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La Bohemie

Os melhores amigos do mundo são meus.

No domingo falávamos sobre um amigo que não gosta de estar sozinho nem de fazer coisas sozinho. Cheguei, inclusive, a oferecer-lhe uma edição da revista Time Out com «50 coisas para fazer sozinho em Lisboa». Dizia-lhe eu que o facto de não gostar de estar sozinho, poderia significar não gostar de si mesmo e que podia, inclusive, vir a sofrer muitas desilusões. Pela frustração de se sentir só e porque as pessoas nem sempre conseguem estar disponíveis para si. Por mim falo, de mim falei. Devo ser das pessoas que mais falha ao André porque, por mais que queira, não consigo estar constantemente disponível para ele.

Eu adoro estar sozinha. Cresci numa família muito grande com a casa sempre cheia. Partilhei quarto, partilhei roupas, partilhei brinquedos. Eu e os meus irmãos estudámos todos no mesmo colégio, os meus pais sempre estiveram ligados a actividades do colégio e eu nunca soube o que era estar sozinha. E sofri muito com isso. Se era muito amiga e extrovertida em grupos e situações sociais, quando me deparava sozinha não sabia agir. Eu cheguei ao ponto de estar a ver uma montra de uma loja com a minha Mãe e não conseguir entrar sozinha e perguntar se existia o tamanho S. Tinha vergonha, tinha medo, tinha receio. Mesmo quando entrei para o secundário, fui a única a ir para o primeiro dia de aulas com a minha Mãe porque sempre o fez desde a creche. Eu não conseguia fazer fosse o que fosse sozinha, sem sentir a pressão de estar toda a gente a olhar para mim e bloquear. Quando fiz 18 anos saí de casa para ir viver sozinha e mudei repentinamente. Adorava ter a minha casa, as minhas coisas, o meu espaço. Vivia no meu mundo e apenas eu era responsável por ele. Com o tempo até me tornei demasiado distante do que sempre me foi familiar. Deixei de sentir a casa dos meus pais como minha, o meu quarto a cada ano era cada vez menos o meu reflexo e perdi o hábito de ligar todos os dias à minha Mãe a contar-lhe as novidades. Cheguei ao cúmulo de ir viver para o Brasil e esquecer-me de avisar que tinha chegado bem com toda a gente em Portugal sem saber de mim. Criei um hábito tão grande de estar e gostar de estar sozinha que há dias que não me apetece falar com quem for. Aprendi a gostar de passear, ir ao café, ao cinema, ao teatro, às compras sozinha. As duas únicas coisas que não gosto, de todo, fazer sozinha é ir jantar fora ou sair à noite para beber um copo. A primeira pelo mesmo motivo como se jantasse em casa - detesto comer e estar a olhar para o vazio. A segunda porque ainda tenho o preconceito de que se uma mulher vai sair à noite sozinha significa que vai «à caça».

Contudo, se sou uma eterna solitária e tenho uma paixão enorme pelo meu espaço é porque sei que tenho os melhores amigos do mundo. Sejam os de longa data, sejam os mais recentes, os que pertencem a grupos ou os pontuais, adoro-os ao ponto de lhes deixar a porta de minha casa sempre encostada. Porque a minha casa será sempre deles. Sempre. Muitas vezes não consigo ter tempo para todos, é verdade. Por vezes posso até ser uma bruta ou demasiado sincera, uma chata e desbocada. Nem sempre tenho disposição para atender a todas as suas necessidades porque também eu tenho as minhas, mas são os melhores amigos do mundo. E são meus. Porque é neles que penso mesmo quando estou sozinha.

Obrigada, pequenos cachalotes. Vocês são uns porreiros.

 

Beijinhos, La Bohemie.