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La Bohemie

A famosa dieta. Ou não.

Em casa da minha mãe é proibidíssimo falar-se em dietas que cai o Carmo e a Trindade. É porque somos umas parvinhas, que estamos bem como estamos, é porque não tem cabimento uma miúda de 50kg (a minha irmã) querer fazer dieta só porque a irmã tem 45kg (eu), que sabemos lá nós o que é ser gordo, não fosse a minha mãe lidar diariamente com a saúde e a estética das pacientes. Não vou dizer que não tive os meus momentos de fúria em que não podia ver um pouco de celulite ou de anca que me passava das estribeiras porque tive, e muitos, mas a verdade é que sempre fui magra. Cheguei à adolescente com 45kg e 1,63 cm. De altura não cresci mais e de quilos não ultrapassei os 47kg. Minto, já pesei 49kg na altura dos exames nacionais e mesmo assim não me deixaram doar sangue, que bem tentei.

 

Perguntam-me inúmeras vezes se tenho alguma dieta, se sigo algum plano e a minha resposta é não. Lamento, mas eu sou o pior exemplo para qualquer rapariga. Acredito que seja uma espécie rara, mas detesto dormir e comer e sou viciada em café (quando digo viciada é porque nunca bebo menos de sete cafés por dia). Toda a minha vida pratiquei desporto, desde natação ao atletismo, pratiquei durante muitos anos futebol e basquetebol de competição e desde os quatro anos que pratico equitação. Mas depois entrei na faculdade e foi a desgraça total, meti na cabeça que não tinha tempo para correr mas deixei de ser hipócrita e percebi que não tinha vontadinha nenhuma de correr. Estava habituada ao campo do Algarve e não me imaginava a correr na caótica cidade de Lisboa, muito menos meter-me num ginásio ou ter de percorrer não sei quantas paragens de metro para correr numa pista de atletismo. Simplesmente deixei de fazer desporto e sempre continuei com os mesmos quilos. Acontece que naturalmente perdi massa muscular e ganhei a estúpida da celulite que, como já sabemos, pesa menos que os ditos músculos. Mas isto não me é novidade, nem para mim, nem para quem me conhece. O que me é totalmente novo é, de repetente, os meus pais e os meus amigos terem-se lembrado que estou mais magra. Oi? Mais magra como, se a balança marca os mesmos 45kg que marcou toda a minha vida. Naturalmente se engordo um ou dois quilos e chego ao 47, quando os perco volto aos 45 e pareço-vos mais magra, mas na verdade não estou a pesar 43 ou 41kg. Já estive, é verdade, mas na altura estava com uma tremenda anemia e trataram logo de me enfiar a comida no bandulho e andei um mês a fazer dieta para engordar. Bem sei que sempre fui muito preguiçosa para comer, então desde que vivo sozinha que faço menos refeições (repito, eu não sou mesmo exemplo para alguém). Quando era miúda fazia birras de manhã à noite porque tinha sono e não queria jantar e depois enfiava-me na cama a ver televisão (agora que escrevo, devia ter levado uns bons pares de castigo, assim daqueles de ficar amarrada à mesa a comer o peixe e os brócolos); de manhã fingia que comia os cereais mas fui apanhada e, como andava num colégio, a minha mãe pediu ao segurança do refeitório para controlar se eu almoçava ou não (senhora minha mãe, se ler isto, fique sabendo que era uma tortura ter de almoçar empadão depois de uma hora de treino). Como sempre fui magra, todas as minhas amigas achavam que eu estava a fazer dieta; como sempre detestei doces e bolos, os meus pais achavam que eu estava a fazer dietas malucas; as pessoas acham estranho que deteste refrigerantes e que só beba água, mesmo que vá lanchar fora; acham estranho que deteste Mc. Donald´s e muitas comidas de fast food; as pessoas acham estranho a tudo mas nunca questionam factores que para mim são óbvios.

 

O primeiro é o facto genético - a minha mãe é mais magra que eu, sempre foi toda a sua vida, inclusive quando estava grávida de mim e dos meus irmãos só se notava a barriga nos dois últimos meses de gravidez. O meu pai sempre foi muito magro, depois engordou quando deixou de fumar, mas isso é outra conversa. O meu irmão é alto e magro, eu sempre fui magra e a minha irmã, essa parvinha, (Tatita, eu juro, eu juro que gosto muito de ti mas pára de dizer que tens o rabo grande) pesa 50kg e diz que tem de emagrecer. Portanto, se toda a constituição da minha família é magra, seria estranho se eu fosse muito diferente, um bisonte de anca larga.

 

O segundo facto, e talvez o mais importante, está relacionado com a minha educação alimentar. Em casa servia-se sempre às refeições sopa, prato principal e sobremesa, fosse doce ou fruta. Vivi cerca de dez anos numa quinta com hectares de laranjeiras, macieiras e tudo o que é frutas, por isso os refrigerantes não entravam em casa – era um tanto ridículo gastar dinheiro em bebidas com gás e conservantes quando tínhamos fruta natural para dar e vender. E por isso mesmo nunca me habituei a beber sumos de lata ou coca-cola (esta detesto mesmo, os piquinhos fazem-se comichão no nariz). Nunca consegui gostar de doces, mesmo antes de saber que engordavam, por isso sempre preferi um pacote de batatas a um pacote de bolachas (sim, também eu tenho celulite e não é pouca). E o Mc. Donald´s, apesar de ser idolatrado mundialmente, eu pura e simplesmente não consigo comer depois de ter passado uma semana em Londres a comer este tipo de comida.

 

Portanto, a todos aqueles que me alertam para o facto de estar mais magra, eu refuto que contínuo exactamente com os mesmos quilos com que me conheceram. Portanto, agradecia, do fundo do coração, que me chamassem à atenção para outro tipo de coisas como “epah, vê se fazes um pouco de exercício que está mais flácida que uma galinha do campo”, “tu vê lá se arranjas tempo para dormir que andas com um ar gasto e cansado”, “tu apanha mas é sol nas ventas que nem te distingo da parede” ou “tu vai mas é correr que pareces magra, pareces magra, mas tens aí um pernil de celulite que se vê do Castelo de São Jorge”. Aí sim, eram pessoas fabulásticas e faziam aquele pressãozita psicológica que tanto preciso porque eu contínuo com os mesmos quilos de sempre e sou o pior exemplo para qualquer pessoa.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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