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La Bohemie

Parte de mim.

 

Cada vez que me perguntam o que é o La Bohemie, petrifico. Tento por breves segundos construir uma das daquelas respostas elaboradas, com um conceito construtivo e inolvidável, mas não consigo. Se me assumo todos os dias como bipolar, a culpa é do La Bohemie. A outra parte de mim. O La Bohemie sou eu em modo desobstrutivo, desengonçado, genuíno. Quando, há dois anos, o Tito me disse que devia ter um blogue para partilhar toda a minha essência, achei-o louco. Já existiam tantos blogues sobre tanta coisa, seria apenas mais uma. Mas dei comigo a contagiar-me com tal loucura e criei este blogue. E hoje sei que não há igual, porque é parte de mim e eu própria modifico-me todos os dias. Digo aqui que «(...) é com estes ingredientes que faço o que mais gosto: comunicar. Entre tiques e maneirismos, palavras soltas em lugares escondidos, conversas recatadas em viagens descabidas, fotografias desfocadas, histórias inacabadas, assumo-me como a autora das minhas próprias estórias e a encenadora das minhas inúmeras peças.» E é esta a melhor explicação que tenho para vos dar. O La Bohemie sou eu nos dias bons e nos dias maus, sou eu inspirada, criativa, ousada, mas também sou eu em dias angustiantes, cansativos e exaustivos. Sou eu feliz, sou eu triste. Sou eu séria, sou eu disparatada. Sou eu rodeada de amigos, sou eu solitária. Sou eu bonita, sou eu menos bonita. Sou eu produzida, sou eu desleixada. Sou eu. O La Bohemie sou eu. Afinal, acho que é esta a explicação mais sincera e construtiva que vos posso dar: O La Bohemie sou eu, Mafalda S. E é por isso que cada vez que um qualquer anónimo me insulta só por insultar; é por isso que, quando há uns tempos clonaram contas minhas no Twitter e no Facebook, fiquei um pouco angustiada. Não que não esteja preparada para este tipo de situações ou que me preocupe demasiado com pessoas más e mesquinhas, mas porque o La Bohemie sou eu e não há alguém igual a mim. E aqui, eu falo de mim, da minha vida, da minha essência, não da dos outros. Eu partilho o que de mais verdadeiro tenho e sou. Se tenho momentos sérios? Tenho. Se tenho desabafos fúteis? Tenho. Se tenho momentos bons e maus, excitantes e aventureitos, insonsos e aborrecidos? Tenho. Eu tenho tudo isso e muito mais, porque eu sou assim. Há textos bons, há textos maus, há fotos estonteantes, há fotos desfocadas, há palavras eloquentes, há palavras erradas, há desabafos sérios, há partilhas descabidas. Porque eu sou assim. O La Bohemie é assim: genuíno.

 

 

 

Esta fotografia é muito importante para mim e representa muito do que acabei de escrever. Acordei cedo, comprei os jornais e fui a um dos sítios que mais gosto num sábado de manhã: Feira da Ladra. Costumo ir a pé de casa, é um percurso de meia hora que me sabe muito bem e aproveito-o sempre para fotografar. Desta vez fui de carro e não levei câmara, mas estava um dia de sol tão bonito que sentei-me na esplanada do quiosque do Miradouro de Santa Clara. O rio como pano de fundo, metade luz, metade sombra. Os turistas curiosos, os burburinhos em bom tom português, os feirantes lá em baixo vendiam as suas quinquilharias entre palavras de ordem dissipadas numa música ambiente. Isto vai chover, disseram-me. Não me importei. Estava feliz, estava serena, estava calma e uma boa molha a dois nunca fez mal a alguém. Começou a chover. Começou a chover tanto, que guardei os jornais no saco e abriguei-me debaixo da estrutura do quiosque. O sol de um lado, a chuva do outro. Granizo. Caía granizo aos meus pés quando disse «que saraivada». Acho que nunca gostei do meu apelido por causa do granizo. Assim que parou, dei mais uma volta pela feira e fui embora. A temperatura do carro estava tão amena como o meu coração, o volume do rádio marcava um número ímpar, como sempre, e segui viajem até casa. Parámos na berma. Nem tive tempo de entender o que se passara, quando me disseram «Sai, vou tirar-te uma fotografia ali com aquele boneco amarelo». Sorri, nunca me haviam pedido para sair do carro para me fotografar. Normalmente sou eu que suplico a amigos e familiares para me fotografarem. «É para o blogue», tento explicar. Preciso de fotografias para o blogue. Mas desta vez foi diferente, foi ele que quis tirar-me uma fotografia, mesmo que isso o obrigasse a parar o carro na berma da estrada. E é isto e muito mais que faz do La Bohemie tão especial: a espontaneidade, a ousadia, o arriscar todos os dias para ser mais e melhor, diferente. O La Bohemie sou eu. É ele. Eles, elas. Vocês. Um enorme agradecimento a quem me lê, faz parte de mim - e do La Bohemie.

 

Beijinhos, La Bohemie.