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La Bohemie

Erasmus, Erasmus, Erasmus.

Chega o segundo semestre e muitos alunos da Católica enviam-me mensagens a pedir ajuda, sugestões e dicas. Confesso que já tenho saudades do frenesim que senti quando me preprava para embarcar na aventura. Nunca me casei, mas acredito que ser noiva é parecido com ser intercambista, para que país ou cidade vou, que universidade hei-de escolher, vou seis meses ou um ano, e que roupa levo, e quantas malas levo, e será que vou gostar. Enfim, são muitas as dúvidas que surgem em tão pouco tempo e há que ter calma e pensar no assunto com moderação. 

 

No meu primeiro ano de faculdade, ainda no primeiro semestre, estava eu à porta do gabinete da área de Comunicação Social, sem saber muito bem que cadeiras haveria de escolher para o, e ouvi no corredor futuras colegas a questionarem-se onde iam fazer Erasmus. Apesar de, na altura, ainda não conhecer a fundo o conceito de Erasmus, fiquei pasmada com o facto de ser mais importante saber onde havia de se estudar mais tarde do que escolher as cadeiras para o primeiro ano. Só quando cheguei ao segundo semestre é que entendi que os interessados em ingressar no Programa Erasmus teriam de, obrigatoriamente, preparar a papelada muitos meses antes, daí não se falar de outra coisa nos corredores da faculdade logo no primeiro ano, não fossem as minhas colegas quererem pisgar-se logo no ano seguinte. Muitas das minhas amigas estavam empenhadas em estudar num outro país logo no ano seguinte e, por isso, durante meses o assunto não passava muito além de como seriam as sua vidas fora dali. Mas foram precisamente esses meses de conversas entre corredores que me fascinaram. Eu quero tanto fazer Erasmus, pensava eu dia após dia. Tinha a certeza de que ir estudar para outro país logo no segundo ano seria uma mudança mais que radical, pois acabara de sair de casa da minha mãe, acabara de ingressar na faculdade e acabara de mudar de cidade, tudo em pouquíssimo tempo. Porém estava certa de que queria experimentar fazer intercâmbio e passar do pensamento aos actos foi um instantinho.

 O primeiro ano passara num instante e no segundo, enquanto recebia informações das minhas amigas que já estavam em Paris, em Madrid ou em Bruxelas, andava eu de volta das opções e vagas das universidades possíveis. E descobri que a Universidade Católica Portuguesa tem centenas de universidades católicas em todo o mundo. Que falta de originalidade. E se, muitas vezes, escolher um par de sapatos ou um vestido já é difícil, imaginem escolher o destino onde passarão seis ou doze meses da vossa vida académica. E é nessa altura que a madrinha ou o padrinho do curso são essenciais, para nos darem os melhores conselhos. Ou não. O primeiro que deram foi: “escolhe um ano, não escolhas seis meses porque seis meses é o tempo que levas a ambientar-te e quando estiveres acomodada já o tempo passou e nem sequer tiveste tempo de viajar pelo país”. Estava decidido, iria estudar fora durante doze meses. O destino é que foi mais complicado porque quando toca ao Programa Erasmus não importa só onde nos apetece passar uma parte da nossa vida, importam muitas outras questões burocráticas que fazem a diferença.

 

Começo pela língua – imaginem que eu quero muito passar seis meses na Croácia, ah e tal vou estudar para Zagreb mas não falo um cu de croata e arranho um pouco no inglês. E depois sou obrigada a dizer “Ne govorim hrvatski!”, que é como quem diz “Eu não falo (um cu de) croata!”. Temos de ter atenção ao país onde vamos estudar por isso mesmo, não vamos passear onde os turistas se desenrascam todos, com gestos aqui e ali. Vamos estudar, normalmente as aulas são dadas na língua de cada país (desculpem mas nunca vi um professor da minha faculdade a dar aulas em português e depois a traduzir em mandarim para os chinocas lá da turma) e convém entendermos um pouco a língua deles. Mesmo que o professor acolhedor até seja um porreiro e deixe que façamos os exames em inglês, sei que muito boa gente fala um inglês à “Zézé Camarinha” e quando chega a Portugal passou a duas cadeiras. Por isso, acho que um dos factores mais importantes na hora de escolher uma universidade no estrangeiro é mesmo a língua.

 

Outro factor que é preciso ter muita atenção, mas muita mesmo, é a equivalência de cadeiras. Poi bem, pessoas que querem fazer Erasmus, quando digo que é preciso atenção é porque conheço casos em que na hora de escolherem as disciplinas, escolheram as que tinham o nome mais pomposo e florido e depois, de regresso a Portugal, não havia correspondência possível - ou porque não existiam na faculdade em Portugal ou porque os créditos das disciplinas não eram os mesmos. Quando chega a hora de preencher o formulário das cadeiras pretendidas é necessário esclarecer junto do gabinete de Erasmus ou do coordenador do programa se existem na faculdade acolhedora as cadeiras que precisamos de fazer na nossa faculdade (podem vocês mesmos pesquisar no site da Universidade) e se os créditos são os mesmos e o coordenador tem de assinar como prova de consentimento, porque depois nada há a fazer, ficamos com cadeiras em atraso ou a média que atingimos lá fora não é a mesma que nos vão atribuir cá dentro.

 

Acredito que estes dois factores são os mais básicos e fundamentais porque, se soubermos comunicar fluentemente, conseguimos fazer tudo o resto e, se conseguirmos assegurar que vamos estudar, atingir objectivos e que os mesmos são reconhecidos, conseguimos também que o nosso curso seja concluído sem problemas burocráticos. Naturalmente existem outros factores que são importantes mas já são um pouco mais pessoais. Se me apetecer ir para um país com praia para poder dar umas escapadelas em dias de calor, não faz sentido que vá para a Macedónia. Se prefiro países quentes a frios, não me será coerente ir estudar para Yakutsk, na Rússia, assim como se gostarem muito de frio é um tanto ridículo irem estudar para Sevilha. Existem pessoas que não sabem lidar com as saudades, por isso se pretendem visitar os amigos ou a família regularmente enquanto estão fora, aconselho a que estudem por perto, assim ali em Badajoz ou Madrid porque não acredito que seja fácil estudar nos Estados Unidos e vir a Portugal sempre que há um feriado, por mais dinheiro que se tenha ou não, porque as viagens são longas e cansativas. Há pessoas que preferem estudar em países que ainda não conhecem (o que me é bastante lógico) mas também há quem prefira estudar num país que, apesar de já ter visitado inúmeras vezes, adora e pretende lá viver (o que me é também muito lógico porque visitar um país é totalmente diferente de viver nesse país). Existem inúmeros factores importantes na hora de escolher o destino, como a cultura, as pessoas, a comida, questões financeiras, etc e tal, mas o mais importante de tudo é ter consciência da mudança que é (porque é uma grande mudança) e estar disposto a superar todos os obstáculos (conheço pessoas que amaram fazer Erasmus e que voltaram a repetir fazendo Mestrado ou simplesmente estagiar fora, mas também conheço pessoas que não aguentaram e passado uma semana voltaram para Portugal). Um aspecto importante do qual nunca nos lembramos é dos vistos de estudante. Ah pois que não é fácil, uma coisa é irmos estudar ali para Madrid que é perto e nem sequer precisamos de passaporte, outra coisa é irmos estudar para o México onde é preciso passaporte, visto de estudante, comprovativo d notário a dizer que os nossos paizinhos têm possibilidades de nos assegurar lá (porque os tipos não querem ver estudantes a trabalhar para ganhar uns trocos, assim como nem sequer querem saber que eu já não vivo com os meus pais há alguns anitos) e vacinas e mesmo assim o consulado há-de inventar mais qualquer coisa para os complicar a vida que isto de ver o povo português a preferir o estrangeiro ao nosso país é coisa que não lhes entra na cabeça, mesmo que seja por pouco tempo e uma experiência para a vida.

 

Portanto, caros leitores, comecei este texto para vos dizer que fazer Erasmus foi talvez das melhores experiências da minha vida, se não mesmo A melhor experiência da minha vida, tanto pessoal, como académica, mas que há ter em conta determinados factores que podem assegurar uma experiência óptima e segura – acredito que muitas das pessoas que não gostaram foi porque não estavam preparadas ou acharam que não era necessário preparação. E para vos dizer, finalmente, que o meu destino foi o Brasil, durante um ano. Bem lá no outro lado (que eu sou mulher para superar as saudades), onde há frio e calor (sim, no Rio Grande do Sul fazem graus negativos e neva, assim como no Rio Grande do Norte faz um calor de 50 graus), onde há estudantes de todo o mundo, onde há cultura, samba e muita caipirinha. E muitas outras coisas.

Para quem pretende fazer Erasmus ou Intercâmbio que venham essas questões e dúvidas. Para quem já fez, que venham daí as vossas opiniões, experiências, o que quiserem.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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