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La Bohemie

As dores da vida sem dor.

Para a Ana M.

 

 

Há um certo fascínio indescritível em procurar palavras que não existem para me encontrar descrita na textura de uma página virgem, alva. Um fascínio quase torturante que magoa, mesmo sem querer, as minhas mãos quando se esforçam para não tremer, de frio ou de saudade, e manchar a brancura desta folha com todas as dores invisíveis dessa sua ausência tão descolorida.

Platão acreditava que a dor não surge apenas por estimulação periférica, mas também por uma experiência da alma, que reside no coração. Pior do que sentir dores é a dor de sentir nada. Quando as dores da vida nos ferem a alma, têm de ser atiradas pedras para iniciar a ondulação procedente do círculo. Escondo o ferrolho da dor que não digo, nem quero mostrar. Porém vou além do meu silêncio, vou e sei e sinto. Mas a minha solidão, o meu sofrer não consigo mitigar e dói. Porque estamos ambas sós, no nosso silêncio e na nossa dor. Um silêncio de dor ou uma dor de silêncio, já não importa. Há silêncios que nos explodem nas mãos na eloquência de quem sente a revelia das palavras e eu escondo no sorriso amargurado a melodia com que te quero embalar.

Émile-Auguste Chartier afirmou que «Toda a dor deseja ser contemplada ou então não será sentida.» Tal como o amor, as palavras são escritas para serem sentidas e não entendidas, assim como a solidão não precisa significar isolamento e o silêncio pode ser a nossa melhor maneira de falar. Quantas dores sentidas nas almas marcadas pela vida, quando as dores da vida nos ferem a alma. Solidão, inquietação, insatisfação. Palavras que se atropelam na infinidade confusa da dor. Sentimento de desprezo, de insignificância humana. Desejo insaciado, grito de amor calado pela displicência alheia. Murmúrio de dor, espinho de flor no fundo da alma contido. É o não querer daquilo que mais se quer. É a dor mais profunda na vida de uma mulher. Um sentimento puro, recíproco por miséria sentimental. Fere o coração como ao corpo o punhal, desfalecendo-o pois enfim é mortal. Amor, silêncio e melodia, dor que embala no presente e desvenda os segredos do futuro, planos de um futuro atirados para o fundo de um poço. Escuro. A sorte da vida vai para além do silêncio, a sorte da vida pertence ao conhecimento do estar e do ser. Ter solidão na vida é viver sem ter vida. É morrer de uma morte que na realidade não mata. Que destrói aos poucos o que já existia. Grito sufocado, choro da alma, nostalgia. Solidão é a dor que amortalha. É uma dor inclemente que a nossa vida estraçalha.

Nietzsche dizia que o sofrimento é necessário e que o génio que sobrevive ao sofrimento transcende aos conceitos morais desenvolvidos pela cultura. Que nunca se desvalorize a dor silenciosa, digo eu. Pode não ser visível, mas está lá e é tão importante como todas as outras dores, as dores da vida sem dor.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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