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La Bohemie

Mudar de casa #2

Desde que saí de casa da minha Mãe, há seis anos, já mudei de morada oito vezes. Vivi em três cidades completamente dispersas e em dois países de dois continentes totalmente distintos. Vou para a nona mudança e a mais difícil de todas até então – até porque ainda nem sequer tenho casa para onde ir. Se me habituei a fazer malas de viagem todas as semanas para as minhas mais variadas escapadelas de fim-de-semana, já não me lembrava do que era encaixotar uma vida. Nos dois primeiros anos de licenciatura arrendei sempre apartamentos mobilados, portanto as mudanças cingiam-se apenas em caixas com pertences pessoais e malas com roupa e sapatos – a parte de empacotar pratos, tachos, copos e talheres ficou sempre por conta da minha Mãe. Depois de ter vivido um ano no Brasil decidi que queria assentar de vez em Lisboa e arrendei uma casa não mobilada, o que implicou comprar camas, sofás, poltronas, armários, mesas, cadeiras, prateleiras, estantes e tudo o que uma casa precisa para se poder chamar de lar. E por isso está a ser a mudança mais difícil de todos os tempos.

 

- Tenho três armários com 3m de altura com roupas, malas e sapatos e a minha vontade de entregar tudo a uma instituição já esteve mais longe.

- Devia ser proibido uma pessoa ter mais de 32 pares de sapatilhas quando usa apenas três.

- Devia ser igualmente proibido ter sapatos que só se usou uma vez na vida. Pior, devia ser proibido ter sapatos que nunca se calçou e usá-los para fins de decoração.

- Os livretes dos móveis da Ikea deviam ter instruções para se desmontar. Estou há dois dias a olhar para uma cama de casal e a pensar que parafusos se tiram primeiro.

- As pessoas que me ajudaram a esburacar paredes e a montar estantes e prateleiras podiam igualmente ajudar a tirá-las. Por isso, manifestem-se que isto de uma criança brincar com coisas bem maiores do que o seu tamanho é perigoso, muito perigoso.

- É bom que a minha próxima casa tenha uma enorme despensa porque esta brincadeira de ter as caixas dos electrodomésticos em casa da minha Mãe, as caixas das televisões e dos aquecedores na arrecadação da outra casa na Portela e a vontade de as ir buscar não sei muito bem onde dá com NADA.

- Onde é que eu tinha a cabeça quando me lembrei de forrar o corredor com papel de parede?

- Onde é que eu tinha a cabeça quando me lembrei de pendurar dezenas de molduras, postais e fotografias nas paredes?

- Onde é que eu tinha a cabeça quando decidi comprar três serviços de loiça? E de talheres e de copos e do raio que partam tanta cerâmica, senhores.

- A sério, quem me ajudou a montar as estantes e prateleiras que me venha ajudar a tirá-las porque eu pareço uma aluna de Letras a tentar resolver a função y=mx+b

- Isto de ser uma eterna apaixonada por livros, cd´s e dvd´s é muito giro, mas pesa. Nas costas e na alma, que tentei empurrar um caixote e espatifei-me no chão.

- E o material do escritório? Dossiers ao lado de dossiers, dicionários, pastas e separadores, dezenas de Moleskines, cadernos e blocos de desenho, cabos e carregadores, caixas com canetas e lápis, as telas, os rolos de papel, os pincéis, as tintas de acrílico e pastel e todo o arsenal digno de um verdadeiro atelier de artes manuais?!

- E as colecções? Ok, não vou mencionar as colecções que ainda suscita em mim um qualquer impulso demoníaco e vai tudo fora.

 

Como é que uma só pessoa consegue acumular tanta coisa numa só casa, senhores? Acho que vou pintar as unhas e esperar por um verdadeiro milagre.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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