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La Bohemie

Junho - o mês onde tudo acontece.

Nunca percebi, mas Junho sempre foi o mês que mais gosto de todo o ano. Ou talvez perceba, não fosse marcar a metade do ano e eu não gosto dos extremos. E Junho é precisamente o mês em que começo a marcar cruzinhas até à chegada do Verão, é o mês dos aniversários, dos almoços e jantares de turma, de trabalho e de família. Junho sempre foi o meu mês preferido e também aquele que passava mais depressa - é o mês que assinala (ou assinalava) o fim das aulas, as provas globais, os exames nacionais, as frequências finais. Junho é o mês que anuncia as tardes quentes e as noites mornas, os dias longos e as noites curtas.

 

Recordo-me dos tempos do colégio em que Junho era precisamente o mês das despedidas, das aulas, das provas, dos colegas e professores. O mês das avaliações, das exposições, das festas. Passávamos os últimos dias com as camisas da farda numa mão e uma caneta na outra a pedir dedicatórias aos amigos, aos professores e funcionários. Não sei como surgiu esta tradição mas ainda hoje guardo dezenas de camisolas e diários com centenas de dedicatórias e assinaturas. Lembro-me dos dias em que não havia aulas por causa do Euro e os corredores eram invadidos por buzinas e assobios, gritos e hinos a torcer por um país que pouco torce por nós. Junho marcou o meu secundário com o baile de finalistas, com a escolha do par, do vestido, dos sapatos e do penteado. Junho marcou as minhas manhãs, tardes e noites de estudo para os exames nacionais (ainda me recordo de acordar em pânico durante noites e noites e recitar todos os heterónimos de Fernando Pessoa e os cantos d´Os Lusíadas). Junho marcou os jantares de despedida entre colegas e amigos de uma vida.

 

Depois, já na faculdade, Junho passou a ser o mês da verdadeira rambóia. Ia-se para a praia fingir que se estudava para as frequências, ia-se para a Católica de calções e chinelos e os professores diziam-nos que estávamos numa casa séria e não na praia, as tardes de Outjazz, os jantares atrás de jantares, as noites e noitadas. Os arraiais, as Festas de Lisboa, os Santos Populares.

 

Nunca fui ao São João, mas o Santo António faz-me lembrar as Feiras Novas, em Ponte de Lima. A maior confusão, a maior barulheira mas, e também, a maior diversão. Desde miúda que achava que os Santos Populares eram as marchas e os casamentos de Santo António que via na televisão - coitadinha de mim, vivia na terrinha, sabia lá o que era ir às Festas de Lisboa. O meu irmão faz anos dia 13, por isso, lá em casa a festa era dele. Mas a partir dos meus dezoito anos, a festa começou a ser outra. O que mais gosto dos Santos Populares é que nunca se sabe o que vai acontecer, onde vamos acabar a noite, nem quem vamos encontrar pelo caminho. Ele diz que ir aos Santos e não nos perdermos não é ir aos Santos. Eu nunca me perdi, mas o meu truque é ir para o meio da confusão já perdida – assim está-se preparado para tudo. Já fui para os Santos de carro e de metro, já voltei de táxi e a pé. Começo sempre em Alfama e acabo na Sé, começo com um grupo e acabo com outro – o giro dos Santos é isso mesmo, encontramos sempre alguém conhecido pelo caminho. Mas os meus Santos são diferentes. Rua acima, rua abaixo, jantar no restaurante ou jantar na tasca, uma cerveja aqui, outra ali, à meia-noite encontro sempre o meu irmão para lhe cantar os parabéns. Sempre. Esteja com quem estiver, esteja onde estiver, à meia-noite encontro-o algures no meio da multidão para cantar uma música que descobri não saber cantar (em 2008 fiquei aterrorizada quando descobri que afinal não sabia a letra dos parabéns).

 

Este ano será a primeira vez da minha irmã. E será (também) a primeira vez da Marta e da Rafa que são peritas no São João. Este ano tenho de cantar os parabéns à Marta e ao meu irmão. Este ano tenho de encontrar a minha irmã (ou não). Este ano será diferente porque é sempre diferente. Sem planos, sem itinerário o Santo António será sempre o Santo António.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.