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La Bohemie

New Year, New Home, New Blog.

Há dias perguntaram-me qual era o meu lugar favorito e a minha resposta foi automática - a minha casa. A minha casa, seja ela qual for, seja ela onde for, será sempre o meu lugar favorito porque será sempre o meu forte seguro, o meu porto de abrigo. A verdade é que sempre vivi em casas grandes, num ceio familiar considerado grande. Cresci numa grande quinta no Algarve, junto dos meus pais e dos meus irmãos, onde as tardes eram passadas entre brincadeiras no meio dos pomares, nos jardins ou no quarto dos brinquedos. No Verão vinham os avós e os primos e os dias eram de convívio com almoços e jantares no alpendre, com banhos de sol na piscina e brincadeiras no meio da terra. No Outono calçava as galochas e ia com os caseiros apanhar azeitonas, dava longos passeios no tractor e no jipe com o meu pai e apanhava laranjas, passeava de mão dada com a minha mãe pelos longos caminhos de terra batida e apanhava flores para os arranjos da mesa. Lembro-me de chegar todos os dias do colégio e, ainda com a farda vestida, ia dar milho às galinhas e recolhia todos os ovos que encontrava. No Inverno ajudava o meu pai a juntar todos os galhos de árvores para que as noites fossem passadas junto à lareira a comer leite e ver televisão. E por mais que gostasse de brincar lá fora aos polícias e ladrões, de fazer corridas de bicicleta com o meu irmão, de colocar os gatos no topo do escorrega ou de simplesmente ouvir o som dos pássaros e dos tractores bem longe a lavrar a terra, era ali, no quarto dos brinquedos, que tudo acontecia. Que eu escrevia as minhas histórias e depois fazia os meus teatros. Um dia era médica, no outro era empregada da limpeza, num dia vendia frutas e legumes e no outro era cabeleireira. Aquele era o meu mundo, o do faz de conta, o do ser ou não ser, o do poder ser tudo o que queria ser. Atriz.

 

Depois, com dez anos mudei de casa e de cidade. Os meus pais compraram uma vivenda, também no Algarve, numa urbanização calma e segura. Diziam que era a zona mais in do momento, que tinha piscina, campos de ténis e ficava perto de tudo. Mas eu não queria saber dessas mariquices para nada. Sempre preferi o mar à piscina, nunca gostei de jogar ténis e na altura sem sequer sabia o que significava ser "in". Fosse para onde fosse tinha de ter um quarto dos brinquedos, um quarto que fosse só meu, das minhas histórias e personagens. E tive, e ainda tive mais. Tive um espaço para dormir, para trabalhar, para ver televisão (as novelas que via às escondidas do meu pai) e para jogar todos os jogos que eu quisesse. Continuei a ter o jardim com os cães, a piscina para as tardes de Verão, o terraço para os banhos de sol de onde se via o mar, o campo a 3 minutos, o centro da cidade a 5 e a praia a 7. Estava tudo ali pertinho, o sol, a praia e as ruas com as lojas onde gostava de comprar roupa. Pela primeira vez tinha muitos vizinhos que diziam bom dia e boa tarde, tinha meninos que brincavam comigo e com os meus irmãos, tinha o campo onde passeava de mão dada com a minha mãe e apanhava flores para os arranjos da mesa e tinha o meu quarto, o meu forte seguro, o meu porto de abrigo.

 

Depois cresci e senti que nada daquilo me fazia sentido. Preferia todos os fins-de-semana que vinha a Lisboa ver os avós, tios e primos; preferia o frio de Lisboa ao calor do Algarve; preferia as lojas de Lisboa às lojas do Algarve; preferia Lisboa ao Algarve. Comecei a sentir-me sufocada e acreditava que ali nunca seria jornalista nem atriz. E, quando fiz dezoito anos, sai de casa. Mas não, não queria ir para a casinha dos pais onde ficava nos fins-de-semana, eu queria a minha casa, as minhas chaves, as minhas coisas. E há quatro anos que arrendo o meu espaço, o meu forte seguro, o meu porto de abrigo.

 

Comecei por viver nas Laranjeiras porque ficava perto da Católica - um duplex todo renovado, com soalho que fazia toc-toc, ao qual chamava de "a minha casa de bonecas". Foi a minha primeira casa, onde recebi as primeiras amigas, o primeiro namorado, onde dei as primeiras festas, os primeiros jantares. Depois vivi uns tempos em Alvalade numa casa que a minha bisavó me emprestou e que me prometeu que um dia poderia vir a ser minha. Mas como sou pessoa que gosta de mudanças, voltei a mudar-me para um apartamento novo nas Olaias. Muitas foram as idas à Ikea, a lojas de decoração e momentos de bricolage com os amigos - tinha mudado para ficar e fiquei durante um ano. Depois senti que Lisboa já não me estava a dar o que desejava ter e decidi viver uns tempos no Brasil. E acreditem ou não, durante um ano vivi em três casas diferentes, todas no mesmo prédio. Era ver-me a subir escada acima, escada abaixo com mesas e cadeiras, colchões e armários.

 

Quando terminei a licenciatura regressei a Portugal e voltei a arrendar uma nova casa, na Alameda. E por aqui tenho estado há mais de um ano, num T-2 todo renovado, com soalho que faz toc-toc ao qual chamo de forte seguro, porto de abrigo. Ao qual chamo de casa. E é por isso mesmo que gosto de mudar, porque os momentos são importantes e especiais porque não passam disso mesmo, de momentos - feitos de histórias, pessoas, memórias e recordações. E é assim este blogue, a minha segunda casa, o meu conceito feito de histórias, ideias e opiniões, um conceito que está em constante mudança porque também eu mudo com o passar do tempo. E é assim, com esta mudança que vos apresento a nova imagem do blogue, o novo espaço do blogue, a minha nova casa. Sejam bem-vindos. 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.