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La Bohemie

Bob, o amigo construtor.

Para quem acompanhou as minhas aventuras a mudar de casa em finais de Setembro, acabadinha de ser operada ao ombro, lembra-se certamente das minhas caricatas histórias a montar móveis, a semear rosas e tulipas no jardim, das minhas idas à loja de ferragens e de elogiar muito o senhor António. Porque foi o senhor António que pintou de branco todas as portas e paredes da minha mui linda casa para que eu pudesse viver repleta de luz; foi ele que renovou toda a instalação eléctrica antes de eu me mudar para lá; foi ele que isolou o anexo que dá para o jardim; foi ele que mudou todas as torneiras a meu pedido (ainda falta uma e eu não me esqueço); foi ele que me garantiu modernizar toda a cozinha; foi a ele que pedi dicas e conselhos para alterar pequenas coisas que apenas para mim são importantes - e confesso que temo por esse dia só de imaginar o caos. Sempre que lhe ligava a pedir alguma coisa, ele ia, tanto que foi a falar com o senhor António que consegui convencer a administração do prédio a substituir a clarabóia do tecto por uma nova, a arranjar e pintar a porta da entrada, a fazer obras de manutenção e conservação e ainda consegui convencer a contratação de uma empresa de limpezas para o prédio e que nos próximos meses o pintem de cima a baixo - e temo, mais uma vez, só de imaginar o caos. Claro que a juntar a tudo isto, tenho os melhores senhorios de todos os tempos que concordaram com as minhas propostas e encarregaram-se de tratar de tudo. Nunca me ignoraram ou disseram que não e acreditem que mais importante do que refilar ou dizer que está tudo mal, é apresentar propostas válidas para bem de todos porque como lhes expliquei «o prédio é para conservar e não para deixar estragar». Continuando, numa das idas do senhor António lá a casa, pedi-lhe para que levasse um berbequim para instalar um suporte para o chuveiro e acabou por substituir a bicha que estava na hora da morte. «Eu vou é pedir à doutora Teresa para substituir este poliban por um novo», disse-me. Fiquei radiante, o senhor António adora o que faz e se é para mudar, que se substitua logo o velho pelo novo. Acho que fiquei tão eufórica com a notícia que dois dias depois estraguei o raio da bicha acabada de estrear. Não sei como consegui fazer aquilo, mas sei que andei um mês inteiro a tomar duche de forma pouco civilizada, com repuxos de água por todos os lados. Claro que não voltei a ligar ao senhor António, não lhe fosse passar pela cabeça que afinal não tenho idade para viver sozinha, por isso, desabafei ainda em 2013 que uma das minhas resoluções para este ano era comprar uma bicha. Eu sei, eu sei, podia desejar uns Louboutin ou uma mala Chanel, mas diz que sou pessoa para dar cabo das coisas e que em dois meses consegui estragar logo duas, por isso estava na hora de substituir a maldita bicha de dois metros.

Agora a questão mais importante: se acham que o importante é ter um amigo médico e que dá sempre jeito ter um familiar advogado ou dentista, desenganem-se. O que realmente importa é ter um amigo dado à bricolage. Caras amigas e mulherio deste mundo e do outro, vão por mim: dá sempre jeito ter um amigo que tenha nada mais nada menos do que, pasmem-se, um berbequim no porta-bagagens. Isso mesmo, homem que é homem tem um berbequim no carro. Mas não é tudo. Amigo que é amigo atenta nas nossas mui interessantes preocupações e resoluções de novo ano e oferece-nos, pasmem-se mais uma vez, uma bicha para o chuveiro. Acreditem, foi de longe dos presentes mais úteis que já me ofereceram. Mas não fica por aqui, não. Macho que é macho, pede-nos duas ferramentas, arregaça as mangas e não sei bem como, consegue desinstalar a bicha malvada e colocar a nova. Nem sabem como me sabe bem tomar um banho civilizado com a água a correr lindamente pelos sete níveis do chuveiro. Temo o dia da sua morte, é verdade, mas enquanto dura é aproveitar para tomar banhos quentinhos até me fartar. Mas também não é tudo, ah pois que não é. Como referi, amigo que é amigo, tem todo o charme de nos levar a passear de carro e assim que abre o porta-bagagens, salta-nos à vista todo um ilustre berbequim. Eu sei, podia ser a coisa mais medonha à face da terra, sair com um tipo que anda com uma arma branca no carro, mas eu sou diferente. Eu tenho uma catrefada de prateleiras ainda por instalar nas paredes dos quartos e neste momento não podia desejar nada mais do que um homem de tronco nu em cima de um escadote a perfurar as paredes lá de casa. Mas como esse amigo é para lá de especial, ofereceu-me também uma das minhas fotos preferidas. Foi ele que a tirou e sim, esta fotografia é para ser colocada numa dessas prateleiras que ele próprio vai montar, senão este texto não fazia sentido.

 

 

Beijinhos, La Bohemie.