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La Bohemie

Os Globos de Bronze.

Dizem que os Globos de Ouro é a festa mais aguardada do ano e eu até me recordo da família juntar-se na sala para ver a cerimónia, como se juntava para ver os Jogos Sem Fronteiras ou as Marchas de Santo António. Era quase como uma tradição televisiva, assim como nos juntamos para ver a Gala dos Óscares ou um Portugal vs Grécia. Agora a família já não se junta na sala, mas eu fiz questão de, mais uma vez, sentar-me na poltrona para ver a dita cerimónia mais esperada do ano. Ainda pensei que ao fim de dezassete edições a coisa fosse correr bem, mas não, conseguiram proporcionar-me três horas verdadeiramente patéticas. Não entendo como são necessários quatro meses para preparar um evento que é igual todos os anos - a carpete é sempre a mesma, os convidados são sempre os mesmos (alguns que já nem colocam lá os pés porque já sabem para o que vão), a apresentadora é sempre a mesma, bla, bla, bla, wiskas saquetas – já vi Galas de Natal preparadas em menos tempo e muito mais divertidas.

 

Mas comecemos pelo início – a carpete. A emissão começou precisamente com a Sofia Cerveira e o Ricardo Pereira (juntaram-nos para os nomes rimarem?) a anunciarem que os convidados estavam a chegar à passadeira vermelha e a única coisa que ouvi foi literalmente “E agora vamos falar com…vamos falar com…vamos falar com…a Rita Andrade”. Mas que raio de realização é esta? Não sabem que no meio de um directo se colocam logo dois ou três convidados ali de lado para estarem prontos a serem entrevistados? Não, parece que não, não havia ninguém e tiveram de mudar a câmara para a Rita Andrade que lembra-se de nos dizer que o jantar é “lombinhos de novilho”, “tagliatelle” e a sobremesa “pão-de-ló”. Foi um momento muito tristinho. E ainda nas apresentadoras, há uma coisa que eu não entendo, ou várias – então, as meninas entrevistam pessoas há anos para os seus programas de vidas cor-de-rosa, sabem meter conversa com toda a gente e depois nem sequer perguntam quem veste os convidados? Não, o mais importante é perguntar a um nomeado a um globo se está feliz com a nomeação – não, suas burras, eles estão prestes a receber um globo de ouro mas estão muito tristes porque aquilo não é ouro, é bronze e chapa lacada. E não querendo referir a tristeza de passarem apenas quinze minutos de passadeira vermelha, também não entendo como é que estamos a assistir a uma gala de Globos de Ouro e entrevistam tudo quanto é gente que os vai entregar e não receber - eu quero lá saber o que acha a actriz ou o apresentador que vai entregar o prémio, eu quero é saber o que acham os nomeados, vê-los ali em grande plano e sentir os que lhes vai nas entranhas. Não, o importante é saber que a Lili Caneças faltou a uma gala porque fez um peeling ultra-sónico, interessa-me a exaustiva publicidade à nova novela da Sic que estreia já hoje em Portugal e que a Maria Emília Correia continua à espera de receber um globo de melhor actriz – e que usou uma flor preta maior que a sua cabeça no ombro. Não importa mostrar e entrevistar as pessoas certas, importa encher ali uns minutos de antena só para não ficar mal.

 

A cerimónia em si foi uma desgraça e começou muito mal com aquelas montagens feitas à pressa alusivas ao Ídolos. A Bárbara Guimarães não é uma boa apresentadora, perdoem-me os mais sensíveis, mas não é. Uma apresentadora precisa de saber improvisar muito bem, precisa de ser convicta e que entretenha o público. A Bábá até pode saber ler o teleponto, manda aquele ar de sua graça, meio tentador, meio sedutor, mas quando o texto termina, assistimos a uma conversa despida de humor e diversão – e tudo depende do tempo que levam a alterar o palco para a próxima actuação – é a tia Maya que está vestida de amarelo mas veio sem o Calimero, é a Luísa Sobral que é o maior sucesso porque os miúdos do Ídolos cantam as suas canções, é o Castelo Branco que veio com a sua Betty Feia, são as suas piadas sem piada e as ironias sem ironia. Não há pachorra para aquele saco de batatas, assim como já não há paciência para as piadas da dupla do Vip Manicure ou para o Rouxinol Faduncho que nunca teve jeito para aquilo.

 

A entrega dos globos não variou muito, ganham quase sempre os mesmos e quando não ganham é porque foi injusto. A malta do teatro e do cinema tem sempre mais críticas a fazer do que agradecer, os do desporto quase nunca estão presentes (que cena triste foi aquela das Ronaldinhas? Quem é que as trouxe? Quem é que as deixou entrar?), os da música agradecem sempre à família, à equipa, aos fãs, aos animais e às florestas. E pronto, a malta fica sempre muito em espectativa em relação aos Globos de Moda, ao Globo de Revelação e ao Globo de Mérito e Excelência – este último não entendi se foi mesmo sincero ou se foi por não terem mais ninguém a quem oferecê-lo. Mas uma coisa é certa, era desnecessário irem os filhos todos para cima do palco – se o homem tivesse 12 filhos, iria a manada toda encher o paizinho de beijos e abraços?

 

A cerimónia foi mais do mesmo, senão pior – poucas pessoas bem vestidas, gentinha muito pirosa, casais ridículos, gente com pinta, gente horrorosa, malta com piada, outra nem tanto, discursos muito bons, discursos muito maus, muitas críticas, muitos ataques sarcásticos e irónicos, actuações boas, actuações péssimas, gente podre de bêbeda, gente mais ou menos sóbria – mais do mesmo e, quando a anedota é sempre a mesma, quando a piada é sempre a mesma, já não faz rir. Alguma alminha caridosa teve o cuidado de lembrar-se de homenagear, uma última vez, as grandes figuras Fernando Lopes e Bernardo Sassetti, mas também conseguiu mostrar a falta de originalidade ao colocar o Angel-O a cantar enquanto desfilavam as meninas do Fama Show – depois de actuações como os Clã ou a Carminho, este momento foi um bocadinho triste demais, assim como a desnecessária actuação do D. Duarte Piu.

 

Começo a achar que a gala dos Globos de Ouro são exactamente como as Noivas de Santo António, muitos meses a preparar a mesma merdice de sempre. 

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