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La Bohemie

Até quando?

Há dois tipos de pessoas: as que fazem e as que gostavam de fazer. As primeiras orgulham-se de fazer, as outras lamentam nunca ter feito. Depois há as que já fizeram muito, acham que sabem tudo e que isso lhes dá o direito de serem mais e melhor. E há as que pouco fizeram e vivem num mundo de lamentações sem terem tentado mais e melhor. Extremos à parte, há situações e situações. Não sejamos hipócritas, é óbvio que todos nós gostávamos de viajar mais, trabalhar menos, conseguir o emprego que sempre desejámos, ganhar um bom ordenado, comprar uma casa grande e confortável, um carro seguro, ter mais tempo útil e saudável e todos os outros pequenos nadas que fazem da nossa vida muito, senão tudo. Mas é impossível essa igualdade. O acesso a todos esses benefícios nunca será igual para todos nós. E achar que é possível, não passa de uma utopia. Por isso não me venham dizer que se tivessem mais dinheiro, faziam mais, porque não é sobre isso que escrevo.

Eu refiro-me à atitude. À vontade. À persistência. À determinação. À coragem. À confiança. Eu acredito que quando se quer muito, consegue-se. E acredito porque sei que o querer muito não significa estalar os dedos e esperar que as coisas aconteçam enquanto se apanha sol numa esplanada. Acredito porque sei que o querer muito significa fazer mais. Muito mais, até se conseguir.

Está muito em voga desculpar tudo e todos com a palavra crise. Se as pessoas deixaram de ir ao cinema e ao teatro, a culpa é da crise. Se os bilhetes de concerto x ou espectáculo y esgotaram a culpa é igualmente da crise. Se deixaram de fazer férias em Saint Tropez e só podem passar uma semana na Costa da Caparica a culpa é da crise. Se fazem filas para comprar o último modelo do iphone a culpa é também da crise. Se, azar dos azares, deixou-se de poder jantar fora dia sim, dia não, a culpa é da porcaria da crise. Se os restaurantes estão lotados e a gerir dinheiro, a culpa é, pasmem-se, da crise. E eu pergunto: não foi sempre assim? Primeiro criticamos porque não podemos, depois critica-se quem pode. Pois eu acho que a verdadeira crise está na cabeça destas pessoas que acham, de repente, só porque uns não podem, os outros não devem poder e fazer. A vizinha pode ir quinze dias de férias para as Caraíbas e eu não? Cabra! O colega de faculdade pode ter um carro topo de gama e eu tenho de andar de autocarro? Idiota! Ai ela vive sozinha e eu ainda tenho de me aguentar em casa dos pais? Mimada! Não devíamos olhar para quem tem e pode como um exemplo ao invés de invejar e criticar? Não devíamos olhar para quem nada tem nem pode e agradecermos ao invés de menosprezar?

O ser humano é competitivo por natureza e não suporta perder. É por isso que quando perdemos o que tivemos, achamos que somos uns miseráveis e que a vida deixou de fazer sentido. É mais fácil para uma pessoa que tem pouco viver com o pouco que tem, do que uma pessoa que já teve muito e, de repente, depara-se com menos. E em vez de acreditar que é capaz e lutar, baixa os braços e lamenta. E critica. E culpa a crise por todas as desgraças do mundo. Mas mais uma vez, não é de dinheiro que quero escrever, é de atitude.

Faz-me confusão pessoas que tenham sonhos, objectivos e desejos e nada fazem para os concretizar. Preferem dizer «Estive para fazer...», «Já pensei ir...», «Gostava muito de...», «Um amigo meu tem...», «Estou a pensar comprar...», «Um dia...» e não tentam. E não experimentam. E não fazem. Desculpam-se que não têm dinheiro, não têm oportunidade, não têm tempo e vão adiando uma vida à espera que um dia esse dia nunca seja dia. Caramba, eu sei que nunca me faltou nada de essencial, também não tenho tudo o que quero e sei quais são as minhas possibilidades e prioridades, mas cansa-me conviver todos os dias com pessoas negativas e autodestrutivas que acham que não são capazes de mais e melhor. Se não podem ir a todos os jantares para os quais são convidados, vão a um ou juntem os amigos numa casa e cozinhem juntos. Se não podem comprar todos os livros que gostavam, peçam emprestado. Quantas pessoas se desculpam por não ter dinheiro para ler mais mas recusam-se a levantar a peida do sofá para ir a uma biblioteca ler? Não podem ir todas as semanas ao cinema? Juntem-se em casa de amigos, aluguem filmes na box, façam pipocas e divirtam-se. Se não gostam de ir ao teatro, poupem o dinheiro e vão a um concerto. Se não têm paciência para festivais, vão de férias com os amigos. Não podem ir de avião para longe? Dividam um carro e vão acampar para perto. Não gostam de tendas, aluguem uma casa e dividam despesas. Não podem comprar jornais e revistas todos os dias? Comprem um e troquem com os amigos. Há cada vez mais cafés e livrarias por essa cidade fora com todas as edições disponíveis. Não podem comprar roupa nova todos os meses? Troquem entre os amigos, tentem vender em segunda mão. Há cada vez mais possibilidades e alternativas para fugirmos à palavra crise.

Caramba! Até quando? Não precisamos de ter e fazer todos o mesmo. Uns poderão sempre mais do que outros, mas não deixem de acreditar que são capazes. Não pensem que os outros são mais e melhores do que nós só porque podem. Não deixem de acreditar que também vocês são capazes só porque ainda não fizeram. Mas tentem. Têm de acreditar que são capazes. Se não tentarem, se não fizerem, então aí sim, os outros serão sempre mais do que vós. Tirem o S à crise. Vão ver que vale a pena!

 

Beijinhos, La Bohemie. 

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