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La Bohemie

21 anos a ser Mulher.

- Hoje é o dia Internacional da Mulher.

- E tu és a mulher mais bonita de todas elas. Deusa.

- Vocês homens dizem todos o mesmo. Gregas e romanas. São todas deusas.

- As gajas são mesmo tramadas. Ora fazem-se de difíceis e fingem que se estão a cagar para nós, ora são um verdadeiro furacão que passa sem avisar e troca as voltas todas a um tipo.

- Sim, mas nem todas são assim.

- É verdade.

- Qual é a melhor palavra que me define?

- Tufão.

- Tufão? Não me digas que passei sem avisar e troquei-te as voltas todas...

- Porque podes ser uma aragem ou um vento forte, calma ou intensa.

- Também posso vestir preto ou branco.

- Quando acordas és branco. Um corpo dócil que se confunde nos lençóis de linho que a tua avó te ofereceu quando fizeste 18 anos. Mas à noite és totalmente preto. A elegância de um vestido de veludo. Acendes um cigarro e ficas à janela a namorar a lua.

- Suave. Português Suave.

- Tu és selvagem. Andas descalça sobre a terra, dedos fortes como rocha, garras que se cravam como espinhos.

- Mas como me defines?

- Ainda não percebeste?

- Sim e não. Sou branco e preto. Sou cravo e canela. Sou o Sol e a Lua. Água que apaga o fogo.

- Tu és doce.

- Há vezes em que sou amarga. Chocolate Preto.

- Minha querida, tu não és amarga. Tentas sê-lo para te protegeres, mas depois sorris e ficas doce. Desmanchas o corpo e iluminas a alma.

- Isso é uma máscara.

- Tu és linda, com ou sem máscaras. És uma bailarina, pés femininos e crispados.

- Tenho saudades de ser bailarina, mas já não danço há muito tempo. Já nem sei fazer o développé e o grand battement.

- A postura é o que caracteriza a bailarina. Podes não te recordar da técnica, mas tens emoção, sensualidade e expressão.

- Eu sou atriz.

- Mas guardas as tuas Gaynor Minden numa caixa de cartão.

- Mas se fosse bailarina não ia ser feliz.

- O corpo diz o que não consegues dizer. És uma lutadora, igual à tua Mãe, mas tens medo de não conseguir; de cair e magoares-te. És mulher e as mulheres têm medo de falhar.

- Sim, todas idealizamos ter uma postura correta. Alongamos as pernas e encaixamos o quadril, alinhado com a coluna, os ombros, o pescoço e a cabeça. É um en dehors. Mas depois caímos, batemos com a cabeça na trave e percebemos que nem todas podemos ser bailarinas.

- A palavra que te define é "exigente".

- Exigente, é essa a palavra que escolhes?

- Sim, exigente. É o que és na vida, exigente.

- Sim, sou determinada.

- És dura contigo mesma. Lutas pela perfeição e fechas o coração ao mundo. Danças, representas, escreves, esfolas o corpo e depois colocas uma placa a dizer "coração fechado para obras".

- Nunca tinha pensado nisso.

- Vives para os outros. És bonita, inteligente e uma boa amiga. Tens amigos e toda a gente gosta de ti.

- Mas eu vivo para mim.  Bem ou mal.

- És um espírito livre, tens uma vida pela frente e um mundo inteiro para descobrir.

- Sou uma brisa fraca que arrefece num dia de Verão e um vento forte de Outono que faz voar as folhas da cidade. Uma aragem que move os prados na Primavera, e um vendaval que emaranha os cabelos no Inverno.

- Tu és mulher, meu amor. Tu és mulher.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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