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La Bohemie

Ele.

O meu blogue não é apenas sobre moda. Tentei explicá-lo várias vezes mas ele ainda acha que só escrevo sobre roupa e sapatos. Ele...

Ouvi o nome pela primeira vez há muitos anos, em conversas soltas entre o meu irmão e a minha mãe. O seu primeiro ano da faculdade, amigos recentes e experiências que lhe viriam a vincar um novo caminho. Mas só lhe conheci o rosto quando vim visitar a minha futura faculdade, alguns anos depois, numa daquelas vezes em que se encontravam todos à mesma hora, na mesma rua. Dizem que as primeiras impressões são as mais marcantes e ele não me marcou pela positiva. Coincidências à parte, ele falava mal das miúdas da Católica e eu era exactamente uma delas, ou viria a ser dentro de pouco tempo. Era giro, alto e tinha imensa pinta mas, para mim, perdeu todo o charme. Reconheci-lhe o nome algumas vezes depois, em conversas soltas entre o meu irmão e os amigos. O meu primeiro ano da faculdade, amigas novas e experiências que me viriam a vincar um novo caminho. Mas só lhe vim a delinear novamente o rosto um ano depois, numa daquelas vezes em que se encontravam todos à mesma hora, na mesma rua. A rua onde ele nasceu e cresceu, rua onde eu nasci e já vivi, rua onde vive o meu irmão e já viveu a minha mãe, rua onde vive o meu avô e o meu tio. Lembro-me de estar sentada na esplanada, de o ver chegar e sentir um aperto no peito. Ainda hoje não o sei explicar mas nunca mais esqueci aquele sorriso por me ver. E eu sorri por vê-lo. Coincidências à parte, eu fui visitar o meu irmão e ele apareceu naquele preciso momento.

 - Miúda vê se apareces mais vezes.

- Também tens de me convidar mais vezes.

Ele subiu a rua, num pé apressado, virou-se para trás e gritou «91...». De telemóvel na mão, pediu-me o meu número e, num ápice, só tive tempo de gritar os sete restantes algarismos. Ainda hoje rimos deste momento. Surgiram algumas trocas de mensagens, destrocas de ideias, sorrisos estampados na cara e cócegas na barriga. Mas só voltei a sentir aquele aperto no peito quando me cruzei com ele numa qualquer noite no Bairro Alto. Coincidências à parte, ele estava naquela rua no preciso momento em que eu passei. E surgiram, novamente, mais trocas de mensagens, destrocas de ideias, sorrisos estampados na cara e cócegas na barriga.

Dias depois, a adrenalina fervia-nos no sangue, a ambição de querer encontrarmo-nos era maior do que a tentação, o desejo de  querer voltarmo-nos a ver era maior que o dever, mas aquela noite foi diferente. Eu sabia que ele já lá estava, ele sabia que lá iria aparecer. Onde, só o destino o poderia prever. Prometemos que seria especial se nos encontrássemos numa qualquer esquina, num qualquer momento. Não valia telefonar nem procurar, mas acredito que ele pensou tanto em mim como eu pensei nele. Eu disse que o desejo era maior do que o dever. As horas passavam, as pessoas cruzavam-se rua acima, rua abaixo e eu conversava com a minha irmã e uns amigos. Tive ganas de lhe ligar e ir ter com ele mas, na verdade, havia sido eu a deixar-nos perante a derradeira escolha do destino. Destino, o quanto me rio hoje com esta palavra. Conformada com o meu descontentamento, descemos a rua para apanhar um táxi. Coincidência ou não, vi-o e ele viu-me. Eu descia e ele subia. Cruzámo-nos e disse-me, envolvido em tamanha felicidade - «Miúda, eu não quero saber mas vou raptar-te». Só tive tempo de dar as chaves de minha casa à minha irmã, de lhe dizer o código da porta do prédio e não os vi mais. (ok, infelizmente tenho de cortar com a cordialidade do texto porque tive uma tremenda necessidade de ir ao quarto de banho e foi uma aventura para encontrar um àquela hora, mas continuando...) Levada pela mão, numa azáfama de pressa e excitação, percorremos as ruas do Bairro Alto e sentámo-nos numas escadinhas. Ainda hoje não sei lá ir ter, mas guardo-as comigo. Sentámo-nos e conversámos pela primeira vez. Afinal o tipo até gostava de miúdas da Católica. Delineei-lhe novamente o rosto, senti-lhe o cheiro, conheci-lhe o toque. Visivelmente era mais alto do que eu, mas porra, as escadas tinham de servir para alguma coisa. Senti-lhe o calor dos lábios e conheci a cor dos olhos. Seguiram-me meses de uma paixão platónica, de um namoro escondido, de passeios à beira rio, de conversas até de madrugada à porta do meu prédio, de conversas até de madrugada dentro do meu prédio, de jantares, os bolos da Praça do Chile sob a luz da lua, de encontros escondidos na esquina da Portugália, de encontros disfarçados onde se encontravam todos à mesma hora, na mesma rua, das despedidas no Jardim Constantino... de perguntas sobre o senso-comum e respostas ao senso-comum, de conversas sobre o ex-namorado e a ex-namorada, discussões sobre o ex-namorado e a ex-namorada...sim, seguiram-se momentos de tesão, de compaixão, de felicidade e desilusão, de boas e más recordações, de pequenas perguntas e grandes explicações, momentos apaixonantes, marcados pela partilha e vivência. E depois veio o "isto não está a resultar", o "és um imaturo", o "eu vou à minha vida e tu vais à tua". Veio o momento que corre tudo mal, o momento em que uma pessoa se fecha em casa e chora como se achasse que vai perder 5kg se chorar mais e mais, o momento de arrependimento, o momento em que questionamos a imaturidade dos homens e esquecemo-nos de questionar a nossa. Pensamos nos erros dele e não nos lembramos de pensar nos nossos, o momento em que é mais fácil insultá-lo a ele do que assumirmos que temos culpa, que o pressionámos, que não demos espaço, que não o respeitámos, que o sufocámos, que o chateámos até ao tutano e que ele foi embora porque "aquilo não estava a resultar".

Mas esta história é diferente, não estava mesmo a resultar mas nunca deixámos de pensar um no outro, nunca deixámos de nos desejar um ao outro, nunca deixámos de gostar um do outro. Seguiu-se mais um semestre na faculdade, eu inscrevi-me no programa Erasmus, tirei mais um curso de teatro e moda e, de vez em quando, quando em vez, cruzávamo-nos na rua onde se encontravam todos à mesma hora.

Numa noite quente de Maio ele assistiu à actuação final do meu curso de teatro e voltei a sentir aquele aperto no peito, voltei a sentir-lhe o ardor dos lábios e ele voltou a roubar-me mais um sorriso. Os dias seguintes foram passados entre sorrateiras mensagens, segredos e desejos, noites de estudo para as frequências, preparativos para os Santos Populares, gravações dos MCVII no Algarve e voltei para Lisboa para um novo curso de teatro antes de ir viajar para o outro lado do mundo. Coincidências à parte, precisamente naquele dia eu fui ter com o meu irmão e, quando me sentei na esplanada, ele apareceu. E eu passei a tarde com ele. Tarde em que por escassos momentos pensei desistir da minha ida para o Brasil por causa dele. Por nossa causa. Tarde em que ponderámos assumir uma relação séria e sólida. Tarde em que tirámos a primeira fotografia juntos e ainda não sabemos dela. Tarde em que eu desisti dele. Foi uma das tardes mais difíceis da minha vida. A noite aproximava-se e fui jantar com ele e com os amigos, a noite em que tive um acidente que me mudou o rosto e roubou o sorriso para sempre. A primeira noite em que saí com ele e com os amigos. Noite em que a paixão deixou de ser platónica e o namoro escondido. Noite em que tudo mudou. A noite em que percebemos que acontecesse o que viesse a acontecer, iríamos gostar um do outro para sempre. E assim foi, passado um mês deixei tudo para trás e fui viver para o Brasil.

Uns meses depois, vim a Portugal passar uns dias e deixei as malas em casa do meu irmão antes de seguir caminho para o Algarve. Estava com um pressentimento tão estranho nessa noite que decidi ir para casa descansar, rezando a todos os santinhos para que não me cruzasse com o Marcelo. Não me apetecia vê-lo, falar-lhe, não me apetecia estar com ele. Mas estive, vi-o e falei-lhe. Passei a odiar coincidências para sempre.

Regressei ao Brasil e só voltei sete meses depois. Feliz, realizada, licenciatura terminada, projectos concretizados, viagens, lugares, pessoas, amizades, uma bagagem bastante sólida, mas tudo o que deixei para trás continuava cá, à minha espera. E quando estive com ele, fiz-lhe a mesma pergunta que lhe fizera há três anos, «Pode-se amar uma pessoa e estar-se apaixonada por outra?» A resposta era óbvia e rapidamente percebi que nunca o tinha esquecido e que agora estava novamente sentada na rua onde sempre nos cruzámos, a rua onde ele nasceu e cresceu, rua onde eu já vivi, rua onde vive o meu irmão e já viveu a minha mãe, rua onde vive o meu avô e o meu tio. Rua que será sempre nossa.

O meu blogue não é apenas sobre moda. Tentei explicar-te várias vezes mas tu ainda achas que só escrevo sobre roupa e sapatos. Tu...

 

Beijinhos, La Bohemie.

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