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La Bohemie

Happy Wedding.

Há pessoas que nascem com um dom para a medicina e desejam salvar vidas, outras têm uma veia de artista e são pintores toda uma vida e há quem se vingue na escrita com a sua inspiração. Há mulheres que nascem com um talento oculto para ser mãe, outras sonham em casar e depois existo eu que nasci com o bichinho de ir a casamentos. Não me recordo do primeiro dia em que entrei para a escola, não me lembro do meu primeiro carnaval tampouco da primeira aula de ballet. Mas recordo-me do primeiro casamento a que fui, tinha acabado de fazer três anos - e só o sei porque guardo comigo a imagem da barriga da minha mãe de tão grande que estava e do calor que fazia no dia 31 de Agosto de 1992. E porque fui a menina das alianças. E porque comi as flores que tinha no cabelo. Afinal recordo-me de muitas coisas desse dia. A irmã do meu pai casara e a minha irmã nascera pouco tempo depois. Logo nos anos seguintes casaram-se os primos do meu pai. O primeiro foi na Guarda e lembro-me do frio que fazia. Eu vestia um vestido de veludo azul-escuro e tinha o cabelo curto com franja. Recordo-me de conhecer a família toda do meu pai e de encontrar uma prima minha que tinha precisamente o meu corte de cabelo que eu, os mesmos traços do rosto, a mesma expressão e o mesmíssimo ar malandro. É sinistro, mas verdade. Não sei o que é feito dela hoje, mas temos inúmeras fotografias juntas. O segundo foi em Viseu, mais precisamente em Mangualde. Tinha seis anos e a minha irmã, três. Éramos as pestes da família. Lembramo-nos perfeitamente de ficarmos alojadas num hotel, de vermos uma qualquer novela no quarto enquanto os convidados dançavam na pista, de saltarmos em cima da cama e de brincarmos com o primeiro primo direito que acabara de nascer. Os meus pais são os mais velhos de toda a família e os primeiros a terem filhos, o que me dá o direito de ser a prima mais velha de todos os putos que hoje já têm mais que idade para apanharem bebedeiras comigo. Dois anos depois, já com oito anos, pedi à irmã do meu pai para ser minha madrinha de baptismo e da primeira comunhão. Ela e o meu tio comemoravam no dia 31 de Agosto anos de casados, no mesmo dia em que faleceu a Princesa Diana. Apesar de, na altura, não entender tudo o que envolvera o acidente, surgiram em todos os telejornais fotografias do seu casamento e o meu coração parou, os meus olhos brilharam. “Eu quero um vestido com uma cauda daquelas”,” Eu quero muitos meninos para segurarem no meu vestido”, dizia eu à minha mãe. Quando, no ano seguinte, me baptizei, pedi à minha mãe que fizesse um vestido para mim de origem, como se tivesse ido a uma loja de noivas e exigisse o vestido de noiva mais bonito de sempre. Era o meu dia, teria todos os avós, tios, primos e amigos reunidos num enorme almoço em casa e queria ser a mais bonita. Quando percebi que a festa decorrera durante três dias, juntando a Páscoa e uns dias de férias, senti uma enorme vontade de um dia casar, de vestir um vestido branco como aquele que vestira para me baptizar e ter uma boda que durasse vários dias. Era uma criança, coitadinha, passava os dias a folhear revistas com vestidos de noivas, devorava as decorações repletas de velas e flores, as mesas recheadas de comida e os convidados todos bem vestidos – nas revistas porque na vida real vê-se com cada trolha que dá vontade de dizer “tu não vais assim vestida para o meu casamento que eu não deixo”. Seguiram-se vários anos sem casamentos e eu queixava-me aos meus pais de não ter mais primos que dessem o nó, que teria de esperar muitos e longínquos anos para ver o meu irmão a subir a um altar ou para preparar o maior evento do ano, o meu. Até que uns anos mais tarde recebemos um convite para um casamento de uma prima da minha mãe. Oi? Mas que raio de prima é que ainda não se casou? Pois que o meu avô tem uma meia dúzia de irmãos que têm uma dúzias de filhos o que faz que eu tenha umas dezenas de primos e primas numa escadaria de degraus. Isto de viver uma vida quase em Marrachek faz com que veja minha família quando alguém se casa e depois vai-se a ver e passo um casamento inteiro a cumprimentar centenas de pessoas que sabia da sua existência mas nunca conhecera. E foi assim que tive o primeiro casamento em que me recordo de tudo até ao mais ínfimo pormenor, até porque foi, talvez, dos primeiros casamentos de arromba que assisti. Cocktail antes do casamento para encher o bandulho, cerimónia com missal, cânticos, damas de honor, meninas das alianças a combinar com as damas de honor (se não foram escolhidas numa agência de modelos, anda lá perto porque o raio das crianças eram iguais às damas de honor, com a mesma cor de pele e cabelo), a boda numa quinta enorme e um copo-de-água todo requintado (onde passei o tempo todo a acenar a mãozinha a primos que não conhecia) que durou três dias. Eu já não tinha estômago para mais mas exigi à minha um casamento assim. “É só pedir à sua tia que ela organiza tudo”. Oi? Então os meus tios têm dos caterings mais conceituados do país e não me dizem nada? Óbvio que depois da prima que se casou já só sobro eu e os meus irmãos, mas está longe de chegar o dia (pelo menos da minha parte). Como costumo dizer, gosto muito de casamentos, dos vestidos de noiva, da decoração e do rancho todo a dançar mas como convidada, que eu gosto é de ver o espectáculo de fora. E enquanto não chega o meu dia, se alguma vez chegar, fico feliz pelas amigas que têm subido degrau a degrau até subir ao altar. No Sábado foi a vez da Maria João e do Ricardo que, depois de sete anos de companheirismo, decidiram partilhar um dos dias mais emblemáticos da sua vida com a família e os amigos. E se não tivesse sido dos casamentos mais deslumbrantes e divertidos a que fui, até hoje, não teria escrito este texto a pensar neles. MJ e Ricardo, as maiores felicidades deste mundo e do outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Se não tivessem ido, a pedido da noiva, de All Star ninguém diria que são gémeos.)

 



 

 

 

 

 

(Dos melhores temas que já vi até hoje, não fosse eu viciada em chocolate. E o pedido de casamento foi feito com um chocotelegram. Delicioso.)

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Beijinhos, La Bohemie.

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