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La Bohemie

Three Seconds.

     A Mafalda agora vai dormir.

 

Sinto a anestesia percorrer as veias e a gelar o corpo. A luz branca torna-se negra e assustadora, os apitos da minha pulsação deixam de se ouvir. A contagem decrescente perde-se num ápice e sinto-me impotente por não conseguir contar para além do número oito. Numa fracção de segundos os olhos fecham e o corpo fica intacto. Três segundos e tudo à minha volta desaparece. Daquela operação não há memórias, lembranças nem recordações. Afinal é tudo o mesmo. E quando acordo fico com a estranha sensação de que estou do lado de fora a ver alguém viver a minha vida. Depois de tantas horas sem comer e beber, a enfermeira oferece-me um sumo para recuperar energia. Sinto tentada em dizer-lhe que a minha Mãe não me deixa beber sumos, mas rapidamente recordo que ela nem sequer sabe que fui operada. Durante uma semana senti a culpa de ter bebido aquele sumo. Até hoje. Só hoje tive o descaramento de lhe contar que fui operada ao útero e que as dores, insuportáveis, eram menos dolorosas do que explicar-lhe como me sentia. É difícil de entender mas também é difícil de explicar. Três segundos e tudo muda. Tudo o que existe, desaparece. Tudo o que nos é dado como certo, desvanece.

Há exactamente um ano quase que perdi a minha irmã. Recebi a chamada mais dolorosa de toda a minha vida quando percebi na sua voz que a minha irmã estava internada há mais de um mês no hospital e que não encontravam solução para uma doença tão rara. Não me lembro de ter chorado tanto. Chorei por estar assustada, horrorizada, por não entender a gravidade da situação, chorei pela minha Mãe. Onde é que uma mulher vai arranjar forças, depois de ter perdido a irmã e a mãe, de ter uma filha deitada numa maca ligada a tubos e máscaras de oxigénio, uma filha no outro lado do oceano e ainda ter de governar uma família inteira? Três segundos e tudo muda, por isso, hoje liguei-lhe  e chorei com ela. Porque tive medo de perder o que ela já perdeu. Porque tenho medo de nunca conseguir o que ela conseguiu.

E por isso só lhe contei agora e só vos conto agora. E conto para explicar porque não escrevo há tanto tempo. Porque apesar de terem sido apenas três segundos para adormecer, têm sido muitos dias a tentar recuperar as forças e a vontade. Porque três segundos podem mesmo mudar tudo.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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