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La Bohemie

Vizinhos.

Caros vizinhos, sinto-me muito feliz por ter ganho o prémio de Melhor Vizinha. Ninguém me nomeou, é certo, mas fiz questão de o receber na mesma. Nunca pensei ganhar um prémio que não existe mas, perante as condições existentes, sinto-me na obrigação de vos deixar um humilde agradecimento.

 

Aos vizinhos do terceiro esquerdo um especial agradecimento por me terem oferecido o guarda-vestidos branco espelhado que, passo a citar, “é muito antigo, comprámo-lo quando nos casámos (em 1980?), mas está em bom estado e eu dou-lho de boa vontade” – limpei-o, restaurei-o e tem as medidas exactas daquele cantinho de arrumações que eu tenho na cozinha onde escondo os trezentos mil frascos, caixas e caixinhas com colecções antigas, para fazer jus às vossas palavras. Deu uma carga de trabalhos transportá-lo até ao segundo andar mas valeu a pena. Contudo, tenho dois apontamentos a fazer – digam, por favor, à vossa filha Catarina que eu não tenho nada a ver com os seus problemas sentimentais e se quer chorar baba e ranho e pronunciar palavras como “tu és o amor da minha vida” (recordem-me, ela tem 16 anos, não é verdade?) que o faça no seu quartinho de adolescente, em vez de descarregar as suas frustrações nas escadas do prédio – a sério, dá-me pena de a ouvir chorar e depois sou obrigada a detestar o namorado que não conheço. Agradecia, também, que as vossas duas filhas mais novitas não corressem escada acima, escada abaixo, num misto de gritos histéricos e risos acriançados. Eu entendo, eu também já fui criança mas não incomodava os vizinhos e, enquanto andam elas na macacada, quem ajuda a mãezinha a carregar os sacos das compras sou eu. Para terminar, tenho apenas uma questão - se fizeram questão de me explicar, embora não vos tenha perguntado nada, que o vizinho do terceiro direito não habita o apartamento vai para lá dos dez anos, por que raio é que oiço todos os dias passos de pessoas ou de um possível gato a gatafunhar no chão? Juro-vos que é estranho estar a preparar o jantar e ouvir passos mesmo por cima de mim quando supostamente não vive ninguém no terceiro direito. A vossa casa não vos chega, é?

 

Não posso deixar de agradecer, do fundo do coração, aos meus queridos vizinhos do segundo direito. O senhor, cujo nome nunca me ocorreu, faz questão de abrir amavelmente a porta do prédio depois de onze tentativas minhas. É curioso que chega a casa sempre no preciso momento em que eu chego mas, se já sabe que nunca atinei com a porta do prédio, porque nunca teve a iniciativa de a abrir de imediato? Mas está perdoado, sabe, eu sei que tem um coração de ouro e guarda todas as entregas dos CTT quando eu não estou em casa e depois vem entregá-las à porta do lado. Está perdoado. Mas como fui eu que ganhei o prémio de Melhor Vizinha sinto-me na obrigação de fazer uns reparos. Diga à sua empregada que o segundo direito é meu e não vosso, portanto não há razão para tocar freneticamente na minha campainha, a não ser que queira vir cá a casa fazer umas limpezas, aí pode tocar as vezes que quiser – caso não seja essa a intenção, ela que toque no segundo esquerdo ou que abra a porta do prédio com a chave, é para isso que ela serve. Agradecia, igualmente, que pedisse com muito jeitinho à sua mulher que baixasse um pouquinho o som da televisão. Sabe como é, as pessoas que perdem o sentido de audição acreditam que vão ouvir melhor com o som no máximo mas engam-se, quando perdem a audição, perderam-na, acabou, finito, e esquecem-se que o meu escritório fica mesmo à entrada de minha casa e, enquanto trabalho, tenho de gramar com a voz irritante da Cristina Ferreira e desconcentro-me nas minhas obrigações profissionais – portanto, diga-lhe para fazer o que diz o tio Goucha “baixe o som da sua televisão”.

Gostava muito de agradecer aos vizinhos do primeiro andar mas não existem. Fico grata que assim seja, pelo menos não existem reclamações à minha pessoa – por isso é que recebi o prémio de Melhor Vizinha, a criançada de cima faz mais barulho que eu, a vizinha do lado tem graves problemas auditivos e não tenho vizinhos no andar de baixo. Passando aos sobreviventes do rés-chão, agradeço ao vizinho do lado direito que faz questão de me tratar pelo nome mas nunca me chegou a dizer o seu. Mas não é por isso que lhe estou grata, é mesmo pela amabilidade de apanhar todas as peças de lingerie que escapam das minhas mãos enquanto estendo a roupa. Nunca fui muito dada às lidas da casa, mas como deve compreender a vida está cara - portanto, quando me devolver mais cuequinhas e soutiens, devolva-me também as molas senão qualquer dia não tenho como estender a roupa porque, repito, a vida está cara. A vizinha do lado esquerdo nunca lhe vi a cara mas tenho a dizer-lhe que faz umas sopinhas deliciosas – nunca as provei mas dado o prédio cheirar a sopa todos os dias, acredito que sejam maravilhosas e que prepare o tacho à vizinhança toda. A sério, obrigada, faz-me lembrar os tempos do infantário em que o refeitório tinha exactamente o mesmo cheiro – a sopa.

 

Eu sei que a música já começou e que me querem calar, mas tenho mais uns quantos agradecimentos a fazer.

 

Primeiro, agradeço ao miúdo do prédio da frente, por fazer questão de se colocar especado à varanda a olhar para a minha sala. E agradeço, não por gostar que passe as tardes de Domingo a olhar para dentro de minha casa, mas porque obrigou-me a ir mais uma vez à Ikea (todas as desculpas para lá ir são legítimas) comprar uns cortinados. Como deves calcular, gosto muito de ter a sala enraiada de luz sem ter um macambúzio a mirar-me do outro lado da rua enquanto passo uma agradável tarde de Domingo esponjada no sofá a ver filmes. Mas fizeste-me arrastar à loja que mais detesto (espero que entendas a ironia das minhas palavras) para comprar umas cortinas que te tapam as vistas. Mas como até fui eleita a Melhor Vizinha, deixo-te um concelho: se olhares para o teu lado esquerdo, tens uma vista maravilhosa para o rio Tejo. Segundo, sinto-me forçada a agradecer à vizinha do prédio de trás que tem a capacidade de proferir frases dignas da verdadeira pronúncia do norte, atulhadas de palavrões fortes e sonantes. No entanto, agradecia que não passasse o santo dia referir a profissão da sua filha. A sério, se eu tivesse seis anos não gostava que me dissessem constantemente Oh, filha do engenheiro, tu desempata-me a cozinha que eu tenho de lavar a loiça e acredito que o seu neto também não goste muito que passe os seus santos dias a dizer-lhe Oh borrego (da gíria de Gil Vicente, cabrão) de uma prostituta tu nunca devias ter vindo a este mundo. Posto isto, lembro-lhe que estamos em Lisboa e não no Porto e aqui esses vocábulos são um pouco ofensivos para os restantes vizinhos. Em terceiro faço um apontamento à sua vizinha que tem um quintal maior que toda a minha casa. Oh minha cara vizinha, então a senhora tem um quintal quase do tamanho de todo o meu prédio e não me coloca aí uma mesa com cadeiras, um enorme guarda-sol, um barbecue, umas trepadeiras e uns vasitos com flores? Era ser eu a viver nessa casinha que ia ver-me a perder imediatamente o prémio de Melhor Vizinha com a quantidade de festas que eu daria nesse pátio. A sério que não a entendo, passa os dias a varrer o “humilde” quintal e não me faz umas raves de meia-noite? Ai que estes idosos já não sabem aproveitar o que as reformas baixas lhes proporcionam. E por falar em churrascos, agradeço, por fim, aos meus queridos vizinhos brasileiros que têm um quintal, igualmente, maior que o meu apartamento e fazem questão de me mostrar todos os fins-de-semana, faça chuva, faça sol, que podem fazer aquilo que eu não posso – grelhados de carnes, peixe e pimentos até ser noite. Obrigada! Espero que depois de ter ganho o prémio de Melhor Vizinha tenham a decência de me convidarem, sim? Prometido?

 

E pronto, ficam os meus agradecimentos aos melhores vizinhos daqui das redondezas.

 

 

P.S – Caro senhorio, eu bem sei que o senhor tem uma vida muito ocupada, mas como sua inquilina sinto-me responsável por alertá-lo que já é dia 19 e que as rendas costumam ser pagas até dia 8. Entendo que o dinheiro não lhe faça falta mas, como deve compreender, cada vez que olho ali para o envelope, ocorre-me a ideia de que podia agarrar naqueles 600 euritos (que não lhe fazem falta alguma) e comprar alguns pares de sapatos na Zillian. Por isso, faça lá o favor de vir buscar o que é seu, antes que receba também o prémio de Melhor Inquilina.

 

Atenciosamente.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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