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La Bohemie

1993-2011.

Saio de casa, desço a Alameda, entro na estação do metro e aguardo a carruagem... numa mistura de nervosismo e pressa, tento conter a respiração com medo que me falte o ar. Há muito que organizavamos este jantar ao pormenor, há muito que aguardava com ansiedade revê-los e observar-lhes as feições do rosto, deliciar-me todas com as histórias que há muito não partilhávamos. Estava de facto nervosa... e atrasada.  Entrei na carruagem, troquei de linha no Saldanha e saí no Campo Pequeno. Ainda tentei visualizar mentalmente onde ficava ao certo o restaurante para poupar tempo, mas assim que atravessei o jardim da Praça de Touros, deparei-me com o nome que procurava. "Rubro". Tinha chegado mas o nervosismo não tinha passado. Por momentos senti que ia a um primeiro encontro, daqueles em que vamos jantar com a nossa cara metade num restaurante acolhedor e retoquiamos o baton dezenas de vezes, ajeitamos o sutien para que esteja tudo no lugar e olhamos para o vidro de uma montra da rua para ver como está o cabelo. Entrei e já nada havia a fazer. Perguntei ao empregado onde ficava a minha mesa reservada e dirigiu-me para o andar superior. O ambiente era acolhedor e não tinha um homem à minha espera, mas quatro. Depressa percebi que nós mulheres chegamos sempre atrasadas porque retoquiamos o baton dezenas de vezes, ajeitamos o sutien para que esteja tudo no lugar e olhamos para o vidro de uma montra para ver como está o cabelo. O calor do ambiente quase que secava a garganta e tudo serviu de pretexto para tirar o blazer e pedir uma garrafa de vinho. Sentei-me e percebi que a mesa era delicadamente grande e quadrada. Tão grande que eu não via o rosto daqueles que se sentavam à minha frente. E não me perguntem por raio não levei óculos ou lentes. Continuando com o romantismo... Sentados em bancos dispostos lado a lado, eles contemplavam a carta de tapas e de vinhos. Eu confirmava as pessoas que ainda faltavam, deixando-os sós a trocar memórias dos seus tempos na primária, recordaçõe de miúdos que partilhavam cumplicidades antigas, histórias das tropelias de conquistas e namoricos. E foi durante uma pausa dos sussuros de episódios quase esquecidos, quando já parecia que não tinham mais assunto para alimentar a conversa e as palavras morriam na boca em silêncios embaraçosos, que as mulheres começaram a chegar. As Catarinas! Recordo-as sempre juntas, altas, magras e de uma doçura que só a amizade entendia a sua cumplicidade. Depressa lembrei-me dos momentos em que brincavamos ao jogo do elástico, à macaca, fazíamos trocas de autoclantes e pulseiras de contas. Dos dias em que eramos amigas e das noites em que já não gostávamos umas das outras. Viajei aos tempos dos segredos intimos e das cumplicidades que destruimos . Da época em que jurávamos amizade infinita como as Navegantes da Lua. Enquanto aguardávamos ansiosamente a chegada da Adriana, a primeira a sair do colégio e a última a chegar ao jantar, apareceu a Margarida, minha companheira e guerreira de tempos em que jogávamos basquetebol e futebol com os rapazes, tempos em que preferíamos uma bola a uma revista de moda. Época em que ambas partilhámos a adrenalina da aventura pela Serra de Cazorla, pelas montanhas da Serra Nevada, momentos que só nós entenderemos, um dia. E como continuamos a entender-nos, ela disse-me, mesmo diante dos meus olhos "Há coisas que nunca mudam". E foi quando percebi que estava rodeada de amigos que fazem parte da minha essência há 18 anos. Pessoas que me conhecem há tanto tempo quando me conheço. Uma amizade que começou numa caixa de areia, onde nos sentávamos e competíamos a forma mais rápida de atar os atacadores dos sapatos e eu passeava vaidosamente umas sabrinas simples de calçar. A forma mais inteligente de fazer os trabalhos de casa para ir brincar e eu brincava e depois copiava os trabalhos já feitos. Tempos traquineiros em fazíamos desenhos com tinta de água e deixavamos os nossos pais orgulhosos com tais obras abstractase indecifráveis, altura em que tudo era simples e descomplicado, uma era em que vestíamos todos a mesma farda e não havia diferenças nem rivalidades. Um período em que eramos crianças inocentes com o sonho de sermos todos médicos e salvar o mundo. E passados 18 anos, ali estamos todos, culpados, ninguém quer ser médico muito menos salvar o mundo...a Adriana! Minha melhor amiga e irmã do meu ventre. A rapariga que me ensinou a andar de bicicleta numas férias no Algarve, que aturou os meus dramas do meu primeiro namorado, e do segundo e do terceiro. A mulher que hoje se tornou e que quer mudar o mundo... e que todos continuavam ansiosos por ver. A menina que partiu os dentes nos degraus do colégio e que teve direito a um gelado que todos queriam e que hoje percorre as ruas de Lisboa de altifalante nas mãos a consciêncializar a sociedade. E veio o primeiro jarro de vinho. E vieram as primeiras tapas. E surgiram as primeiras conversas. Os cursos quase terminados, as viagens feitas, os namoros, os desamores, as mortes desvastadoras que ocorreram em poucos anos, as amigas que foram mães, as amigas que vivem com o namorado, os amigos que já têm casa própria, os amigos que continuam giros e solteiros. Muitas foram as gargalhadas, as partilhas, as fofocas (simmmm, continuo a maior fofoqueira do grupo), as recordações do bom e do mau, as lembranças dos colegas e professores, das situações mais dramáticas e insólitas, os brindes e os tchins-tchins. E foi assim que, por instantes, parei no tempo, de copo na mão, saboreei o vinho, desgostei o momento e senti que há amizades que duram uma vida e, de repente, imaginei-nos daqui a 18 anos, casados e com filhos a repetir estes jantares e a brindarmos a mais anos de amizade. Por momentos senti-me ainda mais preenchida, ainda mais feliz, ainda mais realizada. Pousei o copo e sorri... lembrei-me da saia de pregas e sabrinas simples de calçar, recordei-me a esfolar os joelhos e a jogar à bola, visualizei as pinturas abstractas que tanto deixaram a minha orgulhosa como se sentia naquele preciso momento a falar com cada um dos meus amigos ao telemóvel. A minha mãe que levava aparelhos e dava consultas aos meus amigos, que ia connosco para os campeonatos desportivos e dava massagens às minhas amigas. A minha mãe que fez parte de toda a nossa infância e adolescência. E cada um sorria, feliz por falar com a ele, preenchido com aquele sorriso, realizado com aquele momento. E foi quando o jantar estava a terminar que todos nos deliciámos com a surpresa que ofereci a cada um dos meus amigos, enquanto me orgulhava em explicar por que razão existia este blogue e que agora também eles iriam fazer parte dele. E quando deram por mim, estava a oferecer chupa-chupas a toda a gente no restaurante e a garantir que este blogue era o melhor blogue do mundo... porque eles fazem parte dele. Porque vocês fazem e farão sempre parte dele. Porque afinal, todos queremos mudar um bocadinho o mundo e eles já mudaram o meu.

  

* Um enorme obrigada à menina que me veio dar os parabéns pelo blogue no meio do Bairro Alto. Preencheu ainda mais a minha noite. Obrigada (:

 

Beijinhos, La Bohemie.

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