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La Bohemie

O cego que vê.

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 Ao Tiago.

 

 

Noite fria, corpo gelado. Visão cega, pensamento adormecido. Não resta nada se não o ar que respira e sufoca. E mata.

Era já tarde e o laranja forte que rasgava as nuvens, por cima do Cristo Rei, anunciava o fim de mais um dia. Uma imagem sublime, quase antagónica, cores quentes contrastavam com a brisa gelada que se fazia sentir. As luzes dos ferrys aproximavam-se, lentamente, dos pés do Terreiro. Viam-se pessoas, dezenas, a atravessar apressadamente as listas brancas das várias passadeiras que se cruzam com o asfalto. O desejo de chegar a casa impelia-as a correrem à frente do tempo, na esperança de ganhar aqueles ledos minutos, longe dessa roda-viva que é Lisboa. Havia quem passeasse. Senhoras de sacos numa mão e crianças noutra. Amores de mãos dadas. Castanhas assavam no fogareiro de uma velha, cujos anos pesavam, dobrando-lhe as cruzes. Os carros rugiam, impacientes, perante a autoridade dos círculos vermelhos. Ouviam-se buzinas, roncos, motores freneticamente acelerados.

 

tac-tac

 

Um estalido contínuo guiava os passos de uma figura humana através da pedra da Praça da Comércio. O cego avançava confiante na direcção da imponente figura equestre. Cada passo que dava era abalado pelo frio que lhe subia pelas bainhas rotas das calças de flanela. Gastas. Velhas. Trazia um casaco, também ele de flanela grossa, que lhe tapava o corpo até à coxa. Dos cinco botões que lhe deveriam ajustar o casaco ao corpo só restavam três, os superiores. Nos punhos, nem botões havia. O que lhe valia era umas luvas de lã, comidas pelas traças e pelas saliências do chão onde pernoitava, que lhe tinham sido dadas por uma qualquer alma insigne. Na mão esquerda, um dedo médio, meio descoberto, expunha uma unha, preta de descuido. Em cada pé uma bota de couro nobuque preto. Estalado e gasto. Aquele par de botas conhecia bem os caminhos de Lisboa. Conhecia-os melhor que os olhos de quem as usava.

 

tac-tac

 

Era cego. Os dias e noites são incontáveis e os meses e anos tornaram-se recordações suas, fragmentos de memórias distantes. Uma vida difícil, embora remediada, volvera-se numa vida totalmente desamparada, incerta. Saiu para a rua numa manhã, e na rua ficou para sempre. Passeava, muito. Tinha uma harmónica que saíra de casa com ele, naquela manhã derradeira e que o acompanhara durante todo o seu nómada percurso. Era sua, dantes, agora e para sempre. Fazia-lhe companhia nas noites e dias de solidão. Vivia nela o calor de outros tempos. Tempos mais felizes. Sabia tocar umas notas. Caminhava no corredor da carruagem, por entre olhares penosos e comprometidos, agitando a metade de garrafa de plástico, que trazia pendurada ao pescoço, com meia dúzia de pretos lá dentro, que chamavam a atenção, mesmo dos mais indiferentes. Singular, era.

 

tac-tac

 

Mas ida estava agora, a hora de tocar harmónica para as vidas apressadas do metro. Gozava de um passeio no Terreiro do Paço e a sua bengala de apoio apalpava o caminho como uma toupeira que nada vê, mas sabe para onde vai. E ao sentir na mão o toque de um obstáculo, parou. Sentou-se num dos bancos de pedra existentes naquela praça. Virado para o rio Tejo, sentia na cara a brisa forte. Fazia-o sentir-se vivo no meio daquela deplorável condição em que vivia. E envolvido por este desejo momentâneo de viver, levou a mão ao bolso direito do casaco, em busca da sua consonante. Levou-a aos lábios. Começou a tocar. Notas soltas, indistintas a princípio. Quantas eram as palhetas daquela harmónica que já não se manifestavam como deviam. E então, no meio-termo entre a antiguidade de uma marimba gasta e o tocar apaixonado de um cego, surgiu uma preclara melodia. E já a sua música estava prestes a passar da dominante para a tónica, eis que ouve um grande burburinho à sua direita - risos e passos estugados. E neste compasso de espera em que tira o seu instrumento da boca e tenta ouvir atentamente o que se passa, um grupo eufórico de crianças passa por ele arrancando-lhe das mãos, com uma pancada, a harmónica. O sol escondeu-se atrás das nuvens. Perdera o norte e o sul. Debruçou-se e caiu de joelhos na pedra da Praça. As pequenas pedras pareciam-lhe agulhas a picarem-lhe os joelhos desgastados. Não interessava. Pouco ou nada interessava.

 

A dor da perda será enorme quando comparada com a dor do corpo à qual o eterno fado haveria de pôr termo.

 

Apalpou o chão. As cabeças dos dedos avançavam impetuosamente pelo betão em busca do metal frio. À sua volta, os motores rugiam, os pombos batiam asas, o vento soprava, ouviam-se os ferrys a chegar a Lisboa. Buzinas, motores apressados, castanhas a estalarem nos fogareiros, risos de crianças, risos de pessoas, risos de todo o mundo. Lisboa não pára. Lisboa não espera pela desgraça alheia. Morrem gentes nas suas casas. Chapas que batem com chapas nas veias alcatroadas da eterna cidade. Canos desarranjados que vertem água para as calçadas como se fontes fossem. Relvados por cortar. Canteiros por arranjar. Cego que perde uma das razões de viver a escassos metros dos pés do destemido D. José I. E pelo desgraçado caído por terra, nenhuma pata do corcel de D. José se mexeu. Nada, não lhe restava nada senão o desespero que avassala o corpo e as lágrimas que pelo corpo avassalam. Ali permaneceu, cabisbaixo. E o rugido dos carros, as buzinas, os motores apressados, o bater de asas dos pombos, o estalar das castanhas nos fogareiros, os risos do mundo eram sons cada vez mais distantes. Cada vez mais distantes.

 

Anseio o dia em que o sol me trespasse as pupilas. Espero o dia em que volte a ver a minha cidade. Conheço Lisboa de agora. Conheço uma outra Lisboa - cada um tem a sua. Esta cidade (não) dorme dentro de cada um. Eu tenho a minha.

 

Tantas vezes havia percorrido as suas ruas escuras de cegueira, mas nunca experimentara a curiosidade de saber a cor do mundo que o rodeava. Perante a imposta condição desinteressou-se pelos pequenos prazeres da vida e os duros dias tomaram-lhe conta do corpo. Lisboa tornou-se numa cidade de caminhos e ruas que ele tão bem conhecia, que lhe permitiam chegar onde queria. Eram, simplesmente, caminhos, ao invés dos troços de alegria e felicidade de outrora, um sopro sobre o pó que lhe cobria as memórias.

Lisboa, a cidade d’ontem, a cidade d’hoje. Lisboa é uma cidade onde se passa, não se está. As pessoas andam apressadas, gente que vem e que vai, pessoas que correm para casa, para longe. Condutores que vêem Lisboa desaparecer pelo espelho retrovisor; barcos que vão e barcos que vêm, nenhum fica; comboios que chegam e que partem, nenhum fica.

 

Eu estou em Lisboa. Eu tenho estado em Lisboa faz muito tempo. E Lisboa está em mim.

 

É esta relação simbiótica que lhe tem dado o logro conforto de ter um tecto salpicado de estrelas por cima da cabeça, o céu que cobre esta cidade. Sente-se feliz, aqui. Estas ruas são como as paredes quentes da casa que fora sua, um dia. Cada canto seco é um potencial quarto. É acolhedor. Sabe que se engana, sabe que se ilude.

 

Mas é esta a minha Lisboa de agora. A cidade que me pedes. Eu espero. O tempo a mim não me apressa.

 

A última imagem que tem de Lisboa é a do sol a raiar, reflectido pelas águas do Tejo. Sempre que o tempo lhe permitia, gostava de passear pela cidade. Cada passeio é um momento inesquecível. Lisboa, dos Queijinhos de Ovos e dos Bolos de Gema que sorriem tentadoramente a quem passa do lado de lá da vitrina. Maravilha do Pantagruel que as mãos dos artesãos alfacinhas preparavam, ainda a noite era uma criança. É o pão com chouriço e o caldo verde cuja temperatura é uma constante. Aquecem o corpo. Aquecem a alma. Aquecem corações nas noites mais frias da solidão. Lisboa é as montras dos alfaiates e das retrosarias repletas de tecidos de todas as cores e requintes. É a moda. É a ostentação das mulheres, que guardam em casa os brincos que já pertenciam às suas avós, que os ganharam com o suor e o pó da terra, em tempos idos. Lisboa é a cidade onde se passa. São os cabelos loiros, os olhos claros, as paletes de cores de pele e as línguas de outros confins do mundo que vêm a esta cidade ver as maravilhas de uma opulenta história. Disparam-se flashes, tomam-se notas atentas. Olha-se em redor, para o alto, para baixo. Galos de Barcelos que saem das lojas de lembranças. Nossas senhoras de Fátima que saem das lojas de lembranças. Estatuetas, miniaturas, naperons. Tantas outras coisas, por esse mundo fora. Lisboa é a cidade onde se está. É o drama de quem tenta fugir ao céu desta metrópole como tecto da sua casa. É o drama de quem luta contra um destino incerto, mas fatal. É o drama de não saber se se poderá pôr pão na mesa - mas que mesa? Mas que pão? É o sair para a rua com meia dúzia de tostões no bolso - mas sair donde? Sair da rua, para a rua. A rua é a casa de muitos, em Lisboa. São as inúmeras veias e artérias que atravessam esta cidade, os pneus que volteiam infinitamente sobre a calçada onde outrora madeira rolou. É essa mesma calçada que o asfalto tentou esconder. Onde antes caíam bostas dos animais que passeavam os fidalgos, caem agora pingos de óleo. São os pedintes que marcam de lamentação as pedras onde se sentam. Sanitários que se escondem debaixo do chão - públicos para uns e privados para tantos outros. Quem caminha por Lisboa verá, com certeza, desenhos e palavras soltas que profanam paredes - maldade para uns e ignorância para tantos outros. Portas fortes e janelas gradeadas que nunca se voltarão a abrir. Quantas não existem. Com quantas cores te pintam, Lisboa, os rostos que não são de cá e tentam vender a imagem dos teus eléctricos, das tuas flores, das tuas ruas, por “tuta-e-meia”. Lisboa está nos estaladiços pastéis de Belém, tão famosos quanto saborosos. Esta cidade é o desafio do povo marinheiro, figurado pela Torre de Belém que enfrenta as águas temerariamente. Quantas vezes não se deleitou, o pobre cego, ao subir aquelas ruas para o Castelo de S. Jorge.

 

Sou cego, agora. Não vejo, mas sei o que se passa à minha volta. Antigamente não era surdo, mas quantas vezes não soube eu das histórias que cada esquina e cada ruela estreita teriam para contar se o dom da palavra lhes fosse atribuído.

 

Lisboa é encontrar um sentido para o caminhar, olhar para a frente ou para trás. São os namorados que passeiam pelos arruamentos, entre abraços e sorrisos, como se aqueles fossem os caminhos para a felicidade. Lisboa está nas velhotas que se sentam em banquinhos, à porta das suas casas, a ver passar a vida dos outros que também já foi a sua; está nas janelas coloridas pelos canteiros e vasos que adornam o abrir de portadas aquando do raiar de um novo dia. E quem vem da Baixa e sobe as Pedras Negras depara-se com a majestosa Sé Catedral, erguida pelas mãos dos que lutaram por fazer desta uma cidade cristã. Que sumptuosa casa de Deus, com as suas abóbadas de canhão. É a pedra nua e crua deste templo. É, o ainda assim, na sua simplicidade, bonito templo. A virgem mãe num canto escuro, venerada por um mar de velas tremeluzentes acendidas pelos devotos, a quem as mães pranteadoras choraram pelos filhos que a guerra lhes roubou. O sol que trespassa os vitrais coloridos tentando trazer às paredes nuas algum calor. Os dois imponentes órgãos, dispostos frente a frente como que em desafio: os seus tubos esticam-se o mais que podem para conseguirem elevar o mais possível cada acorde que reproduzem.

 

E o Fado.

 

Essa língua que já se fala desde há muito. Essas melodias e harmonias que tomam o lugar de pano de fundo quando se fala nesta estética cidade. As ruas de Alfama com os pequenos tascos, mesas quadradas, decoradas com toalhas brancas axadrezadas por vermelho, arrumadas, como se fossem luxuosos camarotes virados para um palco, minúsculo como uma gaveta, onde modestamente disposto se encontra um xaile de fadista. Coliseu de cantigas de um país que é cada vez menos o dos nossos dias, donde vivas e alegrias saem porta fora. Amarguras que são cantadas e partilhadas, guitarras que choram, violas que se apagam. Lisboa de outros tempos, narrados pelas vozes de quantos sentem no peito os fados deste povo. Bacalhau ensopado em azeite e alho. Chouriços assados e por assar. Alheiras, queijos curados, pão saloio.

 

É esta a Alfama que conheci.

 

E quem continua a escalada da Colina, passando por casas caiadas, olhares alegres, sorrisos maduros, chega ao apoteótico Castelo. E como é bonito. Que jardins. Viçosas são as flores que crescem no solo onde foram derramados, em tempos, os sangues nossos e dos que perderam esta terra. E é no momento de se olhar para lá das ameias, que o derradeiro retrato surge: Lisboa, rainha, senhora deitada sobre Sete Colinas. O Rio Tejo beija teus pés, sem vontade de ir para o mar, e as Tágides compõem o teu manto que se debruça sobre a água. Na outra margem do rio, o Cristo abençoa-te. Olha, infinitamente, para ti e por ti. Os raios de sol lambem os telhados das casas dos que te habitam. Vê-se vida em cada um que por ti passeia. Vê-se um bocadinho de ti no olhar dos que nas tuas ruas caminham. O teu relógio marca a medida eterna, e lembra, a quem passa, que o tempo escasseia e que não esperas por ninguém. E quem desce a rua Augusta Rua, ao passar por baixo desse arco que escolheste como bracelete, pode saudar o Monarca, que se ergue imponente no seu cavalo, verde dos anos, anunciando um domínio que se estende atrás dele. Ai Lisboa, dos mil poemas e das mil canções. Estás em cada carril que te percorre. Estás na lembrança de um Tagus que corre, carpindo, para longe de ti. És recordação de um país que foi, de um país que é. És promessa de um país que será. És catedral para os teus filhos lusitanos. És capital de um Portugal num mundo cada vez mais pequeno.

És corpo em mim, sou corpo em ti. O cego estendeu a mão que foi agarrada pelo desconhecido. Era quente, suave, pequena. Uma mulher. E o som voltava gradualmente. O rugido dos carros, as buzinas, os motores apressados, o bater de asas dos pombos, o estalar das castanhas nos fogareiros, os risos do mundo. Tudo voltava, pouco a pouco, a encher o ambiente. As nuvens pereceram.

 

Não sejas um resto de tudo o que existiu.

 

E este último grito, no meio do som crescente, coincidiu com o erguer do cego e viu-se envolvido novamente pela cidade imparável. A companhia tinha-lhe desaparecido. O sonido atingiu o seu máximo, outra vez. Sorriu e, com a ajuda da sua bengala, tomou o caminho para o coração da cidade.

 

tac-tac

 

Beijinhos, La Bohemie.