Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

La Bohemie

Os petiscos da Nazaré.

São as duas coisas que mais detesto fazer, comer e dormir. Primeiramente acham que sou maluquinha da cabeça, que é impossível não gostar das duas melhores coisas da vida, mas a verdade é que me faz imensa confusão saber que, por uma questão de sobrevivência, sou obrigada a dispensar metade do meu dia a fazer algo de que não gosto. As pessoas acham estranho que eu acorde às sete da manhã de um Domingo, acham estranho que não consiga tomar o pequeno-almoço, acham estranho que não goste de encher o prato ou que passados cinco minutos à mesa já estou a refilar que estou satisfeita, já estou a fazer dobras à toalha ou distraída com qualquer coisa. Eu chamo-lhe bufar, eu começo com uma espécie de contracções de suspiros que começam nos cinco minutos e terminam nos cinco segundos. Claro que todas estas fitas faço-as na minha casa, na minha mesa, onde sou eu que dito as regras de (má) educação. Sempre aprendi que na casa dos outros gosto de comer tudo e faço-o sem pestanejar, sem refilar e sem fazer dobras à toalha. Sempre aprendi que na casa dos outros acordo quando os outros acordam, seja cedo ou tarde e isso dá-me cabo do juízo porque, normalmente, as pessoas gostam de aproveitar todos os minutos para dormir e eu passo esses precisos minutos às voltas na cama a pensar no que poderia estar a fazer fora dos lençóis.

 

Eu e os restaurantes temos uma relação muito complicada. Se em casa não dispenso mais de dez minutos sentada à mesa a comer, nos restaurantes não consigo chegar, pedir, comer e ir embora - para isso vou a uma qualquer companhia de fast-food e eu não sou muito dada a comida pré-fabricada. Gosto muito de ir a um restaurante e saber que vou poder estar à vontade, sem aquela pressão psicológica dos empregados a perguntarem-se, mal sento-me à mesa, o que quero jantar. Também não sou daquelas pessoas que chega e diz “apetece-me imenso um bife ou um cherne grelhado”, não, a mim apetece-me sempre qualquer coisa, seja sopa, seja empadão de peru ou mista de peixe grelhado, por isso fico longos minutos a olhar para a ementa (as piores são as que têm imagens porque fico logo alimentada só de as ver). Depois de longos minutos a ler cinco vezes os pratos da lista, acabo sempre por dizer “não faço ideia do que quero comer” ou “estou tão confusa” ou, o mais habitual, “o que me recomenda?” Mas o meu maior problema são as entradas – a sério, eu sou louca por todo e qualquer tipo de entradas, sejam azeitonas, queijinhos da serra ou patês – como-as e fico logo satisfeita, finito, acabou, mais que jantada. Mas não, depois ainda vem uma travessa cheia de comida, coitadinha de mim, sou tão magrinha, parece que não como há quinze dias, devem pensar – olho para aquela comida toda e quase que alimento o estômago durante uma semana. E fico por ali a molengar, uma dentada aqui, meia hora de conversa ali, mais uma garfada acolá e dá-me só quinze minutos de intervalo que começo a ficar pelas costuras. Quanto mais olho para o prato, mais comida há e eu começo a dizer que estou cansada de mastigar – eu fico mesmo cansada de mastigar. Também sou muito faladora, não sei se o sou sempre, mas nos restaurantes lembro-me sempre de falar sobre tudo e nada. Falo, falo, falo na esperança da comida evaporar-se do prato e quando dou por mim já está tudo jantado e eu a dobrar o guardanapo do colo para que ninguém veja. Eu sou miúda de petiscar, sou miúda de restaurantes de sushi ou tapas, onde vou comendo aos bocadinhos e parece que nunca engordo, mas se me levam a um restaurante típico, onde nos servem travessas com toda a comida que havia na cozinha eu fico logo alimentada só de imaginar o cenário. E por isso é que preciso de tempo, para pedir, para comer, para beber, para falar, para fazer fitas, para olhar para os lados, para dobrar a toalha da mesa, para perguntar quanto é que ficou o resultado de Portugal com a Macedónia, para “deixa-me só tirar uma foto com o Instagram que já como”, para comentar o tempo ou saber da vidinha da senhora do terceiro esquerdo que não conheço. E por isso é que eu e os restaurantes temos uma relação muito complicada porque não há empregado que ature as minhas fitas (eu não as aturava).

Mas na Nazaré foi diferente, aturaram um jantar que durou até às duas da manhã, um almoço que estendeu-se até às seis da tarde, aturaram as minhas infinitas conversas, pedidos e indecisões. Foram, sem excepção, bastante atenciosos, preocupados e disponíveis e eu gosto de pessoas assim, que servem o cliente (mesmo que seja o único no restaurante) com todas as regalias e respeito. Porque no fundo, a complicada sou eu. 

 

Restaurante Zé do Aníbal

 

 
Restaurante Maria do Mar
 
 
Restaurante Hotel Praia
 
Restaurante Mar Bravo
 
Beijinhos, La Bohemie.