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La Bohemie

Love Is...

O Dia dos Namorados é já amanhã e todos querem freneticamente demonstrar o seu amor - ao marido, ao namorado, ao colega de carteira, ao rapaz que amassa o pão na padaria da esquina. Cada um à sua maneira, forma e feitio. Perguntaram-me o que é o amor e eu, face à minha falta de romantismo e critérios alusivos a este tema, contei esta história. É sobre e para a minha irmã Táta, um dos meus amores.

 

 

 

 

Já passaram dois anos mas recordo-me como se fosse hoje. A mãe ligou-me para o telemóvel era ainda dia e estranhei, não fosse o facto de estamos separadas por dois continentes com fusos horários diferentes, mas as saudades enchiam-me o peito e ignorei. Sentia falta da suavidade da sua voz e contei-lhe como tinham sido as minhas férias no Rio de Janeiro, passadas entre o calçadão de Copacabana e as praias de Ipanema, como era encantador o espírito dos cariocas, as águas de coco e como era tão bom sambar ao ritmo dos blocos carnavalescos. A mãe estava radiante mas não se poupou em demonstrar as infinitas saudades que tinha por eu estar tão longe. Com medo que a chamada se tornasse dispendiosa demais pedi-lhe para falar contigo e, entre uns breves segundos de hesitação, estavas tu do outro lado da linha, como se não tivéssemos a imensidão de um oceano a separar-nos. Estavas calma, com a voz meiga e angelical com que te conheci, mas a minha vontade forasteira de querer saber tudo sobre os teus dias desmurenou-te e desabafaste, entre lágrimas mudas e secas, que estavas internada no hospital há um mês. É incrível como por breves segundos o coração pára de bater, uma corda de aço envolve-se por entre o pescoço e quase que sufoca, a cara fica branca como a neve e as mãos tremem sem controlo. E entre um “o quê” inocente e um trémolo “como”, as lágrimas escorrem pela face e parecem gotas de chuva numa tarde triste de Outono. Deixei de te ouvir, eu própria não sabia o que dizer, apesar das minhas incomensuráveis perguntas.

 

O Pedro estava à minha frente e ficou apreensivo, eu chorava compulsivamente sem saber o que pensar ou dizer e, quando regressei a mim mesma, supliquei à mãe que me contasse tudo, sem rodeios ou fantasias. Queria saber tudo. De repente senti que não estava bem, que estava muito fraca e cansada e que a teu pedido não me contara nada para não me preocupar. Fiquei com tanta raiva de não estar contigo e de não saber a verdade, minha irmã. Na altura ainda era tudo muito vago, sabia-se apenas que tinhas tido uma pequena otite e que, quando deram por vocês, estavam nos cuidados intensivos porque estavas à beira da morte. Como é que tiveste uma otite e do nada estás acamada à beira da morte? Ouvi-te chorar e decidi desligar a chamada. Precisavas da mãe ao teu lado e eu, apesar de querer oferecer-te o mundo, nada podia fazer a não se esperar notícias tuas. E esperei, todos os dias junto do telemóvel.

 

Aos poucos fui sabendo pormenores, cada vez mais dolorosos. A tua primeira ida ao hospital começou com uma simples dor de ouvidos e saíste de lá medicada com antibióticos para uma suposta otite. Ao que parece, fizeram alergia e voltaste ao hospital pior. Numa segunda vez receitaram-te outros medicamentos mas, quando regressavas a casa com os pais, começaste a entrar em hipotermia e voltaste imediatamente para as urgências. Os médicos não sabiam o que se passava, muito menos o que fazer, e disseram à mãe que ias imediatamente para um hospital em Lisboa porque ali não havia solução. A mãe veio contigo na ambulância e, depois de 300km, foste internada no Hospital São José. O pai ficou no Algarve porque não se sabia quanto tempo irias ficar em Lisboa e era preciso cancelar as consultas dos doentes da mãe. O passar dos dias tornou-se numa batalha contra o tempo. Todas as manhãs, em jejum, fazias exames ao sangue, à cabeça, aos olhos e aos ouvidos, e a cada hora que passava, tu ficavas pior. Tiveste todos os chefes de equipa contigo na esperança de encontrarem solução para um estado que se desconhecia. Os médicos deram muito apoio à mãe, assim como o mano, os avós, os tios e primos. Até os nossos melhores amigos ligaram ou foram ver-te. Mas as coisas complicaram-se. Os médicos não encontravam solução para o desconhecido e alertaram a mãe para se preparar. Num dia tinhas o ouvido inflamado, no outro tinhas o olho completamente saído para fora e, com receio que ficasses surda ou cega, foste operada por todos os chefes-cirurgiões daquele piso. Tinhas uma doença muito rara que se chama celulite periorbital. Apenas uma em cada mil pessoas é operada com sucesso. Podias morrer em qualquer momento da operação. Mas a mãe nunca ficou longe de ti, esteve todos os dias e noites, durante um mês, sentada ao teu lado no quarto porque sabia que ias ficar bem. Tu precisavas de ficar bem. O amor dela é maior que o mundo e nunca nos deixou desistir de nada, por isso tu lutaste durante as longas e dolorosas horas da operação.

 

Sobreviveste. Passadas umas horas acordaste e a primeira coisa que perguntaste foi «A minha mãe está bem?» A mãe estava ao teu lado, como sempre esteve. E continuou porque havia ainda a possibilidade de ficares cega ou surda - só passado um ano é que tiveste alta definitiva. Só passado meio ano é que regressei a Portugal e abracei-te como se o mundo terminasse naquele dia. Mas não terminou e eu não te perdi como receei no passado. Com o passar do tempo vim a saber não só as coisas más, como algumas peripécias que viveste no hospital. Histórias tristes que ouviste, pessoas formidáveis que conheceste, as pessoas que te visitaram, as anedotas que te contaram, assim como tantos outros pormenores que te vinham à memória. A tua operação foi um sucesso e, de tão rara que é, a tua chefe de equipa falou do teu caso em palestras na Europa e nos Estados Unidos. O teu caso serviu para ajudar tantas outras pessoas. E apesar de eu estar finalmente em casa contigo, eu precisava de saber, eu precisava que me dissesses porque nunca me contaste a verdade, enquanto eu estava a viver no Brasil. Tu abraçaste-me e disseste «Eu não te contei porque se tu soubesses que eu estava internada, metias-te num avião e voltavas para Portugal e eu não queria que desistisses do teu intercâmbio no Brasil. Queria que vivesses essa aventura até ao fim».

 

E é por tudo isto que és a pessoa que mais influenciou a minha vida, porque amas-me. Porque o amor é desejar o melhor aos outros mesmo quando nós estamos mal. 

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.