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La Bohemie

Memórias precisas.

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A primeira memória que tenho é curiosamente a mais marcante. Eu era pequena e estava a brincar em casa numa tarde de Inverno. Não, sejamos precisos. Finais de Dezembro de 1992. Eu tinha três anos e quatro meses e a minha irmã pouco mais de uma semana de vida. Não me lembro dela ter nascido, não me recordo do Natal, nem tenho memória de regressarmos de Lisboa. Sei que ela estava a dormir no berço no quarto dos nossos pais. Eu estava na sala de estar a brincar com os presentes de Natal ao lado da minha Mãe e da minha avó paterna. O preciso momento em que o meu pai entra em cena é tão violentamente doloroso que só tenho memórias dele a partir dos meus dez anos de idade.

Seremos nós feitos de memórias precisas? Muito tempo depois, já com dezassete anos, contei aos meus pais este episódio e ficaram estupefactos por me recordar de tal atrocidade. Não, sejamos precisos. Fevereiro de 2007. Senhora minha Mãe tinha-me ido buscar a uma festa de aniversário. O preciso momento em que eu chego a casa e o meu pai entra em cena é tão violentamente doloroso que nunca mais voltei a esquecê-lo. Atrasei-me. Havia-me dito para estar em casa à meia-noite em ponto e cheguei depois. A minha Mãe chegou comigo depois. Já estava mais do que habituada aos seus inúmeros castigos, à sua violenta fúria, à sua ridícula precisão da vida e do universo, mas naquela madrugada berrei «Basta!».

Quando vivemos uma vida entre o vago e o absurdo, temos de aproveitar o limbo para sermos precisos. Há muito que me imaginava a ter aquela atitude assim que fizesse 18 anos e tivesse o direito legal de ir embora por vontade própria, mas depois de tantos anos a ser empurrada contra uma parede e atirada ao chão, uma qualquer força vaga ajudou-me a levantar e ser bastante precisa. Naquela noite o meu pai não me bateu, mas jurei-lhe afincadamente que nunca mais me tocaria com um dedo. Nunca perdi o medo, mas naquela noite ganhei coragem. Naquela noite chorei e sequei as lágrimas, conversei e gastei a voz, recordei momentos, partilhei memórias. Naquela noite libertei-me de dezassete anos silenciosos e amargurados. Naquela noite comecei a viver.

Não sei se algum dia esquecerei aquela violenta tarde, tampouco se apagarei da memória aquela atroz madrugada, mas por vezes precisamos destas memórias precisas para nos lembramos de onde vimos e sabermos para onde queremos ir. O preciso é muitas vezes avassalador, mas o vago é ainda mais assustador.

 

Beijinhos, La Bohemie. 

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