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La Bohemie

O valor da prosa.

Para a Filipa de Lima


Nós recebemo-la tão naturalmente como o primeiro ar inspirado, o primeiro leite bebido, a primeira dor sentida. Nós recebemo-la e seguimos o seu caminho. Raramente paramos para pensar, porque pensar dói. Pensar assusta. Pensar é incómodo para muitas pessoas porque suscita o desejo de mudança. E quem deseja mudar? Ficamos entre o ventre do conforto e o limbo da acomodação, da mesmice e possivelmente da omnipotência que nos sussurra «contigo nunca vai acontecer nada». Mas acontece. A vida é para aproveitar, portanto vai, anda, corre, distribui esse teu talento, essa tua vontade, esse teu sorriso. Desperdiça, não faz mal. Tudo o que nos é dado, é retirado um dia.

Nós temo-la como nossa, como eterna, como certa e garantida e importamo-nos tão pouco com ela. Porquê? Na verdade, pouco sabemos dela, esse dom, esse eventual fardo, esse permanente e maravilhoso desafio do qual nem nos damos conta. A vida, a vida pode ser bonita, boa, incómoda, desesperante, pesada, difícil, aparentemente sem saída, ou pode ser plena de portas que uma vez abertas, vão mostrar-nos tantos outros caminhos. E nós colocamo-la tantas vezes de lado, fechada numa gaveta vazia, num armário desarrumado, num quarto escuro, por puro descuido, por simples desinteresse. Só precisamos de gostar o suficiente de nós mesmos, para amarmos os outros. E acreditar. Precisamos de acreditar todos os dias que vale a pena, senão perdemo-la como uma criança que encontra uma pedra preciosa e, na ingenuidade de pensar que é apenas um pedregulho sem brilho, a lança para lá do infinito.

A vida é uma chama de luz entre duas escuridões eternas, algo que está presente o tempo inteiro. Uma sensação constante. Viver, perceber e ser percebido, sentir, cheirar, gozar, sofrer. Um dia solarengo, a calçada coberta pelo orvalho da manhã reflecte a luz, ainda branda, do sol. O apito do comboio que não existe mais, a lua cheia que nasce à beira da praia e cobre de prata o horizonte nocturno e tão longínquo. A ânsia de ver e rever cada cena como uma criança que precisa de ouvir várias vezes a mesma história faz-te correr perigo. O perigo de amar demais a vida e querer aproveitar cada segundo como se fosse o último. O perigo de arriscares para não perderes tempo. A pressa de viver querendo tudo agora, acaba por expor a fragilidade da vida e, com ela, a sua maior beleza. O inconstante valoriza o tempo que se esvai diante dos nossos olhos estarrecidos, enquanto corremos atrás de nós mesmos em busca do primeiro beijo, do último abraço.

Mas não te preocupes, o amor e a vontade de correr estarão sempre presentes, tudo o que pertence ao teu imaginário não desaparecerá. A paixão vai e volta como a pulsação da vida, e nem o mais frio dos seres humanos é capaz de viver sem amar. A lua nascerá no mar, e o brilho ténue do sol nas manhãs solarengas cobertas de orvalho aparecerão um dia, de solavanco. Melhor do que agir, é pensar. Por isso pensa, pensa se vale a pena correr tanto para chegar a esse lugar indecifrável onde vivem as nossas expectativas, se vale a pena correr tanto para fugir de nós mesmos e de tudo o que representa os nossos medos e frustrações. O melhor é pensar em tudo e encarar cada barreira com coragem, a verdadeira coragem que vive em ti, capaz de enfrentar a maré, reconstruir os teus objectivos e decidir o teu próprio destino. Por isso, minha querida, nunca te esqueças que a vida, tão urgente, tão nossa, tão importante, depende quase sempre do nosso cuidado, da nossa atenção, na nossa admiração.


Beijinhos, La Bohemie.