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La Bohemie

Trazes a Cruz na mão e os Diabo no coração.

Diabo na Cruz no Teatro Tivoli

 

Quando entrevistei os Diabo na Cruz há dois meses, no Cinema São Jorge, pensei «Eu tenho de ver estes tipos ao vivo». Comecei a ouvi-los numa fase muito bonita da minha vida e, depois de ter estado mais de uma hora a conversar com o vocalista e o baterista, seria um tanto ridículo não assistir a essa coisa a que chamam de pop rock da aldeia. Foi ontem, mesmo ali ao lado, no Teatro Tivoli. Os Diabo na Cruz regressaram aos palcos de Lisboa para um concerto que esgotou em duas horas e meia. A razão? Simples, a ideia do concerto surgiu da vontade do grupo em encontrar-se com o seu público. E se os Diabo querem, os Santos fazem. «E prometem fazer rodopiar as saias das donzelas mais formosas e abanar as cabeças de nobres e plebeus. Entrai na dança, siga a rusga, minha gente!»

A sala não esgotou porque apareceram uns betinhos e, à última hora, perceberam que não teriam pedalada para um rock dos diabos, mas esteve bem composta. Às 22h15 a ansiedade apoderou-se das centenas de fãs e as luzes apagaram-se como por magia. «Como é que é?» perguntou Jorge Cruz. Digo eu que o compasso uníssono das palmas e percussão foram a entrada perfeita para a primeira música da noite, «Vida de Estrada». É o mais recente single do grupo e um tema sobre a vida portuguesa na actualidade, por um lado, e sobre os Diabo na Cruz, por outro. Assim que foram pronunciados os dois primeiros versos, «Siga em Fila Vai/ 9 emprego 5 Sai» o público levantou-se e fez  da sala de Teatro recinto de Concerto. Mas quem é que teve a infeliz ideia de colocar uma banda de rock folclore a tocar numa sala onde a acústica é má? O concerto foi bom porque eles são bons, o mesmo não se pode dizer da qualidade do som.

O grande equilíbrio foi um dos pontos fortes do concerto, com a energia do rock a cavar bem fundo nas nossa raízes. Todo o concerto foi alinhado de forma inteligente com canções dos dois álbuns da banda, Virou! e Roque Popular. O primeiro foi unanimemente considerado um marco na música nacional pela forma como integrou sonoridades da música tradicional e de rock popular, como pudemos constatar ontem à noite em músicas como «Casamento», «Dona Ligeirinha», «Os Loucos Estão Certos» e «Tão Lindo». Isto é que é lindo, confessou o vocalista Jorge Cruz. Já em Roque Popular, aumenta a tensão entre a música moderna e música tradicional portuguesas. O álbum é permeado pelo uso da alegoria, acentuando diferenças sociais e individuais – naquilo que é quase um traço comum com a linhagem da música popular de intervenção. Uma das coisas que se renovam no segundo disco é o casamento explosivo entre o rock e as sonoridades tradicionais portuguesas.

A canção «Luzia» quase que denuncia o messianismo religioso e do caciquismo, manifestando a intensidade das festas religiosas no Norte de Portugal. Em «Fronteira» vive-se um clima de liberdade que é necessário relembrar algo tão simples, e importante, como a necessidade de mudança. Quando se vive desanimado, a mudança pode parecer um abismo e o nosso país tem uma tradição sólida de resistência à mudança. Quando se vive desanimado, é obrigatório ouvir Diabo. «Chegaram os santos», «Sete Preces» e «Siga a Rusga» recuperam aspectos eminentemente lúdicos na música popular, através das danças, festas juninas e celebrações idearias pagãs. Os Diabo reivindicam o direito à dança e vão, muitas vezes, resgatá-lo à romaria porque um dos pontos que mais procuram no seu repertório é uma espécie de levantamento de motivos de festa na cultura portuguesa para aplicação na pop.

A banda já anunciou novo álbum para breve, mas como disse uma vez Jorge Cruz «as ideias férteis não trazem necessariamente boas canções e de boas intenções está o Diabo cheio», por isso teremos de esperar. Contudo, ouvimos nova canção – «Ganhar o Dia» – mas quem ganhou a noite foi o público. Os Diabo nunca se deixaram crucificar na Cruz e os anos de estrada deixaram-nos mais soltos, mais pecadores, mais diabólicos. Em «Corridinho de Verão», do álbum Virou!, Jorge Cruz saltou do altar e atirou para o público centenas de pétalas (já diz o provérbio «Junho floreiro, paraíso verdadeiro») e em «Fecha a Loja» chegou mesmo a subir para a bateria e a finalizar o concerto no chão. Onde é que eu já escrevi isto? Ah sim, no último concerto do pai do rock, The Legendary Tigerman. Disseram-me que a maçta do rock e blues é assim mesmo, mas entre Santos não se discute Diabos. Para mim, Jorge Cruz está cada vez mais Tigre, na forma de tocar e dançar. Inspiração? Admiração? Não sei, salva-se o seu interessante trabalho em redor da música portuguesa, recorrendo nomeadamente a termos que caíram em desuso como ouvimos no encore «Bico de Um prego» e «Memorial dos Impotentes».

Os Diabo têm razão, «não morremos hoje, nem casamos amanhã». É fascinante como a energia do rock e a urgência do punk casam na perfeição com os ritmos tradicionais e as expressões populares. Mesmo depois do primeiro encore o sexteto voltou ao palco e agradeceu à família, aos amigos, à equipa, à Antena 3, ao público, às beatas das romarias e sabe lá o Diabo que mais, terminando em bom com «Bom Tempo».

 

Texto: Mafalda Saraiva

 

Beijinhos, La Bohemie.