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La Bohemie

Nomes e Alcunhas.

Quando era criança odiava o meu nome, mas odiava ao ponto de chorar todos os dias por querer outro. Na família era a Fáfa ou a Fafalda e não a Mafalda, no colégio era a fraldas e não a Mafalda, era a caixa de óculos e não a Mafalda, era a irmã do Ivo e não a Mafalda, por isso não me fazia sentido ter um nome pelo qual não me chamavam. Mesmo em casa era tratada todos os dias por Mafalda Sofia - a sério, fazia assim tantas asneiras? No terceiro ou quarto ano perguntei à minha professora se podia chamar-me Sofia por ser o meu segundo nome, mas era a única Mafalda na turma e não fazia muito sentido tal troca. As Anas Catarinas e os Joões qualquer-coisa podiam, mas eu não. Para mim era uma injustiça tremenda e passei a odiar com todas as minhas forças o meu nome... e óculos. Até que cheguei ao sétimo ano e fiz parte de um grupo só de rapazes e a Mariana - na altura ainda gostava de Marianas e de números pares - e decidimos arranjar alcunhas para todos. Não havia uma associação a um qualquer momento, nem um motivo específico, fizemo-lo apenas por ser cool. A Mariana ficou Mary e eu fiquei Mafy. E desde então que sou tratada por Mafy por todos aqueles que me conhecem há anos, incluindo a minha Mãe, mas para mim só faz sentido que se trate alguém por alcunha quando associam a mesma a uma qualquer situação, momento ou altura da vida. Há quem me chame Maffyns por adorar Muffins, sou a princesa para algumas pessoas, a pequenina ou o Pequeno M. para outras, a Bu, a Mafs, a SMS, a Mafalda S., a qualquer coisa e sei quem me trata por tal e em que situação começaram a fazê-lo.

Ora, eu, que tenho uma tremenda dificuldade em decorar alcunhas, trato as pessoas pelo primeiro nome ou pelo apelido. Mais ou menos como decorar matrículas de carros, eu sei o primeiro e último nomes de toda a gente que conheço, mas alcunhas, oh senhores, eu sou uma abécula para decorar alcunhas. Quando fui a Miranda do Douro no fim-de-semana passado percebi que toda a gente tinha alcunhas, toda. E eu vi-me bastante aflita para perceber quem era quem e foi mais ou menos assim:

 

Márcia - Vamos primeiro ao Fresno que é onde trabalha o Caixas pedir ao Joel a chave da casa onde vamos ficar.

 

(umas horas depois)

 

Mafalda - O Caixote é o dono da tal casa onde vamos ficar e trabalha no Fresco, não é? Foi esse que nos pediu a Tequilla, certo?

Márcia - Sim, e é Caixas, o nome dele é Pedro. E o bar é o Fresno, que é aquele que se vê na fotografia que postaste no teu blogue.

Mafalda - Ahhh, Caixas. Pedro. Fresno. Vocês tratam-no por Caixas por carregar caixas lá no bar?

Diogo - Não. Há uns tempos dava uma série e uma das personagens chamava-se Caixas e gostava muito de ajudar toda a gente, por isso ele ficou Caixas.

Mafalda - E a ti tratam-te por Jantas, porquê? Tem alguma coisa a ver com jantes de carros ou jantaradas com o pessoal?

Diogo - Não, porque o meu apelido é Jantarada.

Mafalda - Mas não é Antunes? Nunca ouvi esse apelido na vida.

Diogo - Depois de Antunes ainda tenho Jantarada.

Mafalda - Que grande confusão. E o Paulo é o Rolhas...

 

***

(de manhã)

 

Márcia - Podes abrir a porta ao Mox, por favor? Ele vem connosco conhecer Miranda.

Mafalda - Quem é o Mox? Conheci-o ontem?

Márcia - Sim, é o Vítor.

Mafalda - Hmmm, o de óculos, que tirou Direito e vive no Porto?

Márcia - Sim.

 

(à tarde)

 

Márcia - O irmão do Mox é o Chouriço.

Mafalda - O Mox, quem é o Mox?

Vítor - Sou eu.

Mafalda - Ah pois é, desculpa. Mas Chouriço? Quem é que se chama chouriço? Até tenho medo de saber a explicação...

Márcia - Carmona, esta é a Mafalda, uma amiga de Lisboa.

Vítor - O que é que estás a fazer agora?

Carmona - De manhã ajudo o meu pai a colocar janelas, agora à tarde estou lá em baixo com as aves e à noite no lixo.

 

(à noite)

 

Márcia - Vamos jantar ao Moinho e se virmos da janela o Carmona a retirar os caixotes do lixo tenho de dizer ao Joel que tivemos um jantar tão romântico como o dele.

Mafalda - O Joel é o teu amigo do Porto que trouxeste cá e apaixonou-se pela Cláudia, certo? E o Carmona foi aquele que conheci à tarde que coloca janelas de manhã, trata das aves à tarde e trabalha no lixo à noite?

Márcia - Sim.

Mafalda - Não consigo decorar o nome deles, só me lembro de onde vieram e o que fazem. É muita gente ao mesmo tempo.

Márcia - Tens o Kanexo que é dono do Peão, o Ximpa, o Bêbado, o Gordo e o Couto. E logo vais conhecer o Plinxas... é o tal Igor a quem queria comprar o carregador para o telemóvel.

Mafalda - Opahhh, essas alcunhas são muito complicadas.

 

***

 

Márcia - Mafalda, esta é a Julinha. É Catarina, mas tratam-na por Julinha por causa do irmão. Este é o Couto, Luís, e o Valter, que é o Ximpa. 

Mafalda - Ahhh, tu é que és o ex da Sara, a minha fã número um, certo?

Valter - Sim. Eu li o texto que escreveste sobre ela no teu blogue.

Mafalda - É mesmo amorosa. Vou conhecê-la no próximo fim-de-semana no porto....

 

***

 

Márcia - Esta rapariga que cumprimentei era a Pateca. O outro que passou era o André.

Mafalda - André. Ele estava hoje à tarde lá em casa a ver o jogo, não estava? Ele e outro rapaz.

Márcia - Sim, é o Kanexo. O outro é o Moreira, mas nós tratamo-lo por Gordo.

Mafalda - Ahhh, então o Moreira foi quem me deu uma mini hoje à tarde e foi o mesmo que te disse que sem Tequilla não podíamos dormir em casa do Caixas e o outro é que é o dono do Peão...

Márcia - Sim. E este com quem falei agora é o Plinxas.

Mafalda - O Plinxas? Não me lembro...

Márcia - É o tal Igor.

Mafalda - Ahhh, o que tem a loja a quem ias comprar o carregador para o iphone. São muitos nomes! E a Pateca... ontem alguém lá em casa disse que eu me ia dar bem com ela... lembro-me de qualquer coisa a esse respeito.

Márcia - Sim, foi o Caixas.

Mafalda - Espera lá, se aquele é o Igor, é o tal que estava com as espanholas no bar do Caixas quando aconteceu aquilo do telemóvel. Que grande confusão.

 

***

Mafalda - Vou para Lisboa e só sei que o Caixas é o Pedro. Não consegui decorar nem as alcunhas, nem os nomes.

Márcia - Quando voltarmos em Agosto será mais fácil.

Mafalda - Mas olha lá, agora para procurar esta gente toda no Facebook vai ser impossível, não vou poder procurar pelo gordo, pelo dono da loja, pelo dono do peão, pelo que trabalha no lixo e o que tem óculos...

Márcia - Eu faço-te uma lista com os nomes das pessoas e as alcunhas.

 

E foi precisamente com a lista da Márcia que consegui escrever este texto. Para mim, mais importante do que as alcunhas é lembrar-me dos momentos que passámos e em que circunstâncias nos conhecemos. E quanto a isso, lembro-me de todos, cada um à sua maneira. E acho que de certa forma passei a gostar muito do meu nome. Mafalda.

 

Beijinhos, La Bohemie.