Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

La Bohemie

Em busca do dois escondido.

 

- Quando formos a Miranda, tens de encontrar o dois.

- O dois, que dois?

- Há um rochedo com um dois e diz a lenda que quem o encontrar, casa-se em Miranda do Douro.

- Um dois? Oh Márcia, tu sabes que eu odeio números pares, não o vou encontrar de certeza.

 

Dito e feito. Quando chegámos ao local pensei que iria deparar-me com um pequeno monte de pedras e que poderia ainda esforçar-me para encontrar o tal dois, mas não.

 

 

- Pronto é aqui, agora tens de encontrar o dois.

- Aqui? Aqui onde? Vejo nada.

- Ali ao fundo, naquele rochedo.

- Bonito serviço, já não bastava ser um número par, tenho de o encontrar a esta distância. Eu vejo mal ao longe, nunca irei encontrar o dois. Aquilo é enorme.

- Procura na zona amarela.

- Aquilo é verde.

 

E ali fiquei, colocava e retirava os óculos, olhava fixamente, fechava os olhos por causa da luz, voltava a olhar e nada. Senti a pressão de encontrar algo que sabia ser-me impossível. Eu não vejo as placas com indicações na estrada, ia ver um dois no meio de um rochedo enorme? Eu sabia que era impossível, sabia que a minha visão não mo permitia, mas não queria desistir.

 

 

- Oh Márcia, eu não consigo mesmo. Está imenso sol e eu mal abro os olhos. Dá-me uma pista.

- Está naquela mancha amarela. A maior de todas.

- Aquilo é verde.

- Não, é amarelo. É tão fácil, eu até encontrei dois dois.

- Olha, então já sabes que te vais casar duas vezes. É bom que sejas espertinha, arranjas um rico, sacas-lhe o dinheiro e depois casas-te com o amor da tua vida.

- Então consegues ou não consegues?

- Não consigo. Eu também não me quero casar em Miranda. Vou casar-me nos Jerónimos, como sempre quis. 

- Olha para ela armada em princesa. Ninguém se casa nos Jerónimos...

- Deixa-me ver a solução aí na placa, mostra-me onde está o dois.

 

E procurei outra vez, olhava para a placa com a solução, observava o rochedo, contornava todos os sinais e indicações, para cima, na diagonal, agora mais ao lado, por baixo do primeiro buraco e nada. Sentia-me a fazer um puzzle impossível, mas até esse consegui fazer um dia e foi um orgulho.

 

 

- Eu só consigo encontrar a parte de cima do dois, o que significa que nunca o irei ver na sua totalidade. Eu vejo mal ao longe, nada a fazer.

- Pronto, já não te casas em Miranda.

- Se encontrar só uma metade posso casar comigo mesma?

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

 

1 comentário

comentar post