase em que o tempo precisa mesmo de ser esticado, planeado e bem gerido. Uma vez fiz um seminário sobre a gestão do stresse e falou-se, precisamente, da gestão do tempo, como podíamos planear os nossos trabalhos, gerir as horas de trabalho e organizar todas as outras tarefas que fazem parte da nossa rotina. E o único segredo chama-se disciplina. Se formos disciplinados, sabemos automaticamente estruturar as nossas prioridades.

 

Sabemos, cada vez menos, estabelecer prioridades. Deixamos as entregas dos trabalhos todos para o último mês, os estudos atropelam-se, confundem-nos, depois vem o calor e só queremos ir para a praia com os amigos, sentar no café e ver a bola. Quando damos por nós, já passou um dia e outro e ainda outro, e voltamos a dizer que nunca temos tempo para nada. Não sei se aprendi com a minha Mãe por ser a super-guerreira do tempo, se com o meu pai por ser gestor de empresas, mas a verdade é que sempre soube gerir prioridades, tarefas e deveres. O meu pai sempre me ensinou que era preferível estudar para os exames de hora em hora com intervalos de quinze a trinta minutos do que estudar oito horas seguidas porque o cérebro desliga. E, com o tempo, percebi que deveria ser assim com quase tudo. Nós precisamos de pequenos intervalos com o trabalho, com a família, com os amigos e com os extras do nosso dia.

Há pessoas que não têm tempo para ir ao cinema mas ficam horas deitadas no sofá a ver televisão. Há pessoas que não têm tempo para estudar, mas passam horas nas compras. Há pessoas que não têm tempo para ir visitar a família, mas passam horas na borga com os amigos. E isto não é falta de tempo, é incapacidade de estabelecer prioridades. Somos pessoas que adiamos as horas, os dias e as semanas, porque há sempre qualquer coisa ou porque simplesmente há nada. E desculparmo-nos com o tempo, é enganarmo-nos com uma ilusão preguiçosa, enfadonha e viciante.

 

Muitas vezes perguntam-me como tenho tempo para acordar de madrugada, assistir às aulas de manhã, trabalhar à tarde, ter ensaios à noite, chegar a casa à meia-noite, e ainda ter paciência para fazer o jantar, escrever, fazer trabalhos extras, actualizar o blogue, ter tempo para ele, para mim e para os outros. Não tenho segredos, estabeleço prioridades. Se por um qualquer motivo tenho um trabalho para entregar com urgência, chego atrasada ao ensaio e compenso no seguinte. Se por uma qualquer razão preciso muito de uma noite só para mim, não estou com ele. Se vejo os dias as passar rapidamente e as saudades a apertar, dispenso um fim-de-semana com os amigos e passo-o em casa da minha mãe. Se saio de um ensaio de três horas e não tenho vontade de ir para casa jantar, dispenso uma hora de conversa no café com as minhas amigas. Se a minha irmã precisa da minha ajuda para um trabalho da faculdade, abdico de duas horas das minhas escritas para a ajudar. É uma questão de gestão, de estrutura, de abdicação. De prioridades. Como é que fazem as pessoas que trabalham um dia inteiro e ainda têm de ir buscar os filhos à escola, dar-lhes banho, fazer o jantar, arrumar a casa, passar a roupa e relaxar com o marido? Há quem faça muito mais e consegue, e só o consegue porque quer, dedica-se, esforça-se.

 

Acredito que uma boa gestão do tempo exige muita disciplina e dedicação. Mas a minha geração criou o péssimo hábito de se desculpar com a falta de tempo.

 

Beijinhos, La Bohemie.