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La Bohemie

Saber Falar. Saber escrever.

Saber falar. Saber escrever. Saber tantas outras coisas que simplesmente não sabemos. Estava a escrever um relatório, mas tive de o interromper para reflectir sobre este assunto, porque acho-o mesmo importante, não só para o cidadão-comum, como (e principalmente) para nós escritores da blogosfera. E sim, eu própria estou incluída porque também eu escrevo diariamente e, como outra qualquer pessoa, dou erros. Mas há erros e erros. Ele acha imensa piada ao facto de eu falar e escrever bem e, de repente, dar a maior calinada no português. E é verdade, verdadinha, dou comigo a falar pelos cotovelos e, do nada, dizer o maior palavrão que possa inventar – porque eu não falo mal, invento, que é pior. O meu cérebro nunca funcionou muito bem e quando começo a contar as minhas intermináveis histórias, cheias de pormenores e detalhes, invento palavras. O primeiro exemplo que me vem à cabeça é a simples frase estava a descer a rua, tropecei e caí. Quando eu, já no meu êxtase de conversa escorada, começo com as minhas descrições exuberantes, sou bem capaz de me sair com uma calinada medonha como “tropecaí”. Porque eu não sou menina de tropeçar primeiro e cair depois, não, eu “tropecaio” no mesmo instante em que desço a rua. O pior é que reparo no preciso momento e, em vez de deixar passar, mesmo quando a outra pessoa não entendeu o erro, faço caretas estranhas e comento «mas isto existe? Onde raio fui inventar esta palavra?» Por isso é que digo que existem erros e erros. Uns são engraçados, fazem-nos rir, outros são ridículos e só nos deixam ficar com uma péssima imagem. E quando é na escrita ainda pior. E é pior porque, além de ser uma prova concreta de que não sabemos falar correctamente, não tem desculpa, uma vez que temos corrector de palavras, seja no Word, no Facebook, no Twitter e até no servidor do blogue. Pessoas, até podemos falar incorrectamente com os amigos, com os pais ou com o senhor da mercearia, mas num texto que vai ser publicado é imperdoável, e malparecido e mais uma catrefada de coisas que cada leitor possa pensar.

 

Não sou uma experiente na matéria, é verdade. Também não me recordo do momento em que me interessei por escrever e falar bem, mas lembro-me de escrever composições no quarto ano e se não tivesse uma bolinha verde, ficava de castigo no intervalo a escrever cinquenta vezes os erros ortográficos, fossem três, fossem vinte. Quando tínhamos bolinha vermelha, reescrevíamos a composição do início ao fim e não levávamos rebuçado para casa. Eu era mais rebuçados, sem dúvida.

 

O meu cérebro é todo ele virado para as letras, não há discussão possível. Nunca me interessei pela matemática, e aos doze anos comecei a bater com o pé no chão a dizer que queria ser jornalista. Todo o meu secundário foi virado para as Línguas e a Literatura Portuguesa e ai de mim se não soubesse todas as declinações do Latim ou os cantos dos Lusíadas na ponta da língua. Ai de mim se não soubesse falar ou escrever o mesmo texto em inglês, alemão, espanhol, francês e italiano. Ai de mim se não soubesse todas as declinationibus, de pronominibus ou de nominibus adiectiuis. Ai de mim se não soubesse descrever em dez minutos as principais características de cada heterónimo de Fernando Pessoa, ou saber identificar na poesia lírica galego-portuguesa a diferença do papel da mulher e da menina, nas Cantigas de Amor ou Cantigas de Amigo. Aliado a tudo isto, que não interessa neste momento, sempre tive de saber escrever e saber falar. Correctamente.

 

E agora dizem-me «ah e tal, até podes saber essas regras todas, mas não gosto da forma como escreves». Correctíssimo. Mas eu falo de erros ortográficos e não do estilo da escrita. Eu posso escrever o mesmíssimo texto de uma forma técnica ou de uma forma poética, posso escrevê-lo de uma forma simples, directa e fria ou posso escrevê-lo detalhadamente, repleto de floreados e figuras de estilo, posso ter de escrever um relatório de Economia e Finanças Públicas para entregar na Segunda-feira ou simplesmente escrever no blogue um texto sobre as roupitas da Zara, mas sei que em ambos vou escrever sem erros ortográficos. E é sobre isso que reflicto. Ou tento.

 

Quando comecei a licenciatura em Comunicação Social, os primeiros livros que o senhor professor e jornalista Miguel-Pedro Quadrio nos aconselhou (forma floreada para expressar a leitura obrigatória da cadeira) a ler foram O Livro de Estilo, do Publico, e Saber Escrever Saber Falar, de Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão. No mesmo semestre, a primeira coisa que a professora de Inglês nos disse foi «If you think you are doing the course of social communication, you are wrong. You study media and will work only in media». Por alguma razão, a língua portuguesa está cheia de trocadilhos e, se a licenciatura designa-se por Comunicação Social, o mestrado é precisamente sobre Media e Jornalismo. No Brasil dizem apenas jornalismo, ponto. Também nos alertou para um facto que nos é cada vez mais importante, principalmente para todos aqueles que acham que basta apenas saber falar e escrever sobre moda – muitos nem isso o sabem fazer. «Do you like politics, low or economy? Do you know anything about investigative or financial journalism? If you don´t like or don´t know talk about these things, you´re in the wrong way». E é verdade, hoje em dia não só não sabemos falar e escrever, como não sabemos nada de nada, não fazemos ideia do que se passa com a economia do nosso país, nem dos outros, não sabemos falar sobre política, não sabemos escrever sobre a dívida pública, não sabemos dar indicações em inglês a um turista perdido, não sabemos nada de nada. Sim, há excepções, sempre houve, porque «onde há a regra, há a excepção», mas como o provérbio «com o mal dos outros posso eu bem». E se há pessoas da minha idade a trabalhar em áreas excepcionais, a escrever divinamente, a saber estar e a saber ser, há pessoas que teimam em postar textos com calinadas piores que as minhas, com erros ortográficos que deixei de dar aos nove anos de idade, a escreverem mal mas mesmo muito mal (pessoas que eu conheço e que sei que tiraram uma licenciatura como eu) – e é isso que eu não entendo.

 

Hoje em dia é fácil ter-se um blogue e cada um publica o que bem entender, seja roupa, sapatos, viagens ou crónicas. Cada um escolhe o seu estilo - uns escrevem a preto, outros a rosa, uns publicam fotografias a cores, outros a preto e branco, há quem prefira escrever em inglês do que em português, uns utilizam a ironia e o sarcasmo, outros as metáforas e hipérboles. A sério, cada qual tem a sua maneira de ser e é importante que se respeite isso, mas para que nós bloggers sejamos respeitados, temos de respeitar, de igual forma, os leitores que nos lêem. E o facto de ser importante saber falar ou escrever não é apenas numa plataforma online, é na vida, no dia-a-dia, no trabalho, connosco e com os outros. É cultura geral! Se nós temos um ensino obrigatório até ao décimo segundo ano, não há desculpa para que em pleno século vinte e um ainda se confunda o verbo haver com a preposição à, não há absolvição para que não se saiba empregar um acento agudo, circunflexo ou grave, não há indulgência para que se faça confusão entre palavras com –e e –i, com a existência ou não de –h inicial, para que se troque o –g com o –j ou o –s com o –z, não há como não saber se as palavras se escrevem com –ção, -ssão ou –são. Desculpem, mas não há. Como é que uma pessoa que tenha terminado o secundário não sabe concordar um adjectivo segundo a sua flexão em género, número e grau, como é que há pessoas que ainda escrevem “ele é mais grande do eu” em vez de escreverem “maior” (o corrector de palavras acabou de me alertar para verificar se devo substituir mais grande por maior).

 

Há pessoas que me dizem muitas vezes que o novo acordo ortográfico veio trocar as voltas a uma pessoa, que antes é que se falava bem, que antes é que era, que o país só muda para pior, bla bla bla, wiskas saquetas. É simples, não usem o novo acordo ortográfico. O José saramago escrevia como bem lhe apetecia e, apesar das críticas positivas e negativas (faz-me imensa confusão quando utilizam a palavra critica para algo mau e elogio para algo bom, as palavras critica e elogio não são antónimos), fez a diferença e a verdade é que mesmo depois de morto continua a ser idolatrado por muitos. O que acho curioso é que essas mesmas pessoas me digam, a meio de uma conversa, «fiquei exausta porque subi até ao degrau cinquenta». Ah, está bem, uma pessoa não sabe dizer quinquagésimo e o novo acordo é que nos trocou as voltas. A nossa escrita pode ter sofrido muitas alterações e vai continuar a sofrer, mas é preciso que a mentalidade e sabedoria das pessoas também passe por algumas transformações porque há muita gente que nunca soube dividir uma oração, não faz ideia do que são conjunções e locuções conjuncionais coordenativas e subordinativas (eu própria já devo ter cometido uma dezena de crimes neste texto, mea culpa), há pessoas que não sabem mais do que três advérbios de designação, de quantidade ou de modo.

 

Naturalmente que uma pessoa que se dedique a um blogue de moda, se interesse muito mais pelas tendências do que pela Teoria das Cordas, assim como não imagino uma bordadeira a trabalhar com fios eléctricos ou um carroceiro a fazer o trabalho de um barqueiro, ou tecelão a fazer o que faz um tabelião. Cada um tem os seus interesses e cada qual dedica-se ao que lhe agrada. Mas uma pessoa que escreva, seja sobre sapatos, seja sobre canalizações, uma coisa tem de saber: escrever. E correctamente. É exactamente a mesma coisa que um cirurgião neurológico lembrar-se de escrever um livro sobre operações ao cérebro, por muito bem que ele opere, tem de saber escrever. E por isso é que me faz cada vez mais confusão ver diariamente pessoas a publicarem textos sobre modas e tendências e darem erros ortográficos ou confundirem palavras como abalizar/avalizar (quanto muito posso avalizar-vos que abalizo); cardeal/cardial (já me estou a imaginar no Auditório Cardeal Medeiros e alertar o reitor da Universidade Católica que cardeal está mal escrito porque vi uma amiga escrever cordial); enumerável/inumerável (há muitas pessoas a confundirem o sentido de ambas as palavras para descreverem as incontáveis possibilidade de outfits, até porque têm sentidos completamente opostos, se o primeiro é contável, o segundo é infinito); acento/assento (aqui até posso fazer o trocadilho de dizer que não gosto do acento e do assento da Vanessa, o primeiro faz-me lembrar aquele som carrascão da ilha de São Miguel, o segundo faz-me lembrar a altura da ilha do Pico); acepção/acessão (como, mas como é que se confunde uma palavra que significa precisamente significado, com uma palavra que significa consentimento?); apreçar/apressar (é caso para apressar a apreçar o sentido das palavras); era/hera (a sério, mas ainda se dão erros onde se confunde o verbo ser com a deusa do matrimónio? Está certinho, então).

Pessoas que escrevem diariamente, por mim tanto me dá se escrevem sobre o Índice PSI-20, sobre os Fluxos bilaterais ou os Fundos Estruturais, pouco me importa se sabem o que é a Taxa de Juro activa ou Passiva, se entendem muito ou pouco da Taxa de Variação Homóloga ou da Convergência Real e Nominal. Escrevam sobre o que vos apetecer, mas escrevam sem erros, porque eu, além de escrever, também leio os vossos blogues e acho horrível que uma pessoa escreva «descubri um batom super, híper, mega baratérrimo», quando o verbo descobrir escreve-se com –o.

 

(Sim, sim, eu sei, eu própria comecei o texto a dizer que dou muitas calinadas.)

 

Beijinhos, La Bohemie. 

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