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La Bohemie

Chinês Clandestino.

«Vimos por este meio convidar-te para um jantar no chinês clandestino. O sítio é super bom e barato.» Assim que recebi a mensagem sorri maleficamente e disse-lhe que conhecia bem o "tal sítio". A primeira vez que fui jantar ao Chinês Clandestino ia tendo o meu primeiro ataque cardíaco. Foram uns amigos de Miranda do Douro que me deram a conhecer e a primeira coisa que a Márcia me disse foi «Não tem as melhores condições, mas acho que vais gostar. É clandestino porque não tem licença e a Asae fecha aquela casa quase todas as semanas». Parámos primeiro na Severa para beber ginjinhas e eu apanhei esse agradável hábito. Sempre que vou ao Chinês Clandestino, na Mouraria, paro para beber uma ginjinha e ganhar coragem para entrar num mundo quase paralelo. É um dos segredos mais bem guardados da Márcia e de quem o conhece e no fim-de-semana passado fui eu e o André que levámos umas amigas.

Desta vez não fiquei no quarto mais resguardado com varanda e comecei logo a hiperventilar. Jantar na sala principal significa que nos sentam em longas mesas com tantos outros desconhecidos. A sala encheu. Encheu tão depressa que uma das chefes de família teve dificuldade em fazer contas de cabeça de modo a encaixar os clientes nas mesas. Sim, ali é necessário esperar para jantar, mas vale a pena o impasse. Ingleses de um lado, italianos de outro. Portugueses, espanhóis, residentes, estudantes de Erasmus, turistas. O misticismo do chinês clandestino é que apesar de resguardado, toda a gente vai lá dar. E janta bem. E paga pouco. Ao primeiro copo de sangria já sentimos o corpo pesado, a comida genuinamente chinesa chega-nos a fumegar e não temos mãos a medir. Queremos tudo, experimentamos tudo. A fome é tanta que pedimos pratos e pratos de pão chinês para aproveitar o molho que vai sobrando da comida. Não há toalhas na mesa, os guardanapos são caixas de kleenex, mas os pauzinhos são novos, ainda por partir. O quartos de banho são de evitar. Por vezes temos dificuldade em entender o que estamos a comer, outras olhamos para os companheiros de mesa para pedir o que estão a saborear - o importante é experimentar. Pedimos amêndoas, vêm amendoins. Pedimos lulas e vem polvo. Mas o importante é experimentar. Ao segundo copo de sangria já brindamos a tudo, rimos de todos, fechamos os olhos e ignoramos o facto de estar uma chinesa de raquete eléctrica na mão a matar moscas mesmo ao nosso lado. O segredo mais bem guardado do Chinês Clandestino é fechar os olhos e experimentar sem pensar, sem questionar. E voltar às ginjinhas da Severa para não lembrar. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie. 

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