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La Bohemie

Dear Tito.

Esta foi a primeira fotografia que tirei quando cheguei ao Algarve...

Mas foi esta que me levou a escrever-te hoje.

Esta imagem fez-me recordar-te. Esta fotografia deu-me vontade e coragem de escrever-te. Este post é para ti, Tomás. Se não fosses tu este blogue não existia, por isso, faz todo o sentido que este post seja para ti. Já passou quase um mês e eu ainda não acredito que foste embora. Não me sai do ouvido o som da porta a fechar e o teu carro a arrancar, um som que seca a garganta e arranha o coração e, por isso, às vezes espreito pela janela na esperança de o ver estacionado à porta do meu prédio, mas não passa de uma ilusão criada por um imaginário inexistente. Acreditas que ainda não tive coragem de ligar a tua mãe? Talvez tenha receio de sentir o seu sofrimento e perceber o que a minha mãe sentiu quando eu saí de casa há quatro anos ou quando lhe disse que ia viver para o Brasil. Achamos sempre que os pais vão entender que é o melhor para nós, mas não imaginamos o quão eles podem sofrer. E eu estou a sofrer, por isso, tenho receio de ligar à tua mãe e sentir que ela esteja pior do que eu. Uma dor que não passa pelo simples reflexo do orgulho que temos por ti. Os primeiros dias foram mais dolorosos do que alguma vez quis acreditar. As pessoas ligavam-me para saber se tinhas chegado bem e depois perguntavam "E tu, como estás?". Acho que a minha resposta rapidamente se tornou numa qualquer gravação de call-center: "Estou bem, obrigada". Mas não passava de mais uma ilusão criada por um imaginário reconfortante. Depois de teres ido embora fiz uma coisa que te prometi - saí de casa e fui correr junto ao rio. Ok, não foi bem correr, correr, mas foi uma certa miscelânea de um qualquer passe rápido, para ser mais precisa. Fui ao Mosteiro dos Jerónimos, ao Centro Cultural de Belém, ao Padrão dos Descobrimentos, à Torre de Belém, ao Centro de Congressos. Parecia que estava numa daquelas visitas de estudo que o colégio organizava e que qualquer pretexto para sair daquele inferno era bem-vinda, mas durante umas valentes horas consegui não pensar em ti e senti-me orgulhosa por finalmente ter feito algo que te prometi. E sabes o que encontrei?

Isto...

Sim, tentei tirá-la inúmeras vezes sem que aparecesse com uma cara desgraçada, mas como foi inevitável, reduzia-a ao máximo apenas para minha legítima defesa.  Voltei para casa abatida e cansada. Claro que o meu primeiro pensamento foi "ainda dizem que fazer desporto faz bem à saúde". Desde então só piorei. Achava que era passageiro, que as dores de cabeça iriam acalmar, que o meu novo regime alimentar me iria deixar em forma, que iria ter mais tempo para mim e que os meses iriam passar num ápice. Mas não. O silêncio da minha casa estrangulou-me e eu quase que me deixei sufocar em casa, perdida entre trabalho e mais trabalho. Pensei várias vezes na questão que me colocam constantemente "Gostas de viver sozinha? Não tens medo?". Já sabes melhor do que alguém a minha resposta, mas aquele silêncio fez-me sentir, por momentos, que viver sozinha era o mesmo que escrever relatórios de Finanças Públicas, uma verdadeira seca. Mas não me dei por vencida. Finalmente pintei o enorme pote de barro que me ofereceste (adorava poder orgulhar-me de ter feito uma enorme obra de arte, mas pintei-o todo de branco), pintei as molduras e pendurei-as (não sei bem que furos fizemos naquela parede, mas aquilo está mais torto que a Torre de Pisa).  Mudei a minha sala e terminei o escritório. Até organizei as centenas de revistas por meses e anos. Havias-de ficar orgulhoso e questionar como raio consegui carregar aquela prateleira mais pesada do que eu da sala para o hall da entrada. Mas há mais novidades, voltei a agarrar nos incrédulos relatórios de Economia, comecei a escrever um novo livro e já estou a tratar da nossa peça de teatro.  Sim, irias dizer que sou a amiga de armas e escudos que sempre conheceste e ficarias bastante orgulhoso, mais uma vez. Mas esse orgulho não te traz de volta e os euros estão cada vez mais elevados.  Mergulhei num mar de trabalho de tal forma que quase me afoguei. E sabes que mais? Já estava de férias e nem me tinha dado conta. Sim, daria num daqueles nosso momentos de ficarmos uma hora a rir sem parar, mas se naquele Domingo não tivesse falado com a Maria para esclerecer uma questão de um trabalho, na Segunda-feira tinha acordado às seis e meia da manhã para ir para a Católica ver as vistas. Estava de férias e não sabia. Mas nessa manhã acordei e senti-me mal. As dores de cabeça eram fortes demais, as tonturas culminaram o meu corpo assim que acordei e só tive tempo de ligar à minha mãe. Não sei porque o faço, mas creio que é uma reação que tenho de lhe ligar e falar sem parar (só ela para me aturar nestes casos) para me manter concentrada, mas não me concentrei e acordei deitada no chão do corredor. Se fosse há um mês atrás, tinhas chegado antes de eu ter perdido os sentidos, mas agora sinto o que perdi ou o que estava a perder e, por isso mesmo a segunda vez que lhe liguei, disse que ia passar uns dias com ela. Não a via há três meses e até tenho vergonha de admitir isto. E foram exactamente estas duas semanas de férias que me ajudaram a entender que não dedico o merecido tempo às pessoas que o mais merecem. E por isso, passei estes 15 dias junto dos meus irmãos e dos meus pais. Porque há 21 anos que eles se dedicam a dar-me tudo aquilo que tenho hoje, directa e indirectamente. E por esta mesma razão, ainda não tive coragem de ligar à tua mãe, com medo e receio de saber que se sente pior do que eu, apesar de estarmos ambas bastantes orgulhosas, Tomás, por dedicares seis meses do teu tempo e boa vontade a crianças que vivem numa ilha de 2km e que nunca viram o mar. Eu também estive durante duas semanas a cinco minutos do mar e não o vi e como o tempo não estava para grandes mergulhos, fiquei-me pelo sofá de casa a ver comédias melodramáticas. Como se não bastassem as minhas, a minha mãe diagnosticou-me mais uma daquelas valentes anemias e disse logo "Ou a menina não anda a comer como deve ser ou isso são tudo saudades do Tomás". O que eu me ri com o comentário da minha mãe, mas como já estás a imaginar encolhi os ombros apesar de não deixar de ter razão. Tenho mesmo muitas saudades tuas e já sinto falta que me ligues às nove da noite a perguntar se já jantei e confortar-me para o caso de eu ter mais uma crise de insónias para te ligar. Sempre elogiei esses teus pequenos gestos e hoje sinto mesmo falta deles, por mais que tu me digas "longe de mim querer ser teu pai, mas...". E por isso é que te escrevo, porque por vezes faltam-me as palavras ou a vontade de exprimir o que sinto por ti e pelos meus amigos, aqueles que partem para outro mundo, cheios de vontade e palavras. E escrevo para explicar a razão de ter estado calada durante um mês e não ter escrito durante duas semanas. Não o fiz pela mesma razão que um desses meus amigos me disse "Às vezes enfrentas muito dos teus medos e problemas com o silêncio". Pois enfrento, porque por mais cliche que seja, às vezes é no silêncio que estão as complicadas respostas às mais simples questões. Porque só tu entendes o meu silêncio e sempre o respeitaste. Mas agora que partiste com a vida inteira dentro de uma mala, peço-te  que guardes o meu sorriso dentro do coração, para que não te esqueças de mim.

E esta foi a última fotografia que tirámos juntos.

Boa viagem, meu querido, um dia descobrirás onde é a tua casa.

Beijinhos, La Bohemie.

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