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La Bohemie

Lisboeta do Sul.

A pessoa que teve a infeliz ideia de abolir o antigo Bilhete de Identidade nem sabe o trabalho que me dá no meu dia-a-dia. A sério, mas por que razão criaram o novo Cartão Único sem deixarem bem explicito a naturalidade de uma pessoa? É que qualquer dia sou obrigada a andar com uma chapinha ao pescoço a dizer “esta pessoa não é alérgica a insulina, mas é de Lisboa”. Ridículo, eu sei, tão ridículo como os meus constantes diálogos com terceiros.

 

- Ahhh, és do norte.

- Não, não sou do norte, sou de Lisboa.

- Como é que és de Lisboa se tens sotaque do norte?

 

Ora, eu explico. Há pessoas que têm muita facilidade a apanhar sotaques quando convivem muito tempo com pessoas que tenham esse mesmo sotaque e eu sou uma dessas pessoas. Uma das minhas melhores amigas é de Braga, a outra é do Porto; muitas das minhas colegas do teatro são do norte; vivi um ano no Brasil com malta do Porto e Guimarães. Ora, se convivo diariamente com pessoas do norte é o suficiente para ter apanhado muitas expressões e interjeições. Lembro-me perfeitamente dos anos em que vivi no Algarve e chegava a casa com expressões como “ai o cacete” ou “tã mã, né si” e o meu pai pedia-me para repetir em português. Mas há mais exemplos.

 

- Queres ir ao Lux este Sábado?

- Não posso, vou passar o fim-de-semana a Braga.

- Ahhh, eu sabia que eras do norte. A malta do norte que vive em Lisboa nunca admite que é de lá.

 

Oi? Se há povo que mais se orgulha da sua naturalidade é precisamente o do norte, esteja onde estiver. Mais uma vez, eu estou onde me esperam e, se tenho amigos no norte, é para lá que vou passar os fins-de-semana. Também faz-me alguma confusão aquelas pessoas que teimam em dizer que sou algarvia só porque vivi durante anos no Algarve, porque tenho lá casa e porque vou lá muitas vezes.

 

- Então, este fim-de-semana vais a casa ou ficas por Lisboa?

- A minha casa é em Lisboa.

- Então mas a tua mãe não vive no Algarve? Pensei que fosses algarvia.

 

Ahhh, está bem, então se a Senhora minha Mãe vivesse em Madrid eu era madrilena, se eu tivesse casa em Paris era parisiense e se fosse muitas vezes a Roma era romana. Está certo, está certo. Para aquelas pessoas que acham que sou algarvia porque tenho casa no Algarve, peço que me esclareçam – eu tenho casas no Algarve, em Lisboa e em Abrantes, afinal sou de onde?

 

Também existe uma certa dificuldade em entender onde nasci.

 

- Se és de Lisboa, onde é que nasceste?

- Em São Sebastião da Pedreira.

- Ah, então nasceste na Maternidade Alfredo da Costa.

- Não, por acaso a minha irmã é que nasceu lá.

- Se nasceste em São Sebastião, teve de ser na MAC.

- Não, nasci no Hospital Particular de Lisboa que também é em São Sebastião.

- Ah, mas que bem, a menina teve de nascer num hospital particular.

 

Oi?! Mas está tudo parvinho ou quê? Acho que vou começar a dizer que nasci em casa para não haver confusões preconceituosas. Mas eu explico para que fique tudo esclarecido. Quando os meus pais viviam nos Olivais (sim, a casa do meu pai é nos Olivais, mas não, não sou de lá), tinham uns vizinhos que eram médicos e muito amigos da família. A Dra. Rosebelle era obstetra e a senhora minha Mãe fez questão que fosse responsável pelos partos de todos os filhos e, por isso mesmo, eu e os meus irmãos nascemos onte trabalhasse a dita doutora.

 

Ao que parece, o tempo que as pessoas levam a viver num determinado lugar, fá-las também mudar de naturalidade.

 

- Mas afinal tu viveste no Algarve durante quando tempo?

- Vivi toda a minha infância e adolescência.

- Então és algarvia, não nasceste lá, mas tudo o que viveste foi lá.

 

Ohhh minha gente, não tenho um único familiar algarvio, ou seja, nunca tive uma educação ou tradição algarvias. A família do meu pai é toda de Lisboa, da Guarda e Viseu. O meu pai e os irmãos são de Lisboa. A família da minha mãe é toda da Beira - Vila de Rei e Abrantes. A minha mãe e os irmãos são de Angola – a minha mãe nem sequer é de cá e não é por viver no Algarve que faz dela algarvia. Em casa era proibidíssimo pronunciar qualquer tipo de palavra com sotaque algarvio, estudei toda a vida num colégio internacional onde se falava mais inglês do que português, todos os meus Natais foram passados em Lisboa e eu, ao que parece, tenho sotaque nortenho. Como, mas como é que posso ser algarvia? A minha mãe dividiu toda uma vida entre o Lobito, Lisboa e o Algarve e nunca a ouvi dizer que é de Portugal, porque não é. Ela é angolana e não é por viver no Algarve que vai deixar de o ser.

 

Por mim tanto me dá se acham que sou do Algarve, Lisboa ou Paquistão - o que me mói o juízo é, apesar de eu dizer que sou lisboeta, insistirem que sou do norte porque tenho sotaque nortenho ou que sou do sul porque vivi lá toda uma vida. Tenho um amiga que nasceu no Canadá, viveu durante anos no Brasil com o pai, fala português do Brasil mas vive em Portugal porque a mãe é portuguesa e a nacionalidade dela é canadiana, o passaporte é do Canadá e não pede dupla nacionalidade porque não quer. Eu própria posso pedir dupla nacionalidade por causa da minha mãe, mas ainda não me interessa muito ir viver para Angola não vão começar a dizer que afinal sou angolana porque se assim for, visto que já vivi no Brasil, qualquer dia perco a nacionalidade, a naturalidade e a personalidade.

Contínuo sem saber quem teve a infeliz ideia de abolir o antigo Bilhete de Identidade, mas quem souber onde se gravam chapinhas de metal para usar ao pescoço que me avise que eu não sou alérgica à insulina, mas sou de Lisboa.

 

P.S - Alerto as pessoas que vou passar o fim-de-semana à Nazaré mas não, não sou nazarena.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

 

 

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