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La Bohemie

Valentine´s Day.

À minha mãe.

 

 

Não consigo gostar do Dia dos Namorados, a sério que não. Começo a achar que perdi a minha sensibilidade para dias temáticos, como o Natal, a Páscoa ou o Carnaval. Mas isso fica para outra altura. O Dia dos Namorados aproxima-se e as lojas estão infectadas com corações, florzinhas e berloques que me fazem alergia aos olhos. Vou à Hussel comprar gomas e sou contaminada com chocolates em forma de corações - e eu adoro chocolates. Entro na Sephora e quase que me obrigam a comprar o pack de maquilhagem com as cores e brilhos certos para o Grande Dia. Entro na Intimissimi e só de ver coraçõezinhos e anjinhos com flechas na mão, quase que me dá vontade de passar o mês de Fevereiro sem langerie. A minha caixa de e-mail está empestada de promoções de viagens e escapadelas a dois só por causa do maldito dia 14 de Fevereiro. Eu adoro viajar mas detesto números pares. Detesto.

 

Nos meus tempos de colégio, quando se aproximava esta data, a professora de Inglês, na altura directora do terceiro ciclo, organizava sempre uma pequena brincadeira entre todas as turmas, desde o primeiro ano, ao décimo segundo. Cada um escrevia um bilhete com uma dedicatória à pessoa idolatrada, escrevia o nome da mesma, o ano e turma a que pertencia e, no final do dia, os bilhetes eram entregues aos respectivos destinatários. Acredito profundamente que foi no meu quarto ano que se revelou o meu trauma a esta data - nunca recebi o tão aguardado bilhete do meu menino louro de olhos azuis com apelido alemão. Eu bem que me inspirava em piroseiras escritas em inglês, mas ele nunca ligou muito ao assunto. E todos os anos, lá recebia eu um bilhete de um qualquer tanso do colégio que escrevia com a letra mais horrível que alguma vez vi uma mensagem tão medonha que me destroçava o coração. Ainda tive um ou dois "dias dos namorados" mas nunca foi coisa séria, até porque dados os presentes que eu recebia não podia ser coisa séria. Uma pessoa que me oferece uma caneca a dizer "I love you" ou um urso de peluche a dizer "Para que durmas sempre agarrada a mim" ou ainda um diploma a dizer "Para a melhor namorada do mundo" (claro que sou, se sou a única namorada que tens idiota, é óbvio que sou a melhor), não podia de todo ser a pessoa certa. E por isso nunca liguei muito a este dia.

 

Mas apareceu o primeiro grande amor, o Saldanha. Era meu padrinho da faculdade e foi sem dúvida a relação mais marcante da minha vida. E não comemorámos o "Dia dos Namorados" porque eu lhe pedi. Não queria nem fazia sentido comemorar um dia quando tínhamos tantos outros para celebrar. Mas ele fez questão de ter uma acção nobre e bonita - "Mafalda, como sabes a minha viagem de finalistas é em Abril e vai ser no México. E como eu não quero ir ao México, quero gastar o dinheiro numa viagem a Paris, contigo". E assim foi, o nosso "Dia dos Namorados" foi celebrado em Março de 2008, em Paris e na Disney Land e não deixou de ser especial por isso.

 

 

Depois tive o segundo amor da minha vida, o Pedro. Sim, aquela história linda que nos conhecemos no Brasil, no outro lado do oceano e não fomos felizes para sempre. E ironia das ironias, quando chegou o dito dia 14, estávamos no Rio de Janeiro e não havia "Dia dos Namorados" para ninguém. Era pleno dia de Carnaval e nós queríamos em sambar. É verdade, no Brasil, este dia de poupa e circunstância comemora-se no dia 12 de Junho (mais tarde levámos com as belas decorações das lojas) e, por isso, como não havia cá beijinhos e abraçinhos para ninguém, comprámos um cruzeiro de uma semana e fomos conhecer o nordeste do Brasil. Eu disse que gostava de viajar, mas também disse que detesto números pares.

 

 

Já disse que detesto o dia 14 de Fevereiro, não já? Detesto, mas há gestos que me marcam para a vida e sempre que este dia se aproxima lembro-me do gesto mais nobre que alguém já fez por mim, a minha Mãe. Como qualquer pessoa, o fim de qualquer relação marca-nos muito, principalmente quando foi o primeiro amor. É inevitável.  Mas a minha Mãe achou por bem não me deixar sozinha naquele dia, coitadinha de mim, não fosse eu cortar os pulsos ou afogar as mágoas em cinco caixas de chocolates, e veio visitar-me a Lisboa. E passámos o fim-de-semana juntas, entre passeios pela Baixa, compras no Chiado, chás no Largo de São Carlos. E, apesar de andar de muletas rua acima, rua abaixo, foi o melhor "Dia dos Namorados" que tive. Fui mimada pelo maior amor da minha vida e é assim que me recordo sempre deste dia tão estúpido e piroso. Porque a minha Mãe faz questão de me mostrar todos os dias que sou um dos amores da vida dela (isto de ter irmãos é lixado), faz questão de fazer dos nossos dias, o melhor "Dia dos Namorados".

 

Beijinhos, La Bohemie.

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