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La Bohemie

Dolce Far Niente.

Existe mesmo falta de tempo? Ou será que somos diariamente invadidos por um certo comodismo pessoal e desculpamo-nos com a má gestão das horas e dos minutos? Muitas são as vezes que me perguntam como é que consigo fazer tudo o que faço – de acordar ainda com os candeeiros da rua acesos, de passar as manhãs nas aulas de Mestrado, de ocupar as tardes a escrever crónicas, a estudar, a investigar e ler artigos para escrever a tese e ainda ter tempo para escrever no blogue. Questionam-me como é que consigo, além disto, fazer uma formação em teatro à noite que exige de mim disponibilidade física e mental, de ter aulas de segunda a quarta e uma peça em cena de quinta a sábado. Como é que faço tudo isto e ainda tenho tempo para os amigos e família e consigo deitar-me sempre depois das duas da manhã se todos os dias acordo ainda com os candeeiros da rua acesos. E quando sou confrontada com tantas perguntas, muitas delas sem resposta, sinto uma enorme vontade de construir mentalmente uma explicação sólida, mas prefiro divagar sobre a simplicidade das coisas e responder com um humilde sorriso “se a minha Mãe consegue, eu também consigo”.

 

A minha Mãe é o meu exemplo de vida. E sempre disse que, quando fosse grande, queria ser como ela e é por isso que tenho sempre tempo para fazer tudo o que amo. Há quem diga que o tempo é relativo e ache que o amor é subjectivo. Para mim é tudo preciso e conciso, passe a redundância. Se o amor é enorme e cabe tudo no coração, o tempo e o relógio também o são e isto não é redundante, não fosse eu guardar todos os relógios numa gaveta e pendurar um coração na parede.

O verdadeiro problema não é o amor nem o tempo, somos nós. O povo confronta-se diária e subitamente com um mundo que mudou do âmago, e na mudança se instalou, do fundo da sua tradicionalidade rotineira. Tenta a todo o custo galgar mais rápido do que os que o desafiam, mas transforma-se antes nas suas relações sociais do que nas estruturas. E desatina-se. O desafio está em não deixar de ir buscar a seiva às raízes mas saber moldar uma nova pátria segundo as exigências do porvir. Uma pátria de 800 séculos onde agora é obrigada a resolver os seus problemas sob pena de parecer. E resolver não é exportar problemas e importar soluções e modelos ou apoiar-se nos outros desleixando-se no dolce far niente – “é ser capaz de criar e pelo seu trabalho construir uma sociedade equânime e de fraternas relações, na cidadania, onde se realiza a civilização da dignidade”, já escrevia Vitorino Magalhães Godinho.

 

Se tempo é dinheiro e se as pessoas andam sem dinheiro, porque não trabalham mais e protestam menos? Sim, estamos num país livre (ou tenta-se mostrar que sim), todos nós temos o dever de mostrar a nossa indignação face à crise e aos problemas sociais que o país enfrenta. Mas não é de política que falo, é de tempo e da forma como lidamos com ele. Todos os dias deparo-me com pessoas indignadas porque cortaram aos pais o subsídio de férias, de Natal, disto ou daquilo; pessoas aborrecidas porque ficaram com menos uma semana de férias, cinco feriados ou um fim-de-semana prolongado; pessoas que me atiram à cara “tu não te chateias porque nunca te faltou nada”. É verdade, nunca me faltou nada porque a minha mãe não tem férias, nem subsídios, nem feriados ou fins-de-semana prolongados há 26 anos. Porque a minha mãe, apesar de estar a passar pela mesma crise, trabalha todos os dias sem queixas ou lamentações para assegurar o bem-estar dos filhos. E é por isso que eu, assim como ela, só descanso ao Domingo, é assim que eu consigo ter tempo para tudo, com trabalho, dedicação, empenho e amor.

 

Não critico nem condeno as decisões e acções de cada um, muito menos daqueles que vão protestar para a rua, aqueles que vão lutar pelos seus direitos. Cada um contesta a sua indignação como quiser, mas não posso aceitar que me critiquem por não fazer parte das manifestações ou acções sociais quando eu prefiro ocupar esse tempo a trabalhar, a produzir, a criar. Porque apesar de compreender a frustração de cada um, não acredito que seja com proclamações que deixe de existir crise, por isso, vou querer ser sempre como a minha mãe quando for grande, que dedica o tempo com amor.

 

O problema está mesmo no correr dos ponteiros do relógio ou na nossa falta de vontade? O problema está, mais uma vez, em nós e na nossa maneira de pensar e agir. Preferimos cada vez mais em deitarmo-nos no sofá e ver televisão do que sentar numa poltrona e ler em busca de informação e ideias. Preferimos gastar o tempo a falar dos outros quando nem sequer paramos para pensar sobre nós. Mesmo desempregados e sem dinheiro para comprar roupa, preferimos gastar tardes em centros comerciais a ver lojas do que procurar trabalho. E preferimos porque nós não queremos trabalhar, queremos um emprego que nos dê dinheiro, dias de folga e férias. Somos preguiçosos e é por isso que nunca temos tempo para nada, porque não sabemos gerir esse tempo, porque nem sequer tentamos pensar numa solução para os nossos problemas. É cada vez mais fácil desculparmo-nos do que tentarmos encontrar uma solução para tudo.

 

Onde há regras, há excepções, assim como há antónimos e sinónimos, há o bonito e o feio, o rico e o pobre, o preguiçoso e o dedicado. Existem sempre duas faces, duas opiniões, duas críticas. Somos um povo de conquistas e derrotas, mas se enchemos a barriga com as primeiras, vomitamos com as segundas. Não sabemos erguer a cabeça como outrora fizemos com a bandeira de um país que nunca está satisfeito com o que tem. Um país que se queixa com falta de tempo e dinheiro e quando o tem desperdiça-o mediocremente com futilidades. Um povo que deixou de saber poupar em tempo, dinheiro e criticas. Pessoas que insistem em protestar com os erros dos outros em vez de trabalharem e construírem um futuro com aquilo que têm. E é por isso que nunca têm tempo para fazer seja o que for, porque gastam-no a reclamar e a invejar a vida alheia. Porque preferem sempre a galinha do vizinho em vez de tentarem criar frangos. E eu até gosto de frangos, bem assados, mas não, se o vizinho do terceiro esquerdo tem galinhas, eu também tenho de as ter, bem ressabiadas e peneirentas.

 

O problema não é dos ponteiros do relógio, nem da marca ou do pulso no qual o usamos. É da nossa forma de gerir o tempo e de tudo aquilo que fazemos com ele. Mas se vos serve de conforto, a próxima vez que me perguntarem como consigo fazer tudo aquilo que faço, eu esclareço – uso um relógio branco, sem ponteiros, da marca Swatch, no pulso direito. 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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