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La Bohemie

Garraf, Olivella.

Nunca gostei de discutir assuntos sobre religião, nem mesmo com aqueles que seguem os meus ideais. E sempre que o fiz, imaginava uma terceira guerra mundial perante os meus olhos como quem discute futebol diante de uma televisão. Cada um há-de achar sempre que o seu clube é melhor do que o outro. E ponto. Por isso, não gosto ter de explicar por que razão sou Católica, rezo todas as noites ou porque vou à missa comungar e pedir perdão a quem me deve perdoar. Não gosto de discutir, mas fascina-me conhecer outras religiões e, para mim, todas elas estão certas dentro da sua própria história e cultura. Há uns meses, passeava por Lisboa com o meu irmão e abordei o Islamismo - tinha acabado de ler pela segunda vez a Fúria Divina e a minha cabeça transbordava de dúvidas. Com o desenrolar da conversa, questionei por que razão converteu-se ele ao Budismo. "Quando sentires a paz máxima dentro de ti, entenderás", disse-me. E no Sábado entendi e pensei nele como nunca pensei até então. A Sara e o Urso levaram-me a passear a  Garraf, uma pequena localidade  perto de Olivella e, pela primeira vez, entrei no Monestir de Budisme Tibetã - Sakya Tashi Ling. Por mais que não entendesse toda aquela filosofia, senti a tranquilidade, o optimismo, a sabedoria. Como se de repente o corpo se enchesse de energia e paz interior. Não se pode falar sobre o Zen - há que senti-lo. É tão difícil descrever o Mestre Zen Japonês Hôgen Daidô Yamahata como é quase impossível escrever acerca do Zen sem repetir uma e outra vez as mesmas teorias.  O Monestir fica situado no ponto mais alto de uma montanha e eu limitei-me a sentir toda a energia que os ventos ali acumulavam. Naquele momento, naquela manhã, não pensei em modas, tendências, projectos profissionais, faculdade, não pensei em contas para pagar, textos para escrever. Naquele preciso momento pensei em nada. Rigorosamente nada. Procurei apenas a paz  máxima dentro de mim. E depois pensei no meu irmão e de como ele seria tão feliz em viver com toda aquela paz interior. Sentei-me à beira de um lago com tartarugas e patos e não pude deixar de pensar no livro Maldito Karma, de David Safier, que li este Verão. As repercussões cósmicas de uma vida atribulada que nos ajuda a reflectir sobre as prioridades da vida. A maioria dos budistas acreditam na Samsara que é o ciclo das existências onde reinam o sofrimento e a frustração derivadas pela ignorância e pelos conflitos emocionais, regido pelas leis do Carma - "a boa conduta produzirá bom karma e a má alma produzirá karma maléfico". As Quatro Nobres Verdades foram os primeiros ensinamentos deixados pelo Buda depois de atingir o Nirvana - umas das quais refere que o sofrimento é causado pelo desejo e que o primeiro só termina quando deixar de existir o segundo, conseguido através da eliminação da ilusão, alcançando, assim,  um estado de libertação do iluminado. Certamente que isto vai contra a minha educação Católica, contra todos os meus ideais, mas quando vi aqueles patos e tartarugas não pude deixar de pensar no livro que li. Não pude deixar de pensar na reencarnação, na missão que já cumpri nesta vida e no estado máximo de paz e felicidade que acabara de alcançar naquele momento, naquela manhã.

Curiosamente, no dia seguinte estava na praia com o Paolo, um italiano que conheci em Castelldefels, e observávamos as poucas nuvens que pairavam no céu. Estavam mesmo por cima das montanhas que guardavam toda aquela costa mediterrânica e perguntou-se se tinha ido ao Templo Budista. Orgulhosamente disse-lhe que sim, contei-lhe como me senti e como tinha pensado no meu irmão. Explicou-me que aquelas nuvens contém energia e que, por essa mesma razão, encontram-se bem no topo da montanha, cobrindo o Monestir. Confesso que nunca fui muito ligada a energias, estados de espírito e outras coisas que tais. Há anos que a minha mãe trabalha com Medicina Chinesa, cura doentes com Reiki, cria pontos de luz em casa para acolher energias, cura uma dor de costas com um pêndulo de cristal. Há anos que a minha mãe me tenta explicar que o o Shiatsu actua equilibrando os meridianos Jitsu e Kyo e normalizando o fluxo da energia ki e eu nunca liguei. Ou não ligava. No ano passado conheci um mestre de Reiki  que me curou uma forte dor de cabeça com uma simples pressão dos dedos. Achei aquilo esquisito, mas fascinante - como levei a vida a curar dores com medicamentos e, afinal , existem formas naturais para o fazer. Até que falámos nos sete principais Chacras e como eram tão importantes estes pontos de energia e equilíbrio no nosso corpo. Quando me mostrou onde se localizavam esses sete pontos, comentei ingenuamente que tinha um piercing mesmo no meio do peito. "Tu és louca. Furaste um dos chacras mais importantes do teu corpo, que é do coração". Ri-me, achei aquilo uma palhaçada, tinha aquele piercing há anos, mas depois chorei. Chorei porque a minha mãe disse-me na cara "Um dia, antes de acreditar no outros, a menina vai acreditar em mim". E acreditei, tinha furado o centro do sistema dos chakras, onde unem-se os três centros inferiores, físicos e emocionais, juntamente com os três centros superiores, mentais e espirituais.

Verdade que nunca liguei a estes assuntos e creio que continuo a não ligar, mas não pude deixar de pensar no estado máximo de paz e felicidade que senti naquele momento, naquela manhã. Naquele dia, no Monestir, deparei-me com com uma roda imensa, a Roda das Orações. "Dás três voltas ao templo e giras as rodas de prece para que os pedidos sejam levados pelo vento. Dizem que curam doenças", explicou-me a Sara. Torci o nariz, não entendi como era possível os ventos curarem fosse o que fosse, mas cumpri o ritual. Girei todas as rodas possíveis e pensei com todas as minhas forças no cancro que tenho no colo do útero.  Enquanto dei a primeira volta lembrei-me de ter sido operada ao mesmo em Maio, de acordar na sala de recobro e dizerem-me "correu tudo bem". E apesar de ter tido as duas piores semanas da minha vida com dores, lembro-me de sorrir por estar tudo bem e de contar à minha mãe. Quando dei a segunda volta, fechei os olhos e recordei-me da raiva que senti no mês passado quando abri a carta do laboratório e estava escrito em letras bem grandes POSITIVO. Desejei chorar, gritar e rasgar as análises, mas a minha irmã confortou-em com o abraço mais apertado da minha vida e disse-me "Vai ficar tudo bem". E quando dei a terceira volta à Roda das Orações, foi isso mesmo que pedi, que fique tudo bem. E vai ficar tudo bem porque, mais uma vez, não pude deixar de pensar no estado máximo de paz e felicidade que senti naquele momento, naquela manhã.

E foi por isso que não vos escrevi durante dois meses, porque por vezes é preciso parar e pensar. Reflectir sobre a nossa mente, redefinir objectivos e metas. Traçar um caminho que nos faça sentido. E se eu não tivesse parado, não tivesse pensado, não tivesse reflectido, não tinha chegado à conclusão que este blogue é o caminho. Escrever, fotografar e depois partilhar convosco é o meu objectivo, é o meu estado máximo de paz e felicidade, neste momento, nesta manhã. Como diria a Sara, Namaste.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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