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La Bohemie

A competição entre mulheres.

Se os homens têm tendência para comparar com os amigos o tamanho dos seus atributos físicos e o número de miúdas que já levaram para a cama, nós mulheres tendemos a competir com tudo, mas tudo. Não sei se é genético se apenas uma defesa que usamos quando estamos mais vulneráveis ou com a auto-estima em baixo, mas tenho reparado numa certa necessidade de nos mostrarmos mais e melhores do que a colega do lado.

Desde sempre existiu competição na escola, na faculdade, no ginásio e no trabalho. Quem tem melhores notas, o namorado mais giro, o mais privilegiado lugar numa empresa, o corpo mais definido, o melhor ordenado, mais mordomias, é um extinto animal, é a busca de uma posição numa sociedade cada vez mais exigente e restrita. Queremos ser os melhores e mostrar que somos os melhores, ponto. Mas entre amigas? Qual é a necessidade de expormos a uma pessoa de quem gostamos e admiramos que somos melhores do que ela? Se há coisa que me incomoda excessivamente numa conversa entre mulheres são comparações mesquinhas e indesejáveis. Qual o intuito de me mostrar disponível para ouvir uma amiga e entendê-la, saber que está magoada, que terminou uma relação de três anos na qual tinha investido tudo e responder apenas «Eu sei bem o que isso é, eu tive uma relação de seis anos e também fiquei assim. Mas vais saber ultrapassar esse desgosto.» Oi? Mas se a ideia é desabafar e tentar descobrir uma nova visão sob o problema para resolvê-lo da melhor maneira, de que me serve que digam que tiveram mais e melhor, que sabem mais e viveram melhor? Ou eu tenho uma ideia de amizade muito bem definida ou começo a desconfiar que dou demasiada importância a tudo o que me rodeia.

Este tipo de argumentos como «eu sou mais velha, por isso sei mais do que tu», «eu já passei por isso, sei bem o que sentes», «eu tenho mais sapatos, por isso tenho mais dinheiro», «eu namorei mais anos, por isso amei mais do que vocês» não encaixam no meu pequeno cérebro. Todos nós iremos mais cedo ou mais tarde passar (mais ou menos) pelas mesmas experiências, ter os mesmos desejos, sentir as mesmas dúvidas, obter as mesmas certezas, mas as emoções serão sempre diferentes, porque nós somos diferentes. E irrita-me um bocado esta história do «eu sei o que isso é». Não, não sabem, isso é uma ilusão vossa. Se eu sinto de maneira diferente, vou ter uma visão diferente e viver a situação de maneira diferente. «Ah, mas para quê que ias casar com 23 anos? Ainda bem que isso acabou, tens muito tempo para casar.» Tenho? E se eu quiser casar com 23 anos? E se eu não quiser esperar até aos 30 para dar esse passo? Só porque vocês acham que têm todo o tempo do mundo, eu tenho a obrigação de pensar no casamento apenas daqui a dez anos? Se é assim, todas as mulheres deviam mas é fazer as malinhas aos 18 anos, sair de casa dos paizinhos e fazerem-se à vidinha. Se eu fiz, vocês têm de fazer. «Oh mas tu sabes lá a maçada que isto é. Espera chegares aos 29 anos e logo vês o que é ser mãe e o que isso implica.» E se eu não achar maçada? E se o meu sonho for precisamente ser mãe o quanto antes? E se eu tivesse descoberto aos 21 anos que não posso ser mãe? Isso já não é maçada? Ah não, tu és mãe, sabes lá o que é dizerem-te que não nunca poderás ser mãe. Azaruchos. Se souber que não não posso ter filhos, mais ninguém os poderá ter. «Mas tu és doida? Namoras e queres continuar a viver sozinha? É mesmo parvalhona, em vez de aproveitares para dividir as despesas, andas aí armada em independente. Eu, mudei-me logo para casa dele.» Mas porquê? Eu ando de volta deste assunto há demasiados meses e juro que não entendo esta necessidade de mostrarmos que somos mais e melhores do que as nossas amigas, que sabemos tudo e já vivemos tudo e que a nossa missão é única e exclusivamente espalhar a palavra do senhor, como se fosse obrigatório passarmos pelas mesmas experiências na mesma altura, da mesma maneira, com a mesma vontade. Não entendo!

 

Beijinhos, La Bohemie.