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La Bohemie

"That’s How We Roll".

Primeiro dia d´O Sol da Caparica

 

O Sol deu à Costa e veio para ficar. O Festival regressa ao Jardim Urbano da Costa da Costa de Caparica entre os dias 13 e 16 de Agosto e estão prometidos mais de 30 artistas, 11 horas de música, três palcos, uma avenida dedicada ao surf e muitas outras iniciativas ligadas à cultura urbana. Este ano, como no ano anterior, os objetivos definidos para fazer do Sol da Caparica um Festival nacional, sólido, diferente e potenciador de uma atitude artística inovadora e arrojada mantêm-se. Um Festival atual onde os Artistas exibam os seus mais recentes trabalhos, em que a sua criatividade e inovação estejam presentes. Um Festival em que, para além da música e da festa, a animação proporcionada permita a partilha e experimentação de todos em que a língua, os grafiti, a arte urbana e surf tenham a evidência e o destaque merecido. No Sol da Caparica, todos vão poder beber um copo, apreciar uma atuação, descansar nas zonas lounge e quem sabe garantir a primeira surfada ou saída de kite ou até windsurf. As crianças também, pois o Domingo do Festival será dedicado a elas. Infelizmente vivemos num país com um sério problema de falta de amor-próprio escondido por trás de um total fascínio cego por tudo o que “vem do estrangeiro”. Mas o Sol da Caparica vem mostrar não só que em Portugal se faz música para todos os gostos, como também que é possível construir três dias de festa onde o poder da lusofonia quebra as barreiras do preconceito, que ainda existe neste país.

Palco Blitz

A elegância e o carácter único de Mimicat marcaram presença no Sol da Caparica. Há artistas assim, que parecem chegar de um outro tempo e que nos fazem lembrar que a boa música nunca, mas nunca passa de moda. É esse o caso de Mimi Cat cujo álbum de estreia, For You, foi lançado o ano passado pela Sony Music. «Tell Me Why» foi o seu single de estreia e a confirmação instantânea do seu talento, apoiado numa óbvia inspiração fornecida pelos clássicos, carregada de classe, com um estilo muito próprio, muito retro. Também o segundo single «Saviou», tema de recorte gospele com um ritmo funky retrata a elegância e o caracter único da artista. São essas as marcas que definem a postura, o visual e a música de Mimicat: com uma voz carregada de alma, quente e elegante, Mimicat tem conquistado palcos dentro e fora de Portugal. Ontem ainda o sol nos irradiava o rosto e Mimicat, vestida com uma longa saia laranja e cabelo curto encaracolado, cumpriu o seu papel, transportando-nos para um ambiente intimista à beira mar plantado, repleto de jazz e soul, recordando-nos os tema de Nina Simone «I put a spell on you» e «Hit the road jack!» de Ray Charles.

O Palco é mesmo o habitat natural de Dengaz. Se há artistas a quem a expressão “fenómeno” assenta que nem uma luva um deles será, sem a menor sombra de dúvidas, Dengaz. A sua carreira fez-se a pulso e apoiada na ideia de Skill, Respeito e Humildade que, aliás, deu título a um dos seus primeiros sucessos sérios. O percurso profissional de Dengaz tem-se feito em contacto direto com o público e a sua ascensão tem sido sustentada por uma devoção real dos fãs que se revêm nas suas letras positivas. «From The Heart» ou «Eu Consigo» são êxitos porque toda uma geração se revê nas palavras de honestidade e no balanço que muito deve às ruas, ao Hip Hop e até ao reggae, outro género com que tem bastante afinidade. Bastou olhar em redor ontem à tarde para se perceber a quantidade de miúdas histéricas que pulavam, saltavam e gritavam pelo seu nome ou repetiam cada verso das suas canções sem errar. Dengaz admite que não é rei nem boss, atribuindo esse mérito ao público, mas é por ele e para ele que as palmas e assobios ecoaram bem no alto, junto ao céu.

Com 12 minutos de atraso, subiu ao palco Blitz um dos maiores fenómenos da Soul e RnB nacional, os HMB – autores de «Dia D» e «Não Me Deixes Partir». Cheia de estilo e descontraída, a banda portuguesa trouxe grandes vibes numa tarde já com o sol a despedir-se de nós. Os HMB são o quinteto Héber Marques na voz, Joel Silva na bateria, Daniel Lima nos teclados, Fred Martinho na guitarra e Joel Xavier no baixo. Os grandes nomes dos anos 60 e 70, como Al Green e Bill Withers e os mais recentes D’Angelo e ErykahBadu são algumas das referências que inspiram a sonoridade da banda. Agora, os HMB estão de regresso com Sente, um disco mais dançável e cheio de boas canções, do qual fazem parte os temas «Talvez» e «Feeling». E como já dizia o ditado, «quem não sente, não é filho de boa gente». Neste álbum os HMB encontram-se mais maduros e mais ligados às tendências dançáveis da Soul, Hip Hop e RnB. Depois de «Talvez», foi a vez de dar lugar ao sucesso nas pistas de dança com o tema «Feeling», em colaboração com Da Chick, um hino à dança, que é como quem diz «quem dança seus males espanta» e «quem dança nunca arrefece», tornando-se esta a mensagem do novo disco. «Lado Certo do Peito» e «Tua Maneira» não são músicas para uma só audição, e «Dillaema» tem um feeling à Stevie Wonder, um cheirinho de bossa nova e gosto a jazz. Sente trata-se de um álbum sólido e maduro, que nos deixam com vontade de o voltar a ouvir sempre que chegamos ao fim. E foi essa mesma sensação com que os HMB nos deixaram mesmo antes de terminarem, perante um palco a transbordar de fãs: nós não queríamos chegar ao fim.

Se existe uma chama rock em Portugal, The Legendary Tigerman tem sido dos que mais têm trabalhado para a manter bem acesa. Legendary Tigerman, que continua a rodar True um pouco por todo o mundo, é outro dos destaques do dia de ontem. Este homem tigre com alma de rocker é um dos mais destacados pilares de uma cultura elétrica portuguesa e um favorito do público nacional. Com Paulo Segadães na bateria, João Cabrita nos saxofones – e ontem Felipe Costa nas teclas – The Legendary Tigerman é agora um poderoso power trio com rodagem máxima e impacto rock and roll total. O fôlego tem, obviamente, tradução na discografia que já possui um generoso número de entradas: tudo começou em 2002 com NakedBlues. Desde então, Tigerman editou Fuck Christmas, I Got The Blues, In Cold Blood, Masquerade, Femina e ainda dois registos ao vivo que dão perfeita conta do impacto que a sua música consegue obter quando projetada a partir de um palco. Esta força tem aliás amparado uma generosa carreira internacional que se tem traduzido em digressões por vários continentes e edição dos mais recentes trabalhos em mercados importantes da Europa e não só. No espaço de um ano já tive a oportunidade e a satisfação de assistir a uma dezena de concertos do Paulo Furtado e, apesar de não ser groupie, percebo que não me importaria de o ver mais dez vezes sem me cansar. A garra, a entrega e a dedicação que o artista deposita em cada canção, a forma como manuseia cada instrumento, a energia que transporta para o público faz-nos acreditar que Portugal tem tanto talento cá dentro como lá fora noutras Costas.

Para terminar a noite de atuações no Palco Blitz, os UHF têm estatuto de Pioneiros. Verdadeiros Cavalos de Corrida do panorama rock nacional, os UHF têm estatuto de pioneiros por terem marcado presença na primeira hora da explosão do rock português, quando os anos 70 ainda não se tinham esgotado e a inspiração punk animava os primeiros passos de António Manuel Ribeiro e companheiros. O percurso que se fez nestas quase quatro décadas, no entanto, tem sido de constante trabalho, sempre próximo de um público que aos UHF reserva nada menos do que autêntica devoção. A Minha Geração, de 2013, é o mais recente trabalho de originais dos UHF, mas a sua presença nos escaparates tem também passado por álbuns ao vivo, testemunhos privilegiados da força que sempre conseguiram ter em palco, como é o caso do recente Duas Noites em Dezembro. Já em 2015 viram uma compilação de raridades ser lançada com a revista Blitz – marcos óbvios de uma carreira que é querida pelo público que gosta de manter uma proximidade extrema com a música do grupo de «Estou de Passagem» ou, para citar um êxito de combate mais recente, «Vernáculo (Para Um Homem Comum)».

Palco SIC/RFM

No Sol da Caparica fez-se silêncio! Como ninguém Infinito Presente é o título do novo e muito aguardado trabalho de Camané que chegou este ano. Nesse álbum, entre certamente outras maravilhas, o fadista canta um inédito do compositor Alain Oulman e, no tema que dá título ao trabalho que sucede finalmente a «Do Amor e dos Dias», que data já de 2010, há um poema de David Mourão Ferreira. Talvez o pouco público que se encontrava no recinto não o saberia, mas tanto o poeta como o compositor escreveram para Amália Rodrigues, certamente uma das grandes inspirações da carreira de Camané. Este ano, Camané assinala 20 anos da edição de Uma Noite de Fados, o disco que finalmente o projetou no panorama fadista nacional, alguns anos antes da explosão a que hoje se assiste em torno de um género que já tem museu próprio e distinção da Unesco. Seguiram-se mais cinco discos de originais, experiências de cruzamento com outros artistas e ambientes – do projeto Humanos à colaboração com Dead Combo, para dar apenas dois exemplos. Essa generosidade na entrega e o seu estilo único garantiram-lhe um lugar de destaque no panorama fadista nacional. Camané é hoje um dos grandes (apesar de ser pequeno) embaixadores do género e sem a menor sombra de dúvidas um dos seus mais respeitados estetas. No Sol da Caparica fez-se silêncio. Para que Camané cantasse o fado. Como ninguém.

Lembro-me bem de ter ido ao meu primeiro festival com a minha Mãe. Lembro-me do meu primeiro festival sozinha, com irmãos, com amigos. Mas lembro-me ainda melhor dos primeiros concertos, ainda criança, depois adolescente, em família. Os meus pais sempre me incutiram o gosto e o conhecimento pela música, tanto que subi pela primeira vez a um palco aos cinco anos para cantar com a banda Lunáticos a mítica canção «Estou na Lua». Por isso acho sempre piada quando me dizem «Essa banda não é do teu tempo». Ai é, é. Podia ser ainda uma pequena criança, mas eu já as ouvia, ao vivo, às cavalitas do meu pai. E os Resistência lembram-se sempre esse tipo de bandas que “não são do meu tempo”. A banda de Pedro Ayres Magalhães, Olavo Bilac, Tim, Fernando Cunha e Miguel Angelo foram ontem ao Sol da Caparica apresentar Horizonte, o seu disco mais recente, sem esquecer os clássicos que uniram toda uma geração no inícios dos anos 90, com material que vai dos Heróis do Mar e Delfins, aos Xutos e Sitiados. Resistência tornou-se num fenómeno que ultrapassou gerações, afirmando o poder da palavra cantada em português graças ao sucesso estrondoso de álbuns como Palavras ao Vento, Mano a Mano ou Ao Vivo no Armazém 22, casos sérios de vendas no arranque dos anos 90 que, de facto, marcaram uma geração. O super grupo participou em aventuras coletivas importantes da nossa história musical, como a compilação de homenagem a José Afonso Filhos da Madrugada que teve também um momento único de celebração no antigo estádio José de Alvalade. O regresso dos Resistência duas décadas depois deixou claro que esta visão continua a fazer pleno sentido num presente onde cantar em português é uma opção que inspira novas gerações. No fundo, quem não conhece as famosas canções «Nasce Selvagem» dos Delfins, «Quero-te Tanto» dos Xutos e Pontapés e «Vai Sem Medo» dos Resistência? No Sol da Caparica toda a gente recordou e cantou.

E como o Festival é feito para o tipo de famílias na qual cresci, onde os gostos se misturam, subiu ao Palco SIC/ RFM um dos mais queridos músicos da minha geração. Carlão já foi Pacman nos Da Weasel, mas agora, numa vida redescoberta primeiro nos 5:30 ao lado de Regula e Fred, e agora em 40, o seu trabalho mais recente, em nome próprio, assume um lado mais solitário na criação, mais exposto, sem a necessidade de ter uma banda em volta, como aconteceu também com o projeto Dias de Raiva e Algodão. Quarenta, o álbum que tem em «Os Tais» uma espécie de manifesto tem sido um sucesso e se dúvidas houvesse, comprovou-se ontem à noite perante um recinto completamente lotado. O sucesso não nasce, no entanto, de geração espontânea até porque o percurso de Carlão vai já longo: os Da Weasel afirmaram-se, claro, como um dos maiores fenómenos do Portugal moderno e urbano, assumindo a condição de verdadeiras vozes de uma geração. Carlão explorou tudo – o hip hop que lhe ficou colado à pele, mas também o rock mais extremo ou a spoken word, colaborando de permeio com grandes nomes da música portuguesa, como Sérgio Godinho, por exemplo. Agora é em nome próprio que se apresenta e muito bem. Ontem à noite, Carlão falou da filha e cantou «Um minuto», mas também houve tempo para uma convidada especial, Sara Tavares, que cantou ao seu lado «Krioula».

Marcelo D2 é um veterano e eu já tinha saudades dele. A última vez que o ouvi foi há cinco anos no morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. O rapper que ocupa a linha dianteira no panorama hip hop brasileiro tem idade para ser meu pai, mas era adolescente quando o hip hop começou a dar os primeiros passos discográficos nos Estados Unidos com pioneiros como os Sugarhill Gang ou Afrika Bambaataa. Ganhou notoriedade como parte integrante dos Planet Hemp e em 1998 lançou uma bem sucedida carreira a solo com Eu Tiro Onda, registo que precedeu o clássico À Procura da Batida Perfeita, fusão perfeita entre a cultura nascida no Bronx e o som dos morros do Rio de Janeiro. Breaks e samba. Flow e ginga. Nada Pode Me Parar é o trabalho mais recente deste rapper que este ano se apresentou no palco do Sol da Caparica, tendo como convidado especial Dengaz no tema «Tamojuntos».

Richie Campbell é um dos nomes incontornáveis da nova cena musical portuguesa. Campbell tornou-se sinónimo de reggae feito em Portugal e conseguiu com o seu Live at Campo Pequeno de 2014 um incrível sucesso, no qual tenho o gosto de fazer parte logo na primeiro fila. Na altura entrevistei-o e cheguei mesmo a dizer que o «O Reggae precisa de muitos Richies». Acompanhado pelo seu adorado grupo 991 band, Richie subiu ao palco para grande euforia dos fãs, mas desengane-se quem achou que só seriam ouvidas as músicas mais conhecidas. O novo trabalho de Richie Campbell recebe o título de In The 876 e apesar de ter temas bastante mais calmos e apaixonados, promete expandir ainda mais uma carreira que só tem conhecido sentido ascendente desde que em 2010 lançou In My Path. Desde então, Richie tornou-se figura assídua nos palcos dos maiores festivais, capturando com enorme intensidade os favores do público. Focused e depois o registo ao vivo no Campo Pequeno só lhe amplificaram a vibração positiva tornando-o num verdadeiro ídolo dos mais jovens. Ontem chegou a vez d´O Sol da Caparica o aplaudir a si e à sua banda, verdadeira locomotiva de grooves que não deixa ninguém parado ou indiferente. Richie puxou pelo público o concerto inteiro, entre os seus saltinhos de pernas como quem se prepara para correr a meia-maratona, tirou fotos aos fãs, homenageou o rei do reggae Bob Marley e convidou o seu amigo Dengaz, que subiu ao palco pela terceira vez na mesma noite. «Give It All Away» cantou-se em uníssono ontem à noite, mas os temas mais conhecidos, como «That´s How We Roll» e «Best friend» ficaram mesmo guardados para o encore. Richie, obrigada, «I Feel Amazing».

Para terminar o primeiro dia de Festival, subiu ao palco um dos mais importantes nomes no circuito que se começa a designar como Afro-House. DjMarfox acaba de lançar Revolução 2005 – 2008 pela Nos Discos, uma compilação que retraça os primeiros passos da sua carreira como produtor, quando a reinvenção dos ecos de kuduro que chegavam de Luanda era a mais premente das suas propostas. Marfox tem sido um verdadeiro embaixador, levando este som de Lisboa até vários pontos do mundo.

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.

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