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La Bohemie

Gil Vicente vs Benfica.

 

Estava já a caminho de Coimbra quando a minha mãe me perguntou, Mas a menina agora vai a todos os jogos do Benfica?

 

Não me lembro do dia em que decidi ser do Benfica, mas era bem pequenina. Os meus irmãos eram do Sporting e eu não gostava de verde. O meu pai era do Sacavenense e eu nem sequer sabia que Sacavém tinha um clube. Não me recordo de ter decidido ser do Benfica mas era o clube da minha mãe e, como eu queria ser como ela quando fosse grande, decidi escolher o mesmo clube. Com 5 ou 6 seis anos ainda não tinha aquela garra por um clube, assim como uma criança diz que quer ser médica num dia e carpinteira no outro. Acho, até, que andei a saltitar de clube em clube conforme aquele que ganhava. Mas era do Benfica, sempre fui, porque haveria eu de mudar? Mais tarde, com oito anos integrei as equipas de basquetebol e futebol feminino do colégio e, com o tempo, percebi que aquilo era a sério. Existiam vários escalões, tínhamos campeonatos regionais e nacionais entre os colégios internacionais do país e havia até quem fizesse parte da equipa com mérito a bolsas de estudo de desporto. Aliadas ao atletismo, eram as minhas vertentes de competição e foram durante dez anos. Treinava cinco vezes por semana, uma a duas horas por dia e, nos fins-de-semana tínhamos as competições. E o que me motivava? O mesmo que ainda hoje me motiva quando vejo um qualquer jogo de futebol ou de basquetebol, independentemente das equipas - a emoção, a adrenalina, os nós no estômago, o espírito de equipa. Sempre fora uma das melhores alunas em Educação Física, era talvez das minhas disciplinas favoritas, juntamente com o Português e a Educação Visual e Tecnológica - adorava fazer desporto, escrever e fazer trabalhos manuais. Sempre soube que nunca iria seguir a área das matemáticas ou das biologias, apesar de serem as áreas dos meus pais, não gostava e nunca mostrei interesse. Eu gostava mesmo era de correr, de escrever as minhas histórias e fazer os meus teatros. E a minha vida no colégio não passou muito além disso, treinar, jogar futebol com os rapazes nos intervalos, fazer teatro e participar em concursos literários. Acho que também não precisava de mais. Lembro-me que nas aulas de Educação Física os jogos eram sempre divididos em equipas masculinas e femininas e eu, juntamente com a minha amiga de guerrilha, a Margarida, ficávamos sempre na equipa dos rapazes. As miúdas arranjavam sempre desculpas, ou porque estavam com o período (fiquem sabendo que quando se tem a menstruação o melhor remédio é precisamente fazer exercício físico), doía-lhes a cabeça, tinham torcido o pé nas compras ou precisavam de rever a matéria porque íamos ter teste na aula seguinte. Não havia paciência para tantas lamúrias e jogar com elas era o mesmo que marcar golos numa baliza vazia. E foi assim que fui aprendendo ao mais variados termos e técnicas, os nomes de cada jogador e o seu número de camisola, aprendi os truques fantásticos que se podiam fazer com uma bola, fosse de futebol ou de basquetebol. Apesar de preferir jogar com uma bola nos intervalos e esfolar os joelhos ao invés de andar aos beijinhos e segredinhos, nunca tive a aparência de uma maria-rapaz porque a farda do colégio nem mo permitia - quer gostasse ou não, tinha de usar saia de pregas e camisa e não havia espaço para discussão. Que piada tinha passar os meus tempos livres a treinar? Que piada tinha passar os fins-de-semana entre campos de jogos, escolas e cidades em competição? A emoção, a adrenalina, os nós no estômago, o espírito de equipa. Os encontros desportivos, os jogos, as amizades e rivalidades entre equipas, a alegria das vitórias, a tristeza das derrotas, as instruções dos treinadores, os gritos aos árbitros, os assobios do público, o pódio, as medalhas, as taças, as viagens, os jantares. Os dias frios que eram aquecidos pelas amizades que se faziam, pelas pessoas que se conheciam. O espírito desportivo - era isso que me movia. Foi isso que me moveu durante dez anos da minha vida.

 

E é por isso que, quando a minha mãe me colocou a pergunta, eu respondi, Sim, eu fui a quase todos os jogos do Benfica e hoje vou vê-lo a ganhar a taça. E foi assim: