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La Bohemie

Estou sozinha, mas não me sinto só.

«Tudo é ousado para quem nada se atreve»

Fernando Pessoa

 

 

Um encenador disse-me uma vez que o papel de bêbado é dos mais difíceis de fazer, caindo-se muitas vezes no cliché do bêbado bobo e ridículo, ziguezagueando-se pelas ruas da amargura. Portanto, disse-me, a melhor forma de fazeres o papel de bêbado é estares mesmo bêbeda. Claro que é um grande risco, o estado alcoólico nunca é o mesmo e poderia pôr em causa toda a peça e o trabalho de equipa. Nunca o fiz. Mas, quando num exercício de criação de personagens tive de fazer o papel de prostituta católica viciada em álcool, levei para cima do palco uma bíblia e uma cerveja. E bebi a cerveja toda. Não fiquei bêbada, mas uma pessoa viciada em álcool bebe e eu bebi-a. Um dos trabalhos que mais gosto em teatro e na escrita criativa é precisamente a criação de personagens e o que se aprende no trabalho de campo. Tornei-me obcecada no trabalho de observação, nos detalhes, nos pormenores. Olho muito, vejo imenso. Só assim consigo transpor o real para o imaginário, só assim consigo tornar viva e verdadeira toda a minha criação. Mas nem sempre é suficiente. Uma coisa é ver, outra é sentir. Uma coisa é ouvir, outra é viver na pele o que nos contam.

Fui muito criticada, chamaram-me ridícula e deprimente. Disseram-me que era escusado fazê-lo e que eu era demasiado intensa. Torceram o nariz, suplicaram-me para que não o fizesse e que estava a ser apenas parvinha. Agora que escrevo sobre isto, acho todas as acusações demasiado fortes e elas sim, desnecessárias. Só passei o fim de ano sozinha. Eu quis passá-lo sozinha. Eu precisava de passar a noite mais eufórica do ano sozinha. Eu precisava de saber como era passar a noite mais divertida do ano sozinha. Precisava de sentir como é horrível fazer a contagem decrescente e não ter alguém ao meu lado com quem brindar. Eu precisava de saber como era passar aquela noite sem música, sem fogo de artifício, sem amigos, sem nada. Eu precisava mesmo de saber como era sentir-me sozinha. Mas não consegui. Estava sozinha, mas não me sentia só. Tenho a sorte de ter na minha vida as pessoas certas, a família que me acolhe, os amigos que me apoiam. Arranjei o cabelo, maquilhei-me, vesti um vestido e preparei uma ceia. Acabei com uma garrafa de vinho numa hora. O champanhe gelado, as passas preparadas. O relógio acertado. Só eu, calma, em casa a ver as horas passar. Estava sozinha. E chorei muito. Assim que chegou a meia-noite senhora minha Mãe não me esqueceu e passou uns bons minutos a falar comigo ao telefone. Ela sabia de tudo e chorou comigo ao telefone. Foi uma noite intensa, foi uma noite estranha e esquisita. Naqueles primeiros minutos do ano senti-me horrível e chorei muito. Nem tanto por mim, mas por saber que há pessoas que não têm a sorte que eu tenho, por saber que há pessoas que passam aquela noite e todas as outras sem nada, sem ninguém. Senti-me ridícula por me saber com tanto e nunca ter vivido com nada. Eu não sei o que é ter nada, simplesmente nada. Eu naquela noite precisava de saber o que era ter nada. Eu naquela noite precisava mesmo de saber o que era ter ninguém. E é absolutamente horrível. Claro que não consegui ir com o meu plano até ao fim, fizeram-me uma surpresa em casa e passei o resto da noite acompanhada, mas aqueles primeiros minutos do ano foram os piores e melhores que podia ter vivido sozinha.

E por isso quero agradecer. Hoje, amanhã, todos os dias. Aos meus. Aos que me querem bem. Aos que me amam com todos os defeitos chapados na testa. Aos que me ensinam, aos que me criticam construtivamente. Aos que me ajudam a levantar, aos que me apoiam enquanto caminho. Quero agradecer a paciência de uns, a insistência de outros e a persistência de tantos. Quero agradecer aos que me batem portas, mas abrem janelas. Aos que me fecham a boca e abrem os olhos. Aos que ligam de manhã e ligam à noite, mesmo quando não atendo. Aos que se lembram de mim mesmo quando se esquecem deles. Quero agradecer, do fundo do meu coração, aos que estão sempre lá, mesmo quando não deviam estar. Vocês são os maiores e os melhores. Obrigada.

 

Beijinhos, La Bohemie.