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La Bohemie

A crise das crises.

Prestações, créditos, juros, taxa, cobranças, dívidas. É um monstruoso ciclo vicioso que se emaranha como um novelo de lã e, quando se dá por ele, quase que é necessário um milagre para se desfazer de uma situação que não tem solução.

Lá vai o tempo em que as pessoas guardavam todo o seu dinheiro debaixo do colchão, faziam as suas poupanças para um dia poderem usufruir de uma reforma assegurada e um futuro confortável. As pessoas trabalhavam e metade do ordenado era guardado para um qualquer azar inesperado ou para a faculdade dos filhos. Agora, o ordenado mal chega para pagar os bens de primeira necessidade, já não se fazem poupanças e o presente é mais incerto que a certeza do futuro.

 

A crise tornou-se a palavra de ordem. A crise é a culpada de tudo e a crise serve de desculpa para tudo. O governo é que roubou e o governo é que continua a roubar. A culpa é dos ricos porque têm dinheiro. A culpa é dos trabalhadores porque têm trabalho. A culpa é dos empresários porque têm empresas. A culpa é dos bem-sucedidos porque têm sucesso. Eu acredito que a culpa continua a ser do nosso umbigo. Enquanto tivermos a barriga cheia e o papo inchado somos os reis deste império mas, quando as muralhas caem, a culpa é do imperador que não as soube manter hirtas. Eu acredito que a culpa continua a ser do nosso ego. Enquanto continuarmos a achar que somos uns coitadinhos, que o vizinho do terceiro esquerdo só é engenheiro porque teve uma cunha e que é injusto a vizinha do quinto direito ter um plasma de 64 polegadas porque nós só temos um LCD de 52, o nosso ego nunca chegará a ter um alter-ego.

 

A crise, como uma epidemia, veio para ficar, mas continuamos mais preocupados em apontar o dedo à gestão do governo e a culpá-lo de todos os males como se de todo-o-espírito-santo se tratasse. Então e nós, que durante anos andámos a fugir aos impostos, a desviar dinheiro e a fingir que não era nada connosco? Então e nós, que passámos anos a pedir empréstimos ao banco para a casa no monte alentejano, para as férias na Tanzânia e para o colégio dos meninos, coitadinhos que não podiam estudar numa escola pública que isso era de gente pobre. Então e os bancos, que sempre alinharam nesta palhaçada de emprestar, emprestar, e emprestar? Oh coitadinha da D. Ermelinda que já tem 65 anos, está na idade da reforma e merece um crédito à habitação de 75.000 euros, sem taxas de juros e isenção de comissões durante os próximos 20 anos. E a culpa é de quem? Do governo que dá autorização aos bancos para estas acções, dos bancos que nos enchem a barriga com dinheiro que não existe ou nossa que iludimos a cabeça com sonhos que não deviam existir?

 

No fim-de-semana passado tive a oportunidade de observar o comportamento das pessoas dentro de uma enorme cadeia de electrodomésticos e electrónica. Não é, de todo, o melhor passatempo, mas tirei muitas conclusões, nomeadamente que as pessoas compram tudo a crédito e a prestações. Tudo. Eu vi pessoas a comprarem telemóveis topo de gama a prestações e a crédito com taxas de juros. Cheguei a casa aterrorizada e com a ideia de que está tudo louco. Então estamos a atravessar o pico da crise e as pessoas, ainda assim, compram telemóveis de 600 euros e televisões de 2.000 a crédito e a prestações? Uma pessoa que receba pouco mais que o ordenado mínimo precisa mesmo de um telemóvel de 600 euros? Precisa mesmo de ter na sala uma Smart Tv que custa mais que quatro ordenados mínimos? Nesse dia comentei que as pessoas eram gananciosas, que precisavam de ter em casa o que, na verdade, não lhes faz falta e responderam-me que a culpa é das grandes superfícies que criam estas possibilidades de venda a prestações. Pensei muito no assunto e não consigo concordar. O objectivo das lojas é vender e, a meu entender, têm todo o direito que criar acções de marketing agressivo, promoções e proporcionar às pessoas facilidades de pagamento porque o seu objectivo é só e apenas vender. E não, a culpa também não é do governo que levou o país ao precipício da crise. A culpa é das pessoas que compram coisas além das suas possibilidades financeiras. A culpa é das pessoas que continuam a viver à grande e à francesa e esquecem-se que são portuguesas. Sei que é cada vez mais difícil poupar quando nem o próprio ordenado é suficiente, entendo que possam surgir azares e que uma pessoa fique com o frigorífico ou o fogão estragados e que precise da ajuda do crédito para uma compra urgente, mas telemóveis? Plasmas? A máquina de café que é o último grito do mercado, com um design minimalista, a bimby que faz tudo porque um dia pode não apetecer-me cozinhar, a X-box para o menino que não pára de pedinchar? Como diria Senhora minha Mãe, as pessoas deviam era passar uma única noite deitadas ao frio num caixote de papelão para verem o que é passar dificuldades. Essas sim, estão em crise e não compram carros, nem casas no monte nem passam férias na Polinésia Francesa. E não o fazem porque sabem que não podem. Mas com o mal dos outros, passamos nós bem.

 

A crise é uma verdadeira guerra de poder, político, económico, financeiro. Estamos à beira de uma colina a pico, mas há-de aparecer alguém para nos segurar, tal como fazem as grandes massas petrolíferas. Ah, o petróleo não-OPEP está no seu pico? Não faz, temos sempre o petróleo OPEP. Pois, o problema é que à medida que a produção do petróleo não-OPEP cai, os países da OPEP aumentam a sua produção e impedem que haja uma ruptura no abastecimento. Mas ao contrário do liberalismo económico, a OPEP impede que o sistema funcione em liberdade. E justamente porque o mercado não é livre, os preços não sobem gradualmente nem dão aos consumidores e aos governos um aviso prévio e útil para começarem a consumir menos. E nós temos de começar a consumir menos porque não temos dinheiro para mais.

 

A culpa pode ser do governo, da troika, dos bancos e do mundo. Mas a culpa é, também, nossa, que nada aprendemos com o crash de Wall Street, que nada aprendemos, novamente, com o crash de 2008, que nada aprendemos com François Quesnay e Adam Smith. Não nos interessa o liberalismo económico, tampouco nos importa que os grandes bancos americanos se tornaram vítimas de seu próprio veneno, não queremos saber da crise financeira, do Keynesianismo de Richard Nixon e do ultra liberalismo de Ronald Regan. A culpa é nossa que continuamos a apontar o dedo ao tipo do lado que está sentado a ver a bola num plasma de 64 polegadas que comprou a prestações.

 

Beijinhos, La Bohemie.