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La Bohemie

Luz de Inverno.

   


     Eu tenho pânico de andar de carro

 

 

Disse-lhe genuinamente, sem medo da sua reacção de repulsa ou estranheza. Era de madrugada e ele fez questão de a deixar em casa, segura. Não passavam de dois estranhos desconhecidos. Haviam passado algumas horas juntos, mas não se conheciam. Sabiam o nome um do outro, alguns detalhes da vida profissional, algumas peripécias da rotina pessoal, mas não sabiam quem eram, de onde vinham e para onde iam. Ele não sabia onde ela morava, ela não sabia regressar a casa. Naquele momento parecia que nada mais importava. Estavam entregues ao misterioso destino, mergulhados numa estranha cumplicidade. Embalados pela noite fria. Perdidos nas ruas escuras. Aventurados pelas estradas despidas. Não o conhecia mas olhando para ele, viu-lhe empatia e compreensão no olhar - e teve a certeza de estar acompanhada da pessoa certa. Era extremamente simpático e dono de um sorriso cativante. Além disso, parecia-lhe ser uma alma incrivelmente genuína e rara nos dias de hoje. Mas também tinha uma qualquer aura indecifrável que alertava as pessoas para usarem de uma certa cautela com ele. Era um tipo bastante discreto, dos pés à cabeça, mas bastava olhar-lhe com minúcia para perceber automaticamente que não era homem para brincadeiras. O abalo causado pelo vivo contraste entre o ruído e o movimento do carro e aquela atmosfera silenciosa e expectante deixou-a momentaneamente atordoada. Acto contínuo, avassalou-a um inesperado sentimento de temor e hesitação. Dir-se-ia que pairava uma estranha e melancólica sensação de santidade. Toda a luz de Inverno que entrava coava-se devotamente através de qualquer cena sagrada e parecia ficar sempre impregnada da auréola de algum apóstolo, do manto da Virgem ou da radiância da glória da transfiguração. Por uma questão de bom gosto e educação, não entraram em conversas íntimas e despediram-se de forma cordial e calorosa.



     Abrimos a capota do carro?

 

Mais uma madrugada de uma noite de Novembro. A luz de Inverno enaltecia o brilho dos olhos. O frio não se fazia sentir, pelo menos o desejo que os unia naquele instante aquecia-lhes o corpo e a alma, as mãos aqueciam-se entrelaçadas uma na outra, os lábios trocavam beijos ardentes embebidos em vinho do Porto e os sorrisos envolvia-os numa imensidão de ternura e companheirismo. Estavam felizes, desprendidos e apaixonados. Estavam entregues um ao outro, novamente sem destino.  

 

 

     Vamos passear de carro?

 

 

Ela sorriu e assentiu num gesto leve e suave. A cumplicidade e o entendimento de ambos era evidente. Ela fizera a viagem de comboio com o irrecusável desejo de passear no carro dele, de capota aberta, e sentir a liberdade a esbater-lhe na cara. A cara abriu-se num sorriso amplo e tranquilo assim que a viu chegar e caminhar a passo lento na sua direcção. Tinha pinta, um charme tratado, uma elegância cuidada, embora as entradas e as rugas à volta dos olhos lhe denunciassem a idade. A voz pausada e tranquila trazia-lhe um conforto inesperado. Um beijo profundo envolvido num abraço apertado. Estava muito atraente, com uma camisa branca e um blazer cinzento escuro e jeans de ganga. O cabelo era de corte curto, mas caía-lhe atraentemente sobre a testa, emoldurando uns olhos que ela sabia serem castanhos. O final da tarde era a sua altura do dia preferida. A luz suave do sol de Inverno, combinada com a beleza austera da paisagem, concorria para fazer o mundo parecer um lugar de sonho. Parecia muito magra e muito jovem, com a mão esquerda profundamente enfiada na algibeira do casaco, numa atitude que adoptava amiúde, sem dar por isso, em momentos de tensão nervosa. Parecia magra e juvenil de aspecto, mas a força intelectual e espiritual do seu rosto chupado nunca parecera tão evidente como naquele momento em que, de cabeça ligeiramente inclinada para trás, esperava que ele avançasse. Ela fazia-o sentir-se novamente jovem, quando ainda tinha diante de si todos os prazeres da vida. De momento, procurava sentir-se assim, quanto mais não fosse  para escapar às pressões da vida adulta.



     Não tenho de levar com os teus traumas e medos

 

 

A voz dele embargou-se terrivelmente. Conhecia bem aquele tom. Era o mesmo que ele usava quando descompunha alguém, num misto de autoridade e censura. Ela sempre tivera medo de andar de carro e naquele momento sentiu o corpo a capotar. A música que recusara-se a ouvir permaneceu míseros e dolorosos segundos a desvanecer. Recordou-se, por momentos, do livro A Insustentável Leveza do Ser - um homem e uma mulher unidos para sempre, numa morte involuntária sob o olhar vigilante de uma amante lasciva e sábia. A clássica dicotomia da mulher inocente e frágil, perfeita para ter em casa, e a amante insaciável e quase fria que põe a cabeça dos homens a andar às voltas. Tal como sentia o seu corpo, a levitar num estranho vazio, aos trambolhões até embater num rail da estrada. Não gostava de ser considerada neurótica, mas aquela análise infindável não era normal. E além disso, dizia a si mesma, fora mais uma visita guiada do que um namoro. Não podia permitir que as circunstâncias a limitassem a ser ou a sentir desta ou daquela forma. Ao mesmo tempo, operou-se nela própria um reajustamento mental. Era uma penitência que impunha ao seu espírito orgulhoso. O tema de vida era a sua cruz emocional, uma espécie de corda que a perseguia e tocava com um volume variável, sempre da mesma forma recordando-lhe os traumas de infância. É uma herança involuntária que lhe tolhe os movimentos até ao fim. Quer pensar que é mais forte do que isso, que é livre, que com todos os sucessos que alcançou consegue aplacar os seus traumas e as suas tristezas. Há mulheres assim, que parecem ter tudo e depois falham no mais importante. Olhou-o com uma expressão incompreendida. Parecia tão prostrado e abatido - e ela sabia que não era do treino do dia anterior. A fadiga vinha-lhe de dentro e estava a dar cabo dela. Tirou o cinto e voltou a olhar para ele. Sabia que algo de errado se passava, olhou-o com tamanha dor, numa tristeza que lhe gelou o coração. O ombro dele estava quente e, apesar de tenso, era muito confortável. A mão direita passeava metodicamente pelo cabelo dela. Ela apertou-lhe a mão com mais força. Eram plenamente um do outro. E contudo, uma parte da sua mente permanecia atordoada por tê-lo assim, parte integrante de si mesma, recebendo cada partícula do seu amor e paixão e dando-lhe tanto em troca.



     Temos de fazer uma viagem grande


Ele fazia-a planar baixinho enquanto viajavam embalados por músicas que não conheciam mas trauteavam, a mão direita nos seus seus joelhos a tamborilar de desejo, enquanto ela devorava a paisagem numa antecipação de prazer. Por mais que desejasse parar de pensar nele, o seu rosto não deixava de lhe aparecer: o sorriso ligeiramente zombeteiro, a expressão de divertimento com que a ouvia. Não conseguia deixar de reflectir sobre a ideia que ele faria daquele momento, para não falar da ideia que faria dela mesma. Até corava quando ele a achava sedutora. O que quereria ele dizer? Talvez, pensava, fosse uma consequência de ela ter despejado o saco sobre o seu passado, o que a deixava vulnerável.

Ele era uma pessoa com muito mundo e isso era nele bastante óbvio. Mas faltava-lhe o mais importante, aquilo que faz com que as pessoas saiam delas próprias e sintam vida na sua plenitude; faltava-lhe a dimensão dos outros. Quando se dá a sério nunca se cobra. O carro em movimento, a música dando alento e o mundo lá fora, cúmplice, sob a luz de Inverno a sorrir para eles. A estrada vai ficando para trás, e amanhã, de regresso à vida, ela sabe que voltará mais cheia e mais feliz.

 

Beijinhos, La Bohemie.