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La Bohemie

Sitges.

Aterrei no aeroporto da Portela e a primeira coisa que pensei foi "tenho de escrever no blogue. Aconteça o que acontecer, tenho de escrever". Andei com este pensamento o Verão inteiro, mas havia sempre uma razão mais forte para o não fazer - mas isso fica para depois, mais uma vez.

Estávamos os cinco sentados numa esplanada de um restaurante em Sitges, uma pequena província situada  à beira do Mar Mediterrâneo e recordávamos como tínhamos ido parar a Espanha. E numa fracção de segundos senti que existe uma razão para tudo. Por mais coincidências que surjam no nosso caminho, todas circulam pelas rotundas do mundo e acabam por se encontrar num qualquer cruzamento da nossa vida. A Sara é do Canadá, cresceu no Brasil e vive em Portugal. O Urso é do Brasil, mas tornou-se cidadão espanhol. O Sagreira é do Algarve mas vive em Lisboa. A Suzi é de Lisboa e por Lisboa quer ficar. Eu sou lisboeta, muitos acham que sou algarvia e outros não acreditam que já vivi no Brasil  e que tenha sotaque do norte. Fomos todos passar uma semana a Barcelona e foi isso que me fez pensar. Como fui eu lá parar.

Por uma qualquer razão, a meio do Verão, lembrei-me que tinha uma vacina em atraso. Talvez porque fez um ano que voltara do Brasil e recordara estar no centro de saúde a levar a vacina da Febre Amarela e alertar, na altura, a enfermeira para o facto de não poder levar a vacina do tétano por não estar em Portugal. E passou um ano de atraso quando vim a Lisboa buscar os documentos. E agora que escrevo, recordo-me tão bem daquela tarde de dia 10 de Agosto - estava um calor infernal e nem o medo de levar a tal vacina me impediu de entrar novamente naquele centro de saúde. Sentei-me na cadeira e, no momento em que fechei os olhos para não sentir a picada, a enfermeira disse "A vacina que levou quando foi para o Brasil dói mais". Assim que abri os olhos para entender o que me dissera, já tinha levado a vacina e sorri. Não costumo esquecer caras, mas naquele momento senti-me feliz por lembrarem-se da minha. Saí do edifício e a minha irmã obrigou-em a sentar no banco do jardim - não achei muita piada ter de me sentar meia hora, caso me sentisse mal, mas hoje agradeço-lhe. E ficámos ali, sentadas, a falar das tais rotundas e cruzamentos, sinais de trânsito e infracções. A minha irmã falava e falava e eu orgulhava-me cada vez mais dela, por já conduzir, por ter passado nos exames sem uma falha e por ser a melhor irmã do mundo. Fomos interrompidas pelo som de uma mota. Olhei e comentei com a minha irmã que o rapaz era mesmo giro, mas ela preferiu o motorino. Não levou muito tempo até o tal rapaz giro tirar o capacete e eu exclamar "ohhh, é o Sagreira". Sorri-lhe e ainda lhe lancei "até de capacete tu tens pinta, rapaz". Ele olhou, sorrio e sentou-se ao nosso lado. Conheço o Ricardo há sete anos, fomos colegas no secundário e lembro-me tão bem de o ver pela primeira vez - passeava no pátio da escola um capacete pendurado no braço e tinha uma 125 azul. Era dos rapazes com mais estilo que ali estudava. Era de Ciências e eu de Letras, mas festejámos juntos a viagem de Finalistas, em Lloret del Mar. E foi naquela tarde, sentados naquele banco que (re)descobrimos as tais coincidências que se cruzam sempre num qualquer caminho da nossa vida... como eu fazer anos dia 1 de Agosto e ele dia 2... ele trabalhar exatamente no mesmo espaço do que o namorado da minha irmã ou o simples facto de ele ter ido levar a vacina do tétano em atraso àquela hora, no preciso momento em que a minha irmã me aconselhou a esperar. Ou como foi há quatro anos que fui pela primeira vez a Barcelona, com ele. Barcelona. "Estou a juntar dinheiro para ir a Barcelona em Setembro, queres vir?", perguntou-me. Não hesitei muito a dizer que sim.

Não hesitei, mas despedi-me a achar que seria mais uma daquelas combinações à moda portuguesa, em que duas pessoas prometem um café e quando dão por si, já estão formadas, já trabalham e continuam a dever cafés a toda a gente. Juro que pensei que tinha sido conversa "de esplanada", mas ele ligou-me no dia seguinte: "A minha madrinha comprou os bilhetes para Barcelona. Vamos dia 12 e voltamos dia 20. Ficamos em casa de um amigo, na praia. Vamos mesmo à aventura". E fomos, e era disto que conversávamos os cinco sentados numa esplanada de um restaurante em Sitges, enquanto bebíamos o tal café prometido.

 

  

Beijinhos, La Bohemie.

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