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La Bohemie

Estado de hipnose.

«Se eu não tivesse desconfiado, não teria procurado. Se eu não tivesse procurado, não teria sabido. Havia sentido um golpe no meu coração, até ficar desfeita em sangue. Não podia sequer pensar nisso sem sentir ecos da minha dor.»

 

Pouco passava das cinco da manhã quando te sentiste a transpor o estado de inconsciência para o de vigília total, numa fracção de segundo. Tinhas ainda bem presentes as reminiscências de um sonho. E agora tem outra mulher a tocar-lhe. A dor e a solidão ainda te atormentavam, pregando-te à cama durante longos minutos. Nem podes dizer que não tiveste ciúmes porque tiveste, mas ainda mais doloroso é constatares que a miúda pode ser vista em público com ele e tu não. E estás outra vez atirada aí para um canto, com um verdadeiro pavor no estômago, sem fome, sem sede, sem sono, sem nada, a horrível insegurança que te dizia que ias perdê-lo mesmo antes de o teres. E apesar de ainda ecoar aquela vozinha na cabeça que te aconselhava a não ser tão confiante, a dizer-te para teres medo, para te defenderes e evitar magoar-te, não conseguiste ignorá-la e voltaste a sentir o temível pânico. Depois de tudo o que tu e ele passaram, de tudo o que ainda teriam de enfrentar, de tudo o que fizeram um pelo outro, tinhas mesmo que deixar-te abater pela dúvida, minha idiota. Não te bastaram os conselhos das amigas para te afastares, que o tipo era um mulherengo e que te ia magoar mais cedo ou mais tarde? Não te bastaram as vezes que te ligaram a contar que o viram com esta e com aquela? Não te chegaram as vezes que o parvalhão te desfez os dias em fanicos e a vida num inferno? Mesmo depois de lhe teres dito que desististe dele, dos dois, não sabias ficar quieta, minha anormal? Não sabias ignorar e seguir com a tua vidinha? Essa tua vontade de descobrir o mundo custe o que te custar, valeu-te um valente murro no estômago e uma chapada na alma. Gostaste de ver as fotografias, minha parvalhona? A mentira é uma verdade fria que congela os sonhos e queima os desejos, estrangula o corpo e esmaga a alma. Deu-te prazer saber que enquanto ele te enviava textos e mensagens a explicar que não conseguia desistir de ti, foi de férias com ela? Deu-te prazer confiar nele quando te disse que não conseguia desligar os sentimentos que nutria por ti, e andava a dormir com outra? Deu-te prazer acreditar que ele sonhava mesmo em viver uma grande história de amor contigo, enquanto levou-a para o norte para lhe mostrar todos os lugares que te mostrou a ti? Gostaste, minha imbecil? Aquilo atingiu-te como um golpe certeiro. Engoliste em seco e os três minutos seguintes da tua vida passaram num perfeito estado de horror. Sentiste-te petrificar, ensurdecida pelo rugir do teu sangue correndo a uma velocidade astronómica, imóvel, sem respirar, sem pensar. Acordaste banhada em suor frio, com o coração a bater violentamente. Deitada na cama de casal, demasiado ofegante sentiste o teu espírito elevar-se das profundezas do sono. Agora esquece, desististe dele e não vais querer assistir à mudança que se operou nele, do cérebro para o corpo, passando da exasperação para um súbito despertar de consciência porque ele vai ficar imóvel e calado por um longo momento, limitando-se a olhar para ti, tentando descortinar o teu estado de espírito. Merecias dois estalos nessa cara, minha estúpida. Mas vai passar, tu sabes que vai passar. Vais fechar os olhos e chorar tudo o que te falta chorar; vais fechar os olhos e apagar da memória as vezes que ele te convenceu com palavras vazias, cheias de nada. Vais apagar todos os momentos em que simplesmente se deixavam estar, abraçados, em silêncio. Vais desligar dessa cabeça as noites em que te puxou para junto do sofá e cuidou de ti como se fosses dele; vais esquecer os momentos em que te secou as lágrimas e o cabelo. Vais descurar o olhar enternecedor enquanto te observava as pernas despidas e os pés descalços, cada vez que te debruçavas na cozinha da casa dele para chegar ao armário dos copos. Vais ignorar todas as noites em que vestiste os pijamas dele que te ficavam extraordinariamente sexy e apagar da memória o lençol que cobria-lhe as ancas, deixando a nu as suas poderosas costas e braços esculpidos. Vais olvidar os beijos no ombro, as massagens no pescoço, o sorriso apaixonante e o olhar esverdeado. Vais desprezar os passeios, os jantares, as voltas de mota, de bicicleta, os brindes e os serões de Sexo e a Cidade; vais parar de pensar nos risos e gargalhadas, nas discussões, nas promessas e desejos. Vais fechar os olhos e deixar de reflectir em tudo o que vos liga porque essas memórias já não existem. Esses momentos deixaram de ser vossos e tudo o que tu viveste está ela a viver neste momento com ele. Tu deixaste de ser tu. Tu deixaste de ser quem ele idealizou porque vai desejar moldar tudo isso a quem o agarrou. Vais fechar os olhos e acreditar que ele, apesar de ser um frustrado sem ressentimentos, cobarde sem vergonha, cabrão sem sentimentos, tinha razão quanto te disse que eras uma grande mulher. Por isso, minha atrasada mental, quando acordares desse estado de hipnose, vais deixar de perder tempo com o que já não te pertence porque, enquanto andares a gostar de tipos imbecis, nunca terás espaço para amar homens decentes.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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