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La Bohemie

O silêncio das palavras.

«Não são necessárias palavras quando o silêncio fala por nós»

 

 

A sua magreza e as grandes olheiras davam-lhe um ar mais velho, mas quando levantou os olhos das páginas de papel que revia e olhou-me, com um sorriso melancólico, a profunda ternura do seu olhar e a expressão de doce e calma paciência do seu rosto - que pareciam provir de um coração entregue a longa vigília e que ainda não vislumbrava a alva - compensavam plenamente a magreza e o ar mais envelhecido da sua cara bonita. Causava-lhe uma inexprimível sensação de repouso e tranquilidade ter o assunto bem estudado e completo, na memória, e poder estar ali sentado, a saborear aquele calor e aquele conforto. Enquanto o seu pensamento divagava, livre, por outros assuntos, o sol de Novembro caía docemente e o crepúsculo sucedia, inexorável, ao dia e convidava ao descanso.

Recordou, com minúcia, a primeira vez que me vira. O desolador efeito da apatia mental da congregação já abalara um pouco o seu entusiasmo.


     Eu observa-o, em silêncio.

 

A primeira impressão que lhe causei foi a de uma espécie de personificação de silêncio e suavidade, tão silenciosa e suavemente ele percorreu o meu olhar e encostei-me  à cadeira onde me encontrara sentada. E um estranho ar de suavidade: pele macia, renda macia, cabelo macio e doces olhos castanhos escuros, sob a aba de um chapéu de pele creme camelo. Os meus olhos eram vivos e penetrantes, os meus lábios denunciavam uma tenaz independência de julgamento e o queixo de belos contornos era firme e tinha a brancura do mármore, em contraste com a maciez verde da pele do casaco.


     Olhei-o intensamente, durante alguns minutos, e depois desinteressei-me.

 

Ele compreendeu, com aquela intuição inconsciente que deveria ser uma espécie de sexto sentido de todos os homens e executivos, que eu não estava a prestar atenção nenhuma ao seu trabalho. O meu espírito andava muito longe. Mas quando ele começou a citar frases soltas do livro que revia, atraiu a minha atenção. A frase de abertura interessou-me, indubitavelmente. Olhei-o, num movimento rápido de cabeça, com uma cintilação de surpresa e curiosidade nos olhos escuros. Depois, embora não voltasse a levantar os olhos e até inclinasse parcialmente o corpo, para ficar encostada à cadeira, ele sentiu que eu o continuava a ouvir, apesar de só me ver a brancura do perfil correcto. O seu amor devotado ao seu trabalho enchia-lhe o coração. E reconfortava o meu.


     Os meus olhos brilharam. Sabia que estava a olhar para um tesouro que ficava além de toda a compreensão.


Desempenha-se dos seus deveres com amor e carinho e não com o deixa-andar rotineiro que tantas vezes encontramos entre os que trabalham numa tarde de Domingo. Eu folheava o jornal e as revistas que se estendiam à minha frente, rabiscava pequenas linhas enquanto os meus pensamentos viajavam para um horizonte bem longínquo. Mas, no silêncio da breve pausa que se seguiu, ele murmurou com espantosa clareza ao meu ouvido «Gosto de ti». Esta frase isolada pareceu-me a coisa mais real e clara de todo o Domingo. Mais tarde perguntar-me-ia, surpreendida, por que motivo teriam tido tão pouco significado consciente todas as palavras realmente ditas. Lembrava-me do aperto forte da mão dele e de que, ao ouvi-lo dizer, com firmeza e calma «Sim», se me sentia feliz com ele e sorrira, simplesmente porque a sua voz me parecera a única coisa verdadeira e natural do dia.

 

     Sorri-lhe silenciosamente.

 

A inspiração encheu-o imediatamente, e, cheio de segurança, anunciou o texto que revia e leu uma nova passagem, consciente de que sabia agora melhor o seu significado. Voltei a ser sua, pois uma mulher de coração nobre é causa de perpétua surpresa para o homem que dele é alvo. Ele continua a maravilhar-se, no segredo do seu coração, de ser ele o objecto de tanta ternura e tanto amor.

 

     Beijámo-nos, em silêncio.



Beijinhos, La Bohemie.