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La Bohemie

O telemóvel perdido.

Como é que se perde um telemóvel dentro da própria casa?

 

 

 

Ele diz que eu sou uma óptima dona de casa, que a tenho sempre limpa e arrumada. Seria hipócrita da minha parte desmenti-lo porque eu sou a miúda com mais manias que conheço. Os livros estão organizados na estante por cores, todas as minhas contas e documentos estão arquivados em pastas por letras e datas, os apontamentos da faculdade por disciplinas, semestres e anos lectivos. As almofadas da sala têm uma lógica de estética e, se estiverem fora do lugar, cai o Carmo e a Trindade. Os perfumes também estão organizados por conjuntos de marcas e os vernizes pelas cores da estação. As toalhas do quarto de banho têm de estar dobradas e dispostas por conjuntos, não me vá dar uma coisinha má. Tudo o que é roupas, malas e sapatos estão alinhadinhos por formas, cores e feitios. As pulseiras nas caixas das pulseiras, os colares nas caixas dos colares, os brincos nas caixas dos brincos e os relógios nas caixas dos relógios – para a minha irmã, isto, é muito difícil de entender. Mas isto é coisa recente porque, segundo testemunhas familiares, eu era a pessoa mais desarrumada de sempre e vivia num quarto que parecia uma banca da feira. Lembro-me, muitas vezes, de ouvir a minha mãe dizer que ia doar todas as roupas que estivessem fora dos armários e o meu pai queria deitar fora todos os brinquedos que estivessem desarrumados. Acho que, no fundo, nunca entenderam o meu sentido estético.

 

Pode parecer doentio, mas não é. Pode parecer maníaco, mas não é. Talvez um pouco, mas acredito que seja uma questão de hábito, de educação, de bem-estar. Há pessoas que conseguem viver com a sua própria desarrumação, eu não. Desde que vivo sozinha que sinto uma tremenda necessidade de ter tudo arrumado e organizado – acreditem, se já é uma seca ter de arrumar e limpar um quarto, imaginem uma casa. Claro que não passo os dias de balde e esfregona na mão, há alturas que não me apetece arrumar a loiça na máquina, estender a roupa ou fazer a cama. Há noites em que entro no quarto e tenho uma pilha de vestidos em cima da poltrona e contemplo-os como se de uma obra de Picasso se tratasse, levo horas para sacudir meia dúzia de carpetes e espero que o pó se limpe sozinho. Há quatro anos que suplico uma empregada à minha mãe, mas a resposta é sempre a mesma «não diga disparates, filha. Não queria viver sozinha? Agora aguente-se. Onde é que já se viu um fedelho de vinte anos ter uma empregada?» (a partir de que idade é que se pode contratar uma empregada?)

O grande problema das arrumações é que, mesmo com tudo arrumadinho, nunca se sabe de nada. Eu nunca sei das chaves de casa, nunca sei do passaporte ou do boletim de vacinas, nunca sei do cartão de crédito (para felicidade da minha Mãe), nunca sei dos óculos de sol – têm todos um lugarzinho ao sol, mas há sempre uma qualquer maldita nuvem que os faz desaparecer.

 

Eu tenho tendência para perder os telemóveis. Uso-os para tudo, mas nunca sei deles. Ou é o despertador que toca e atiro-o para debaixo da cama, ou recebo uma chamada no escritório e encafuo-o no vaso das canetas, oiço música no banho e deixo-o em cima da balança, levo-o para a sala e perde-se no meio das almofadas ou vou cozinhar e evapora-se no cesto no pão. Mas o pior é quando se encafua no meio dos tops e camisolas, perdido nos confins do armário, caído no cesto da roupa interior ou naufragado em mares revoltos que é o dos vestidos.

 

Como é que se perde um telemóvel dentro da própria casa? Não sei, mas eu perdi-o.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

 

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