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La Bohemie

Pois, está certinho.

Continuo a defender que, enquanto só olharmos para o nosso pequenino umbigo, nunca teremos capacidade de apreciar a dimensão de tantos outros umbigos. Pelo menos gosto de pensar assim. Obviamente que devemos pensar em nós, mas esta mesquinhez e ganância de nos acharmos superiores a tudo e todos não nos leva a lado nenhum. Mesmo que vejamos as coisas deste prisma, devemos guardá-lo para nós.

Isto tudo porque fui aos Correios. Não sou uma fiel frequentadora, mas não é preciso sê-lo para saber que nesta altura nos devemos preparar para enfrentar o caos. Eu sabia que ia para o meio do caos. Tinha de enviar uma encomenda com urgência e nestas situações não há volta a dar. Tirei uma senha e assim que confirmei a bonita fila que se aglomerara na sala, fui à rua. Mas lembrei-me que muito provavelmente teria de preencher papelada. Não tinha a certeza, porque como já referi não sou frequentadora dos Correios, mas tendo em conta que não se tratava de um simples envelope de correio normal e exigia cuidados redobrados, carta registada e essas mariquices todas que levam tempo a preencher, tive a péssima ideia de voltar a entrar e esclarecer essa dúvida. Caso fosse necessário papelada, aproveitava o facto de ainda faltar algum tempo para o meu número e despachava logo metade do assunto. É lógico, não é? Ora, os Correios não têm um balcão de informação com uma menina bonita para nos esclarecer todas as nossas dúvidas existenciais, portanto, teria de me infiltrar no início de uma qualquer fila, pedir licença, e elucidar a minha questão. É assim que se faz, não é? Não tem cabimento uma pessoa ficar na fila uma hora até ser atendida para depois perguntar «Desculpe, vocês vendem selos?». Mas tudo isto seria muito bonito se as pessoas fossem compreensíveis e se se lembrassem de todas as vezes que também elas têm dúvidas, todas elas se perdem neste mundo de gente mal encarada.

 

- Oh menina, eu cheguei primeiro. Não pode passar assim à frente, gracejou uma senhora de idade avançada, mas digna de uma valente projecção de voz.

- Eu não estou a passar à frente, vou apenas esclarecer uma dúvida.

- Mas tem de ir para a fila, como todos os outros! Afinal, não estava a gracejar, estava possuída e chateada com qualquer coisa que nada tinha a ver comigo. 

- Minha senhora, está a ver essa senha que tem na mão? Eu também tenho uma. A senhora não precisa de estar na fila. Essa senha dá-lhe a liberdade de se sentar num daqueles bancos, pode ir apanhar um pouco de sol ou beber um chazinho a ver se se acalma um pouco. Esta fila dá-nos total liberdade para fazermos o que nos apetecer até chamarem o nosso número. Aliás, a senhora até tem o prémio de poder chegar atrasada, porque todos nós somos uns atrasados, e ser atendida três números depois do seu. E eu tenho a liberdade de ir fazer uma pergunta à funcionária.

- Mas está a ir para a frente de toda a gente. Tem de esperar pela sua vez.

- Tem toda a razão e por isso mesmo é que também eu tenho uma senha na mão. Mas repare... quando a senhora chega a casa, o que faz? Abre a porta do prédio, pousa os sacos no chão, abre a caixa do correio, tira a cartinha que lhe vai ficar com metade da sua reforma, chama o elevador e fica à espera que o elevador chegue, certo? Eu entro no prédio, chamo o elevador, abro o correio, deito fora todas as cartas e já tenho o elevador à minha espera. Entende? Eu enquanto estou à espera de uma coisa, despacho tantas outras. E é isso mesmo que vou fazer agora para não atrapalhar todas as pessoas que chegaram depois de mim. Vou preencher todos os papéis para quando chegar a minha vez, só ter de os carimbar e pagar. Entende?

- Ahhh, e pode fazer isso? Oh menina, importa-se de fazer isso para mim?

 

Pois, está certinho.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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