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La Bohemie

Cartas perdidas no silêncio das palavras.

Há uns tempos escrevi-te. «Por vezes faltam as palavras, as ideias ou a capacidade de conseguir conjugá-las e construir um texto que faça sentido. Por vezes existe tudo isto mas se eu fosse conjugar e construir tudo o que sinto, não teria tempo para escrever (...)».

Hoje volto a escrever-te. As palavras que faltavam.

 

É frustrante quando tenho ganas de escrever sobre algo muito especial e não posso. Quando tenho em mãos uma história linda, fora do normal, recheada de detalhes e não a devo publicar. E não devo porque muitas vezes envolve uma segunda ou terceira e quarta pessoa, e quando a partilho deixa de ser minha, nossa, e passa a ser de todos. Essa frustração consome-me as dúvidas e os pensamentos - quero mas não posso; posso mas não devo. A ética e o bom censo esbarram-se na linha do pensamento e tornam-se numa dúvida constante que arrepia e faz-me sentir impotente, censurada. Todos nós possuímos o impulso de partilhar ideias e o desejo de saber que fomos ouvidos – é por isso que estamos constantemente a enviar sinais e alertas e procuramo-los noutras pessoas. Estamos sempre à espera de mensagens na esperança de interpretarmos algum tipo de ligação. Mas se não recebermos uma mensagem não significa que ela não foi enviada, por vezes, quer dizer que não a ouvimos com atenção. Ambos sabemos que te enviei inúmeros sinais e mensagens, todos eles com um feedback, porque gostas de dar feedbacks às pessoas, principalmente quando são positivos. Mas interpretaste mal a ligação. Senti-me obrigada e restringir-me ao silêncio da minha própria consciência, encontrar os meus próprios sinais, ligações e respostas. No fundo, acho que não havia uma mensagem concisa, um propósito. A minha comunicação acabou num fim que nunca teve meio. Aprendi que também se comunica em silêncio e que muitas vezes a mensagem faz tanto ou até mais sentido do que a palavra, como se de uma miragem se tratasse. Há uns tempos atrás falaram-me da teoria do Fio Vermelho, uma lenda antiga da cultura chinesa - "Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se. Independentemente do tempo, lugar ou circunstância, o fio pode esticar ou emaranhar-se mas nunca partir”. O mito diz que os deuses prendem um fio vermelho ao tornozelo de cada um de nós e o conectam a todas as pessoas cujas vidas estamos destinados a tocar. Sabes que não acredito em mitos e coincidências, traço os meus objectivos e delineio o meu destino. A nossa linguagem, os nossos actos e atitudes têm consequências no nosso dia-a-dia e nos dias das pessoas com quem nos cruzamos. É o poder da intercomunicação. E foi a pensar nesta teoria que olhei para as tuas calças vermelhas e senti o tal sinal alcançado no silêncio da minha subconsciência. Apesar de toda a tecnologia da comunicação, nenhuma invenção é tão eficaz como o som da voz humana. E foi por isso que fui naquele dia. Sem qualquer intenção de falar, de informar ou comunicar. Fui apenas ouvir a mensagem da qual estamos sempre à espera de receber. Fui apenas ver. Fui apenas ouvir. Viste. Falaste. Mas quando ouvimos a voz humana, queremos instintivamente ouvi-la na esperança de a compreender, mesmo quando o interlocutor está à procura das palavras certas. Mesmo quando só ouvimos gritar, chorar ou cantar. A voz humana reverbera de forma totalmente diferente. E foi por isso que, inconscientemente, escreveste e leste. E eu ouvi. Fim.

 

Beijinhos, La Bohemie.