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La Bohemie

Não vales nada.

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Agora eu acordava deste pesadelo e tu estavas outra vez deitado ao meu lado, com a cabeça enterrada na almofada, de costas viradas para mim mas com o braço torcido como a perna de uma mesa de estilo na direcção do meu lado da cama, a palma da mão virada para cima em forma de concha, a pedir que eu a agarrasse, e eu agarrava-a outra vez e adormecia de novo, feliz e tranquila com a tua presença. Mas um dia desististe, quiseste outras coisas da vida e, como se nada fosse, pegaste nas tuas coisas e foste embora. Não há nada a fazer quando as pessoas não querem falar. Ou ouvir. Ou estar estando, que não é a mesma coisa que estar sem estar, porque estar sem estar é estar sem ser e é muito mais fácil não ser estando, porque assim treina-se a capacidade de não ser e é muito mais fácil deixar de estar.

 

     Não vales nada

 

Disseste-me antes de fechares a porta, como quem parte um prato e deixa os cacos espalhados pelo chão. Eu não valho nada porque me levaste o único ar que eu sabia respirar. Podias ao menos ter deixado o braço ou esse teu olhar que dá vontade de viver lá dentro. Agora o teu cheiro perdeu-se, só sobrevive na minha memória cansada de te recordar e qualquer dia também se apaga, porque as memórias matam o presente e eu quero poder voltar a sair à rua e aprender a respirar outra vez sem ter o teu ar a sustentar-me. Eu pensava que quando vinhas, estavas e eras. Estavas comigo e eras tu. E era por isso que vinhas e era por isso que te sentias bem. Também pensava que esse teu estar, tão intenso e perfeito, era o inverno de todos os outros lugares onde, por obrigação, inércia ou cobardia, eras obrigado a estar sem estar e sem ser. Mas entre o que eu e tu pensávamos, o tempo foi tecendo um manto de confusão e dúvida e agora, que não sei onde estás nem quem és afinal, descanso o olhar no movimento dos barcos, imaginando que aqueles que vejo só estão e são perante os meus olhos até ao momento em que desaparecem a caminho do porto ou do oceano e que, depois, hão-de ser o que quiserem ser e estar onde quiserem estar.

 

     Não vales nada

 

Quando se dá tudo fica-se sem nada e o pior é que uma pessoa habitua-se a ser assim, idiota e estúpida, até ao dia em que lhe cai o mundo em cima e percebe que perdeu tudo e que, se calhar, não vale mesmo nada. Mas agora que me imagino sem ti ao meu lado, só me dá vontade de dormir para sempre, parar de respirar este ar novo que não conheço, refugiar-me nas memórias e imaginar-te outra vez deitado na cama com o braço torcido à procura do meu corpo, quando ainda achavas que eu valia alguma coisa e que esta era também a tua vida e que comigo podias ser feliz. Custa-me imaginar que és um desses barcos enormes e distantes que não me são nada, cujo destino e fim em nada dependem da minha vida ou vontade. Custa-me imaginar-te longe, à deriva, viciado numa existência estéril e inglória na qual não estás nem és aquilo que és. É como se saísses de dentro de ti e vivesses a tua existência na qualidade de um espectador da própria vida. Mas se calhar és mesmo assim, se calhar já te habituaste a viver fora de ti, não estando nem sendo nos lugares e nas palavras onde as pessoas pensam que te encontras. E se calhar é por isso mesmo que também não te consigo encontrar, porque estás tão habituado a estar sem estar e a não ser, que ninguém te pode encontrar, nem mesmo tu.

 

     Não vales nada

 

Pode ser que um dia volte a acreditar que valho alguma coisa. Afinal, nunca te viraste para mim para ver se do outro lado da cama havia alguém. Mas não faz mal. Não faz mal, porque tudo aquilo que não se procura, acaba, por uma ironia certeira, por nos vir parar às mãos e, por isso, enquanto descanso o olhar nos movimentos do barcos e treino as pulsações para recuperar o ritmo real e melancólico, o mesmo que me guiava quando ainda não existias, penso que um dia, uma tarde ou uma madrugada, uma maré de sorte ou de coragem te pode trazer de volta. Mas isso só será possível quando, ao ouvires as tuas pulsações, reconheças nelas o bater de um coração que afinal ainda pode ser o teu, tu que vives há tantos anos alheado de ti mesmo, estando sem estar e não sendo à custa de ser aquilo que os outros esperam que tu sejas.

 

Beijinhos, La Bohemie.